Cenas domésticas – Mestre-cuca

por Luiz Henrique Matos

No parquinho, ela brincava na casinha de plástico. Abre daqui, fecha dali e, de repente, uma revoada de crianças barulhentas (acho que isso é redundância, não sei não) passa correndo pelo lugar. Ela observa pela janela da barraca, atenta, séria, entretida aos movimentos da molecada. E quando a turma ameaça correr em direção à saída, ela pára na porta e grita:

- Ei, venham papá, crianças!

:)

Trilhas, obstáculos e uma analogia para a vida cristã

por Luiz Henrique Matos

Seguindo a linha de estudos postados (desde que descobri que posso fazer upload de arquivos aqui no blog), aqui está mais um que a Manú e eu discutimos em casa, junto com nosso pequeno grupo.

Trilhas, obstáculos e uma analogia para a vida cristã.

Como todo estudo que escrevo, esse também está cheio de clichês e frases prontas. Mas quem foi que disse que clichês e frases prontas não são verdades importantes de se dizer de vez em quando?

Leia também: O tempo de Deus e suas promessas (estudo postado anteriormente).

Versos infantis 2 – Alegria, tristeza e distração

por Luiz Henrique Matos

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Eu sou um distraído. Esqueço das coisas quase sempre. Por isso anoto tudo, por isso me organizo excessivamente.

Esqueço carteira, reuniões, chaves, blusa e crachás – só não esqueço nomes, sabe lá por que, mas não vem ao caso. Às vezes, esqueço até dos sentimentos. Às vezes eu esqueço a tristeza. Estou triste e de repente me distraio. E, não sei não, acho que às vezes a tristeza faz parte. É como a dor. Não faz bem esquecer a dor. Dor nas costas, por exemplo, que fica ali quietinha, confortável. Mas aí, se de repente você se mexe do jeito errado… aiii!

Agora, da alegria eu não esqueço. Da alegria eu não me perco, fico nela concentrado, empenhado, distraído. Alegria é distração. E a alegria, a minha, tem cara, tem jeito, tem gosto. Tem a cara da Nina sorrindo, tem o jeito de Deus me mimando, tem o gosto do beijo da minha Manú.

Mas aí, de vez em quando, vem a tristeza e sua teimosia e, nessas horas, se você mexe do jeito errado… aiii! E aí eu já nem me esforço em me concentrar. Eu fico ali, ansioso por uma alegria pra me distrair.

E ela aparece, e sorri, como agora.

(Notas para eu não esquecer: anotação do dia 16/5/9, por volta de oito da noite; o crédito da foto é do blog Interlúdio)

Crer na Igreja, apesar da igreja

Haverá com certeza muitas queixas e razões contra certos líderes e contra alguns modelos de ser e fazer igreja, mas isso não invalida que a Igreja continue a ser a expressão prática do reino de Deus na terra. Continuo a achar que a igreja, na sua expressão local e na sua multiplicidade de erros, contradições, amores e desamores é o meio privilegiado, que Deus escolheu, para o nosso crescimento espiritual. Continuo a crer que Cristo está a preparar e a santificar a “igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” para a apresentar a si mesmo. Continuo a crer na Igreja, apesar da igreja.

Escrito e publicado hoje por Jorge Oliveira em seu Canto do Jó. Leia a íntegra aqui.

Os riscos da prosperidade

por Luiz Henrique Matos

O dono do mundo - Chaplin

Há algumas semanas escrevi e postei um texto chamado “Em defesa da crise”. Era uma análise superficial e pessoal sobre o que está acontecendo com nosso mundo.

Curioso foi que, há alguns dias, revisava minha pasta de rascunhos e achei um de 2007 com algumas observações pessoais sobre a pujança e prosperidade pela qual passava nosso mundo. O título do texto era “Os riscos da prosperidade”. Detalhe: quase um ano antes de a crise financeira estourar.

Vão aqui os trechos do texto que nunca terminei. Na época em que bolha, para mim, ainda era definição de coisinhas de água com sabão que solto no ar para a Nina brincar. Na época em que subprime, para mim, já tinha o mesmo signifcado que hoje ainda tem: não faço a menor idéia!

Peraí, deixe-me explicar: isso não é uma apologia à pobreza, isso é um convite à simplicidade.

Quando por muito tempo deixamos de passar por alguma provação, nossa tendência natural é concluir que somos auto-suficientes naquela questão. Quando nossos recursos são suficientes para o que precisamos, passamos a acreditar que já não dependemos de Deus e sim de um talento ou esforço naturais. Na verdade, tudo é providência divina. E à medida que enriquecemos, nossa tendência maior é o tédio, achar que se tornou obrigatório aquilo que antes nos seria um luxo.

Assim também, uma sociedade próspera deixa de dar valor a questões elementares e passa a vagar sem um norte que a dirija.

Dizemos que nos sentimos vazios. Mas nossas almas não estão vazias, elas estão infladas.

A simplicidade da vida com o Pai é a segurança da direção de vida que precisamos.

Humildade. A prosperidade sem consciência mata esse valor.

Pessoas mudam, o mundo muda (Manifesto)

por Luiz Henrique Matos

‘Evangelho’, do grego euaggélion, ‘boa notícia’ (Houaiss).

Um ônibus lotado, hora do rush. Gente impaciente, apertada, sonolenta, cansada da rotina. Uma voz se destaca entre os grunhidos dos passageiros. É um evangélico pregando sobre sua crença, falando do fim do mundo, do inferno, de Jesus, das “bênças”, e de mais um monte de coisas que não dá para entender direito.

E a mesma cena se repete nas praças, nos panfletos que distribuem nas ruas, no jovem que bate na porta de casa, no rádio, no horário nobre e por toda a madrugada na TV. Por todo lado tem alguém querendo falar sobre Deus e mudar a maneira como vemos as coisas, para que as vejamos do jeito que ele vê – mesmo que o próprio pregador tantas vezes nem saiba bem que ponto de vista é esse que defende.

São as tais das “estratégias de evangelização”. Eu chamaria de “as cruzadas do século XXI”. As igrejas incentivam seus fiéis a anunciarem seu credo às massas, fazem campanhas afirmando que seguem o mandamento divino, que querem “alcançar as nações” para o Senhor Jesus. Será que querem mesmo?

Aqui, eu confesso: acho difícil entender o objetivo disso tudo. Querem um mundo convertido ao cristianismo, mas com que propósito? Tenho a impressão de que o centro está invertido.

Bom, preciso dizer outra coisa: eu também sonho com um mundo transformado pelo cristianismo. Mas, por favor, me entenda e tenha paciência, não um mundo cheio da religião cristã. Isso seria voltar ao erro da inquisição, dos séculos cegos de poder da igreja, da omissão frente às tantas barbáries que se sucederam.

Se for pra ser assim, tô fora, também não quero esse mundo “evangélico” que ao invés de esperança, bota é medo na gente. Se for pra ser assim, estou com Karl Marx e trombeteio que a religião é “ópio” e não salvação.

Um mundo cristão, o do meu sonho, não é o de um povo devoto às tradições da instituição religiosa, homens de gravata, mulheres subjugadas pelos maridos, com hábitos ocidentais e cultura enlatada.

Um mundo rendido a Cristo precisa ser um mundo semelhante ao próprio Jesus. O mundo cristão será lindo. Será povoado de pessoas de caráter irrepreensível, de gente pacífica, bondosa e justa. Será de gente mansa, inteligente, alegre e generosa. De pessoas preocupadas umas com as outras tanto quanto consigo mesmas.

Um mundo convertido a Jesus Cristão não é o que tanto temem os ateus e seguidores de outras crenças. Ao contrário, esse é o mesmo com que sonham todos os justos, é o mundo com que sonha toda a gente que sonha – porque, convenhamos, gente ruim não deve sonhar com nada, tem é pesadelo dos brabos.

O mundo de Jesus é o de gente que vive como ele viveu. Não a vida do personagem inventado pela tradição romana, mas a do Deus que abriu mão de sua condição divina para nascer bebê, crescer como criança e viver como um homem, entre os homens, e a eles mostrar que é possível ser justo em meio à injustiça, ser puro num ambiente corrupto, ser luz num ambiente de trevas. É possível não se contaminar mesmo em meio à sujeira.

Porque Jesus não viveu como um monge. Não, ele não andava em marcha lenta, com olhar distante, fala devagar, intocável, sendo protegido por guarda-costas-discípulos e flutuando a um palmo do chão. Não, ele não foi assim e não há nada em sua biografia que aponte isso. O que sabemos, do pouco que se pode, é que Jesus andava em meio à multidão. E gostava. Espremido em meio ao anseio dos que o buscavam, feliz em estar junto de seu povo, ele tinha “cheiro de gente”. Era homem comum e simples, eras desses caras, tão “gente boa”, que dava vontade de ficar perto o tempo todo. Sentava no chão, sorria, brincava com crianças. Comia tanto o peixe pescado ali na hora e assado numa fogueira, como o banquete na casa do próspero coletor de impostos.

Jesus era um homem sem preconceitos, que conversava e entrava na casa de todos que o procurassem. Ele tinha amigos a quem era fiel. Chorava com sua dor, sorria por suas conquistas, andava ao seu lado. Ele tinha família, tinha a mãe que cuidou de proteger mesmo em seus instantes finais de vida, os irmãos que ajudaram a perpetuar sua história depois que morreu e ressuscitou, o pai que o sustentou e lhe ensinou a profissão de sua vida, na rude condição que tinham em Nazaré.

Jesus tocou, deu atenção, questionou, aprendeu e ensinou. Viveu em paz. E morreu porque o amor é a sua própria condição. Mas viveu, porque nem mesmo a morte pode vencer o amor. A morte não pode vencer o autor da vida (e da própria morte). E sua conquista, ele não guardou para si, mas, como sempre, repartiu. E o que ele deixou não foi dor, foi saudade.

Amor. Um mundo cristão deve ser um mundo de amor. De seres humanos tratando uns aos outros como iguais, com famílias unidas e buscando sua felicidade de mãos dadas, de relacionamentos restaurados, doentes curados, pessoas vivendo com dignidade, com a justiça e a moral prevalecendo em nossa consciência e refletindo em nossas atitudes.

É utopia? Talvez. É, acho que é sim. O mundo perfeito e puro, de fato, eu creio que só veremos lá no “céu”. Mas, se ao menos tivéssemos consciência de que esse é o nosso papel… Se ao menos aqueles que se dizem cristãos tomassem como verdade a missão que tem a cumprir e buscassem viver como seu mestre, então as coisas poderiam mudar. Quando pessoas mudam, seu mundo muda.

A igreja deixaria de olhar para o umbigo em sua barriga obesa e passaria a enxergar a barriga inchada, desnutrida e miserável dos que tem fome, de comida, de amor e de justiça.

Jesus falou que as coisas mudam de dentro para fora. É a vida dele em nós que gera essa consciência. E é só assim mesmo que pode funcionar. Eu mudo, minha família muda, amigos, a comunidade, a região, o país, o planeta… Parece até venda de Herbalife, Avon e Tuppeware e, pensando bem, se alguns caras chegaram tão longe vendendo pílulas para emagrecer, batons e potes de plástico, porque as pessoas não “comprariam”, afinal, a idéia daquilo que tanto anseiam?

É impossível de se fazer sozinho – Jesus mesmo não fez –, mas se os que se dizem imitadores de Cristo forem realmente diferentes, então uma grande rede ser formará e o amor será nossa epidemia, nossa “pílula mágica”, nosso tuppeware. Então a luz será acesa, dissipando essa escuridão que cobre nossa sociedade.

Evangelização, a Grande Comissão, o Chamado de Vida… gostamos tanto de usar esses termos para designar o papel da igreja. Mas no fundo, isso se resume, de verdade, em poucas palavras do que Jesus falou: “sejam como eu”, “amem como eu amo” e “façam isso o tempo todo, no mundo todo”.

Podemos ter um mundo diferente e isso depende de nós. Isso, isso sim, é uma “boa notícia”.

“Um bom exemplo é o melhor sermão” (Benjamin Franklin).

Hemingway e a escrita

Ernest Hemingway

Ernest Hemingway

“Quando um homem tem a habilidade de escrever e o desejo de escrever, não há crítico que possa causar danos a seu trabalho se este for bom, ou salvá-lo se for ruim”.

“No início da carreira, o autor obtém um enorme prazer com aquilo que escreve, e o leitor, nenhum. Passado um tempo, tanto o escritor quanto o leitor obtêm um prazer pequeno. Finalmente, se o escritor tiver realmente alguma qualidade, ele não obterá o mínimo prazer, e o prazer total caberá ao leitor”.

“Um livro sobre o qual você fala é um livro que você não escreve”.

“Não há temas contemporâneos. Os temas sempre foram o amor, a ausência deste, a morte e a fuga ocasional e temporária dela, a que damos o nome de vida, a imortalidade ou a mortalidade da alma, o dinheiro, a honra e a política”.

Frases do escritor Ernest Hemingway, em citações extraídas do blog Máquina de Escrever, no portal G1.

Aliás, vale dizer, seus romances são melhores do que as citações. Gosto especialmente de Verdade ao Amanhecer.

Instantes eternos (Max Lucado)

NatGeo

“Trata com bondade o teu servo, Senhor, conforme a tua promessa”. Salmos 119:65

Instantes eternos. Você os teve. Nós todos os tivemos.

Compartilhar a balança da varanda em uma noite de verão com seu neto.

Ver o rosto dela no brilho de uma vela.

Colocar seu braço no do seu marido enquanto você passeia por folhas douradas e respira o ar fresco do outono.

Ouvir seu filho de seis anos agradecer a Deus por tudo desde o peixe-dourado até a vovó.

Tais momentos são necessários porque eles nos lembram que tudo está bem. O Rei ainda está no trono e a vida ainda merece ser vivida. Os instantes eternos nos lembram que o amor ainda é o maior bem e o futuro não é nada a temer.

Da próxima vez que um instante na sua vida começar a ser eterno, deixe que ele seja.

Texto de Max Lucado publicado no Irmaos.com

Abba!

Tudo começou quando Jesus me ensinou a invocar a Deus usando a expressão Abba. Os historiadores, Joachim Jeremias, por exemplo, afirmam que abba era a palavra do dialeto siro-ocidental aramaico que uma criança usava para se referir ao seu pai. O Talmud, comentário rabínico da Torah, diz que “quando uma criança saboreia o trigo, aprende a dizer abba e imma”, querendo dizer que “papai” e “mamãe” são as primeiras palavras de um pequeno recém-desmamado que está aprendendo a falar. Na verdade, a melhor tradução para abba seria “papa” ou mesmo “pa”, algo como o mero balbuciar, assim como para imma, seria “mama” ou simplesmente “ma”.

Trecho de “A oração de uma palavra só”, texto de Ed René Kivitz para a Cristianismo Hoje.

Donald Miller – Fé em Deus e pé na tábua

Through Painted Deserts

Through Painted Deserts

Quando termino de ler algum livro, é como se uma fase diferente terminasse em minha vida. Desde sempre foi assim, mas até hoje nunca havia me dado conta disso. Quando termino de ler algum livro de que gosto, eu preciso ainda de alguns dias para voltar à antiga realidade e assimilar as marcas – sutis ou profundas – que aquela experiência produziu em mim.

Li o primeiro livro de Donald Miller, “Fé em Deus e pé na tábua”, sem muito entusiasmo até a primeira metade – o que me fez demorar mais do que o normal para concluir a leitura. No começo, achei a história cheia de detalhes desnecessários e sem significado. Mas depois de narrada a experiência no Grand Cannion, comecei a me apegar ao livro. A partir dessa altura, o autor começa a detalhar suas reflexões e o ensaio vai tomando forma no contexto de sua história (dois amigos, ele e Paul, que resolvem deixar a vida no Texas e viajar em uma Kombi pelo interior dos Estados Unidos até chegar no Oregon), com tudo se ajeitando e as conclusões ficando mais claras.

Admito que ainda prefiro o segundo livro, “Como os pingüins me ajudaram a entender Deus”, que li no começo do ano passado (e é muito bom apesar do título que a editora deu para a versão em português) e está sendo adaptado para o cinema, numa parceria entre o próprio Miller e Steve Turner, autor de “Cristianismo Criativo?”.

Ultimamente, seus livros estão entre meus preferidos. Suas idéias não são novas, já as li em outros autores e, se consideradas apenas do ponto de vista teológico, não se aprofundam. Mas ele mesmo afirma que não quer falar de teologia, mas de um ponto de vista. E em seu ponto de vista e, muito mais, no estilo de escrita, Donald Miller é um grande autor. Seu texto tem a qualidade e o ritmo que poucos autores conseguem atualmente – e nenhum entre o que escrevem sobre espiritualidade. É o tipo de influência que os “artistas cristãos” (seja lá o que isso signifique exatamente) precisam em nossas igrejas.

No mais, resta torcer (e fazer alguma ‘pressão’) para que a Thomas Nelson, editora do escritor nos EUA com sede no Brasil, se habilite a publicar outros de seus livros em português (“To Own a Dragon”, “Searching for God knows what” e “A Million Miles in a Thousand Years” ainda não lançado nos EUA).

Aos interessados em materiais produzidos pelo escritor, recomendo o site oficial (www.donmillerwords.com), a revista eletrônica dirigida por ele (www.burnsidewriterscollective.com), seu blog (www.donmilleris.com) e, mais recente, o twitter (www.twitter.com/donmilleris).

Conseguindo, postarei por aqui alguns trechos que destaquei enquanto lia.

- LHM