A construção das Escrituras

 

Uma citação de Borges:

Clássico é aquele livro que uma nação ou um grupo de nações ou o extenso tempo decidiram ler como se em suas páginas tudo fosse deliberado, fatal, profundo como o cosmos e capaz de interpretações sem fim. Não é, repito, uma obra que possui estes ou aqueles méritos; é um livro que as gerações dos homens, impelidas por diversas razões, lêem com prévio fervor e com misteriosa lealdade.
- Jorge Luis Borges, Sobre os clássicos (1952)

E segue, o comentário do Paulo Brabo em sua Bacia das Almas. Um texto sobre a construção literária da Bíblia e as referências e interpretações cruzadas nos livros que compõem as Escrituras.

Mesmo os que asseguram que a Bíblia tem um único autor não negarão o fato de que o livro não foi escrito de uma única sentada. Fica claro que, em muitos sentidos, a composição do livro foi um processo, uma longa agonia em que o responsável por cada pequena porção deixou uma contribuição que, na maior parte das vezes, procurava não ignorar o que já havia sido dito. Os estatutos legais deitados nos livros de Êxodo e Levítico, por exemplo, são retabulados e expandidos, com diferentes ênfases, em Deuterônomio; as mesmas leis são interpretadas de maneira inusitada, mas não totalmente arbitrária, pelos profetas – mil páginas ou anos depois. A isso, que os teólogos chamam de revelação progressiva, alguns estudiosos do mesmo texto vêem como evidência de um longo processo de transmissão, adaptação e reutilização de um grupo central de tradições.

Minha Páscoa

por Luiz Henrique Matos

“Porque, sempre que comerem desse pão e beberem desse cálice, vocês anunciam a morte do Senhor até que ele venha.” (1 Coríntios 11:26).

* * *

Hoje pela tarde, sexta-feira, eu me vi numa cruz. Olhei para cima e, olhos nos olhos, me vi em Cristo. Não, não me vi em seu lugar, eu me vi naquelas feridas, me vi como sangue jorrando de sua carne, me vi como um espinho afiado cravado em sua testa e perfurando o olho. Hoje me vi como um prego atravessando os tendões até romper o seu punho.

Pude me contemplar por inteiro naquele corpo que se contraía em câimbras e agonia. Vi naquelas feridas o meu orgulho, minha vaidade, meu egoísmo, minhas mais ocultas sujeiras. Vi, em seu brado de dor, ecoar minhas mentiras, as razões infundadas, minha impureza.

Ouvi, no sarcasmo de seus algozes, minha voz  ressoar. Sondei a trilha de seu martírio e observei minha história, minha vida exposta em cada uma de suas lagrimas de dor. Eu pingava sobre a terra árida numa mistura de água e sangue.

Vi meu passado, todos os meus desvios, minha consciência pesada de tantos e tão duros erros que nunca eu quis lembrar de novo.

Estava tudo ali, numa cruz. Eu o apedrejei.

No corpo dilacerado de um homem inocente, vi a minha condenação. Em sua alma, doía o peso dos meus pecados.

Hoje olhei fundo nos olhos do homem em cujo rosto cuspi.

Eu vi.

E ele não me julgava. Sequer questionava. Em seus olhos cansados e cheios de lágrimas, vi o absurdo, o incompreensível, minha maior interrogação: eu vi amor.

É possível?

* * *

Hoje pela manhã, domingo, me vi num túmulo vazio. Havia faixas de linho dobradas no canto e um cheiro de perfume de ervas. Não, eu não vi o corpo do homem morto. “Ressuscitou!” gritavam algumas mulheres do lado de fora.

Mas para mim, ainda ecoava na mente o sussurro daquele cordeiro pascal. “Pai, perdoa-lhe”. Ainda tinha visões com o brilho daquela olhar. Como pode  alguém ter compaixão quando mais carece dela? Com pode alguém amar quando tem todas os motivos para o ódio? Como pode um juiz se destituir do poder de julgar? Como pôde Deus morrer?

Olhei para a gruta vazia e só vi crescer minhas dúvidas. Pois se vi na cruz as minhas culpas sendo levadas, o que sou eu agora? Que será da vida breve que ainda tenho?

E caminhava para casa. Fora daquele túmulo, mais ningúem exclamava, todos correram, ningúem restou. Vi tão somente o jardineiro. Simples, cabisbaixo o homem. Eu passaria reto, admito, sem percebê-lo. Mas ele então ergueu o rosto e me chamou. Pelo nome! Ele me chamou pelo nome. Pude ver seus olhos. O olhar. Era ele.

Era Ele.

Senti o fraquejar de minhas pernas até cair de joelhos e me dobrar aos seus pés. Prostrado, assim estava eu, meu corpo, minha alma, meu todo, eu. Senhor meu! Tentei, mas não consegui dizer nada. Ele me tocou. Como um pai que ampara o filho, ergue-me pela mão, abraçou-me, consolou. “Pronto, querido. Acabou”.

Acabou.

Hoje olhei fundo nos olhos do homem que morreu em meu lugar há três dias.

E ele não me julgava, sequer questionava. Em seus olhos atentos e cheios de vida vi brilhar a alegria, o triunfo, a esperança da vida eterna, a paz, o compreensível, minha maior certeza: eu vi amor.

É possível!

* * *

Hoje é Páscoa. E percebo numa noite de tempestade, o refrigério cair do céu. O que me lava, o sangue, o vinho. O que me salva, o corpo, o pão. Em memória de Jesus Cristo, reparto a ceia e reflito que não foi há dois mil anos que aconteceu minha páscoa, mas no exato momento em que olhei para a cruz e vi quem eu verdadeiramente sou em Cristo: filho de Deus.

“Jesus fez também muitas outras coisas. Se cada uma delas fosse escrita, penso que nem mesmo no mundo inteiro haveria espaço suficiente para os livros que seriam escritos.” (João 21:25).

À Ele.

Primeiros passos

por Luiz Henrique Matos 

 

Soltei minha pasta no chão, larguei o paletó sobre a mesa, afrouxei o nó da gravata e arregacei as mangas da camisa. Eu acabara de ouvir a novidade e não podia acreditar que estava acontecendo. Bem, quer dizer, podia sim, já havia imaginado centenas de vezes como seria esse momento. Mas nada se parecia com aquilo.

Ajoelhei, abri os braços e fiz o convite:

- Vem, filha. Vem aqui com o papai.

Ela riu. Sempre ri. Soltou seu apoio no encosto da cadeira e deu o primeiro passo, cambaleou, tentou se equilibrar, ôôô, caiu sentada. Sem problemas, a fralda amortece a queda. Pronto, vamos recomeçar. Em pé. Um passinho, dois, outro, mais um, vários, vários passos. Ela vinha atravessando a sala em minha direção, com aquela insegurança típica da inauguração dos momentos importantes da vida, com um sorriso de conquista naquela boquinha banguela, seus olhos alternando entre o chão logo à frente e o meu olhar concentrado, orgulhoso, paterno, protetor, satisfeito, radiante, coruja.

- Que belezinha! Minha princesinha já está andando! Parabéns, filha. Que linda! Agora ninguém te segura… Amor, vai tirando tudo o que é de vidro aí de cima do móvel. Amor, você viu isso?! Preciso filmar! Amor, cadê a câmera?

Ela andou. E agora sai descontrolada pela sala, quartos, banheiros, cozinha, corredor, shopping center e ruas. Ela vai a toda, cambaleando, tropeçando, caindo e confiante. Independente.

Será que ainda vai precisar de mim para alguma coisa?

Até ontem só andava mesmo de mãos dadas, com aquela mãozinha suada apertando o meu dedo indicador e um pedaço de pão preso na boca. De mãos dadas com o pai, seus passos são mais largos, ela se sente mais segura. Eu era seu ponto de equilíbrio. E ainda pedia colo para qualquer coisa.

O tempo vai passando. Não me cabe julgar a velocidade das coisas, é o tempo, e pronto. Mas com o passar dos dias consigo enxergar um pouco do meu papel como pai se cumprindo, uma porção do trabalho finalmente frutificando.

Às vezes (cada vez menos) é possível perceber sua insegurança. Ela olha os cinco metros à sua frente – que a visão em miniatura deve transformar em cinco quilômetros – e fica com medo, ameaça sentar, pede colo. Vencendo os instintos super-protetores (são muitos, acredite), eu mantenho distância, estendo os braços e a incentivo a seguir sozinha.

Lembro que Deus já fez isso comigo. Não faz muito tempo, eu nem sabia andar. Levantou-me, estendeu o dedão para que eu me apoiasse e soltou minha mão no momento certo. Na outra ponta, de olhos esbugalhados e braços abertos, estava lá, coruja, orgulhoso de ver sua cria caminhando pela primeira vez com as próprias pernas. Cambaleante, mas vitorioso. Era eu.

Deus me fez para aprender a andar sozinho.

Apesar de já andar sozinha pela casa, a Nina ainda me pede colo. Quando está cansada, quando cai e começa a chorar, quando precisa de alguma coisa ou, nos mais deliciosos instantes, quando corre para um abraço.

Eu nem ligo, eu gosto, é minha filha.

Às vezes eu peço colo.

(Crônica escrita para o Comunidade Carisma.net)

Vem como está

Comentário de hoje do Jorge Oliveira em seu blog, o Canto do Jó. Ele cita uma frase de Philip Yancey e avalia:

Hoje também somos chamados, não a fugirmos dos “impuros e contaminados” ou de enclausurarmo-nos nas paredes da nossa “santa” igreja, mas a sermos agentes e veículos da poderosa graça de Deus, levando O Jesus que está em nós a todos. Os desanimados, os desviados, os errantes, os doentes, os toxicodependentes e todos os outros que andam moribundos nos “campos das bolotas”, são potenciais reservatórios das misericórdias de Deus. Deixemos pois Jesus tocar essas pessoas com as nossas mãos e sarar as suas dores. Juntos comeremos o banquete da graça de Deus.

Ainda ontem li uma frase que completa esse raciocínio. De Ricardo Gondim no texto Linhas Alinhavadas em seu blog:

Graça dá o que o outro não merece; misericórdia, ao contrário, não dá o que o outro merece.

Como nos velhos tempos

por Luiz Henrique Matos

Eram seis da tarde. A reunião de culto começava com ameaça de chuva. Os primeiros acordes já saltavam pelas caixas, embalados seqüencialmente pela guitarra, violão, teclado, bateria, percussão, contrabaixo, vozes. Música.

Como todo domingo, as luzes daquele galpão de fábrica transformado em igreja foram se apagando, as mãos de quase duas mil pessoas iam se levantando e, em alto som, as vozes de um grande coral cantavam elogios ao bom Deus. Eu estava lá, de olhos fechados, mente aberta, coração entregue.

E foi num segundo, entre uma frase e outra que “pufff…”, apagão! Centenas de olhares de interrogação foram dirigidos ao palco. Tudo escuro, tudo em silêncio. Acabou a energia no bairro.

A equipe da música não se deixou intimidar. O vocalista marcou o compasso nas palmas e começou a cantar sem o microfone. Aos poucos o som foi crescendo, as palmas entrando no ritmo, da frente para o fundo do salão as vozes foram-se somando e a música seguiu. Sem instrumentos, sem microfones, as canções do repertório foram improvisadas.

Alguém ao lado pode não ter gostado. Uma senhorinha mais atrás começou a fazer uma oração em voz muito alta. Eu achei tudo aquilo ótimo. Uma massa de vozes fugindo da inércia que uma liturgia padronizada produz. Sem automatismos. Éramos um grande coral desafinado, mas finalmente muito sincero.

A energia voltou duas músicas mais tarde. Tudo correu normalmente para o fim das canções, o momento dos recados, recolhimento de ofertas e o início do sermão. E foi ali mesmo, no meio da mensagem, enquanto o pastor pregava sobre um tema tão marcante, que a escuridão voltou.

Bem - eu pensei - não vai dar para fazer um coral agora. E fiquei imaginando qual seria a decisão daquela liderança. E me senti grato ao ouvir aquele homem gritando, pedindo a todos que fizessem o máximo de silêncio possível porque a mensagem seria pregada até o fim.

E assim foi, sem luz, sem microfones, sem anotações, sem telões ou recursos áudios-visuais. Uma multidão em silêncio, atenta a cada palavra, concentrada no significado da mensagem, nos textos, nos tópicos. No fim, todos reunidos em silêncio, de mãos dadas para uma oração conjunta.

Fui pra casa imaginando como não era nos tempos antigos. Pensei em Jesus, que pregava assim para tanta gente, todos os dias, nos caminhos da Terra Santa. Pensei nas cordas vocais do nosso pastor e que ele deveria estar precisando de uma pastilha Valda.

Eu acho mesmo que às vezes é muito bom voltar à simplicidade. Somos bombardeados por informação de todos os lados, a todo instante. E deixar de lado os recursos tecnológicos e novas mídias de apoio ajuda a ter um único foco em alguns momentos.

Naquela noite, tínhamos à frente somente a escuridão e foi bom, bom demais, perceber o silêncio quase soberano ser rasgado por uma voz exaltada anunciando a única verdade fundamentalmente necessária: Jesus Cristo, o Senhor.

Obrigado aos meus irmãos da Comunidade Carisma, por não desistirem de alimentar esse rebanho faminto.

Donald Miller

 

Até o último domingo, eu nada sabia sobre Donald Miller. Numa busca rápida, baixei o primeiro capítulo “Blue Like a Jazz” e, na nota do autor, li isso:

Eu nunca gostei de jazz porque é impossível defini-lo. Mas, certa noite, eu estava do lado de fora do Bagdad Theater, em Portland, e vi um homem tocando saxofone. Fiquei parado ali durante 15 minutos e em nenhum momento ele abriu os olhos.
Depois disso, passei a gostar de jazz.
Algumas vezes você precisa ver alguém amar alguma coisa antes de você mesmo conseguir amá-la. É como se a pessoa estivesse mostrando o caminho.
Eu não costumava gostar de Deus porque Deus não pode ser definido — mas só até que tudo isso acontecesse.

Novos tempos, velhas brigas

Em tempos de Dawkins empunhando sua espada de ataque à religião e das “defesas da fé” encabeçadas por alguns setores da igreja, uma frase de Donald Miller vale a leitura:

Meu mais recente esforço de fé não é do tipo intelectual. Eu realmente não faço mais isso. Mais cedo ou mais tarde você simplesmente descobre que há alguns caras que não acreditam em Deus e podem provar que ele não existe e alguns outros caras que acreditam em Deus e podem provar que ele existe – e a esse ponto a discussão já deixou há muito de ser sobre Deus e passou a ser sobre quem é mais inteligente; honestamente, não estou interessado nisso.

Fonte: Ed René Kivitz.