Parei de usar relógio

Luiz Henrique Matos

Meu relógio parou, já faz uns dias. Mas para não me dar por vencido, resolvi parar com ele antes que se desse conta.

Não que eu tivesse qualquer problema com meu relógio. Pelo contrário, sempre gostei deles, tenho uns três ou quatro guardados, todos bonitos, suíços, clássicos. Mas o fato é que à medida que os ponteiros foram parando, eu também deixei de usá-los. Dessa vez foi o último, meu preferido, que se juntou aos outros e agora está juntando pó no fundo da gaveta de meias.

Eu acho que relógio é uma coisa bem distinta. É a jóia do homem. Mulheres usam colares, anéis, pulseiras e outros badulaques que as enfeitam. Homens usam relógios. É o único adorno amplamente aceito para a nossa categoria e, por isso mesmo, são dignos do preço e peso que nos custam. Meu irmão mesmo usa um daqueles cebolões de bolso – mas eu acho que ele exagera nesse quesito, aí já é vaidade!

Mas o fato simples é que abandonei o meu por pura preguiça. Sou um esquecido por natureza e, por isso, preciso sempre ser extremamente organizado – quem me acompanha que o diga. E, era batata, ao sair de casa, todas as manhãs, precisavam estar todos postos sobre o criado-mudo: relógio, chaves, carteira, celular e crachá (nos últimos tempos um pen-drive tentou partilhar o espaço mas eu deixei ele de canto). Vacilou, se perdeu, sumiu por acaso – ou obra da Nina – ficava perdido até que se desse falta.

No fundo, no fundo, eu sei bem, abri mão é de mim mesmo. Da auto-desconfiança, da chateação, do tilintar dos ponteiros como se me cobrassem algo, como a faca no pescoço dando conta dos prazos que eu não vou cumprir.

A jóia cromada no fundo da gaveta não diz muita coisa. É um peso a menos no punho esquerdo, é um item a menos para lembrar. É, de um jeito bem bobo, um tempo a menos para perder. Ou ganhar.

Cenas domésticas: hora de nanar

por Luiz Henrique Matos

Era noite, todos cansados, a família toda deitada na cama de casal, as luzes apagadas e uma fresta da janela aberta mostrava o céu escuro com as poucas estrelas que a cidade grande permite ver. A Nina, como sempre, estava deitada no “meínho” (como gosta de dizer) e, contrariando o desejo dos pais, teimava em não dormir. Depois da bronca derradeira, ela silenciou por um instante e tentou o último diálogo:

- Mamãe?
- O que é, Nina?
- Tá esculo?
- Tá…
- Tá noite?
- Tá…
- O céu já tá dumindo?!

Quem resiste?

Deus não tem um sonho para você

por Luiz Henrique Matos

Martin Luther King Jr.

Martin Luther King Jr.

Deus não tem um sonho para você.

O sonho de Deus é você. E toda a sua vida, tudo o que você puder ser e realizar. Aquele que te criou não espera de você uma única coisa que um dia vai se cumprir. Você não tem, afinal, uma missão que guiará sua vida ao grande acontecimento que te consagrará. Você não é um super-herói com o chamado para salvar sozinho toda a humanidade e ter sobre si o peso da paz mundial.

Deus evidentemente se orgulha dos feitos de seus filhos e se alegra com suas conquistas. Mas entenda, por favor, que não é a presença ou a falta desses acontecimentos que vai diminuir o amor dele por você e, muito menos, a realização de sua vida. Não são os seus feitos que determinarão seu sucesso ou fracasso. É o seu caráter, a sua vida, as decisões que tomou que serão as suas marcas.

A realização do homem, por maior que seja, não pode ser maior do que o homem.

Por isso, não existem fins que justifiquem meios. Porque não existe fim. Existe o ser, simplesmente SER, e essa é a grande honra. Pode parecer pequeno, pode parecer monótono e sem graça, mas é o estar em Deus que faz a graça e dá a dimensão de grandeza para cada pequeno gesto e direção para a qual nossas vidas se conduzem.

Nas mãos de Deus somos nós o grande sonho – e não aquilo que fazemos ou deixamos de fazer. E embarcados nesse sonho, vivemos as grandes conquistas e as coisas pequenas da vida, sem que uma tenha mais valor ou importância que outra. Em Deus, publicar um best-seller ou pôr minha filha para dormir me dão o mesmo senso de conquista e realização. Porque a alegria não está nas coisas ou experiências, a alegria verdadeira está em Deus e na vida plena e abundante que isso representa.

Em Deus, não fazemos grandes obras. As nossas obras é que se tornam grandes.

Acreditar que temos um plano de vida, é reduzir nossa vida toda a um único projeto. E isso é muito pouco diante da grandeza da vida, da beleza da criação e da infinitude do Deus eterno e soberano a quem amamos.

As grandes conquistas de um homem, não podem ser julgadas por outro homem. E é sob o ponto de vista humano que em geral avaliamos a história de nossos semelhantes. Mas aos olhos de Deus, Martin Luther King Jr. foi tão grande nobre quanto qualquer de seus colegas de escola que foram trabalhar numa fábrica de veículos ou nas plantações de Atlanta.

Se tanto queremos o reconhecimento público, talvez até o consigamos, provavelmente o teremos como fruto de muito esforço. Mas se for esse o norte que rege a caminhada, então é muito provável que deixaremos de lado boa parte das verdadeiras conquistas que nos preencheriam.

Isso não quer dizer que não teremos grandes realizações, que não temos grandes coisas a fazer. Nossos dons e talentos devem ser usados com a finalidade dada por Deus, como fruto que alimente a outros. Porque nas mãos de Deus, pessoas comuns com seus dons afinados estão no centro de sua vontade. Líderes políticos, artistas, intelectuais, cobradores de impostos, pescadores e… carpinteiros.

Por isso, não precisamos nos encolher diante da vida, com medo de não deixar a grande marca que acreditamos que devemos imprimir no mundo. A marca que devemos deixar nesse mundo, somos nós, em nossa existência plena de Deus.

Se temos vida, a vida é Deus em nós.

E por onde você passar, cada palavra que pronunciar, que ali seja sua obra, sua missão, seu discurso libertador. Que seja você a voz de salvação. Que você tenha sonhos para Deus!

Nós em Deus,
Cristo em nós,
totalmente.
Que assim seja
eternamente.
Que assim sejamos,
totalmente em Deus,
simplesmente.

“Para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um: eu neles e tu em mim” (João 17:21-23a).

A Ele!

O blog do Sérgio

Lembro que na minha adolescência eu gostava de visitar lojas de cd’s e passar as tardes ouvindo bandas desconhecidas até descobrir algo muito bom só para poder levar a “novidade” aos meus amigos. Depois, a coisa se espalhava e ninguém já lembrava de onde surgiu a ideia de ouvir aquele som tão bacana. Mas sempre valia o esforço. O meu prazer era descobrir a novidade e passar adiante.

Em 2002 um amigo me mostrou um blog pela primeira vez. Eu achei aquilo meio estranho, desordenado. Mas o blog em questão era tão bacana, que me inspirei e criei um também. Era de humor, acredite (apesar de a única coisa realmente engraçada que eu tinha pra dizer, era falar que tinha um blog de humor – as pessoas riam porque achavam que era piada). Em 2003 criei o Missão Virtual para pendurar minhas crônicas em algum lugar e, desde então… bem, a história é essa.

Conheci o Sérgio Dantas em algum momento no início da minha conversão. Não éramos da mesma comunidade, não crescemos juntos, não temos nenhum conhecido em comum, mas sabe-se lá o motivo, descobrimos uma afinidade muito grande em função de um assunto: a paixão por ler e escrever.

E se tem uma coisa que eu falo para o Sérgio desde nossas primeiras conversas é: “cara, você tem que montar um blog”. Não por ter um blog em si, mas porque eu acho que a internet é um excelente ambiente para troca e descoberta de bons textos (conheci vários nesses anos e procuro visitá-los com frequência: Paulo Brabo, Jorge Oliveira, Sérgio Pavarini, Elienai Jr., Alysson Amorim e por aí segue, todos aí na lista de blogs linkados).

O Sérgio é bom demais. É dramaturgo, poeta, cronista… e demorou demais pra montar um blog. Eu falava isso pra ele e ele achava que era bobagem, coisa de criançada, muito desordenado. Mas, como nunca é tarde, finalmente ele se deu conta do atraso e abriu as portas do Sergiodanta’s Blog (é, assim mesmo, com esse nome) e começou a postar suas pérolas por ali.

Muito do acervo de textos ainda não está no ar, mas o que está já vale a visita.

Ao Sérgio, seja bem-vindo.

A você, boa leitura: http://sergiodantas.wordpress.com

LHM

Versos infantis – a filial

Já se passaram dois anos desde que a experiência da paternidade mudou a minha vida. E se mudou tanto em casa, em mim, na maneira como encaro a vida e no resto das coisas todas, é evidente que mudaria também algumas coisas na maneira como me expresso. E esse blog é a forma mais pública e transparente dessa expressão.

Por isso, desde o nascimento da Nina, textos sobre paternidade, pequenos poemas e crônicas da vida doméstica começaram a ser publicados aqui também. E foi justamente daí que surgiu uma ideia nova. A Manú e eu juntamos corujice, a dinâmica e a interatividade da internet e a coleção de frases de crianças que ela mantinha num caderno há um tempão e montamos um blog novo, o Frases de crianças.

Ainda estamos testando alguns recursos, mas já está bem bonitinho. A ideia é publicar as frases, vídeos e cenas engraçadas dos nossos pequenos. E quando falo “nossos”, falo de todos mesmo. A intenção é ter um blog colaborativo, com conteúdo e textos enviados pelas pessoas que passarem por ali.

Veja algumas pérolas da categoria “Orações” (só pra manter a linha cristã por aqui):

“Querido Jesus, em vez de você fazer as pessoas morrerem e aí criar novas pessoas, por que você não fica com as que já tem?”

“Pai nosso que estás no céu, ave-maria cheia de graça, santificado seja o ouviram do Ipiranga as margens plácidas…”

O endereço é: http://frasesdecriancas.blogspot.com.

E se você quiser colaborar, deixe lá um comentário, siga o blog no Twitter (twitter.com/frases_criancas) ou escreva para o email frasesdecriancas@gmail.com.

Nos vemos por lá também.

Clichês

por Luiz Henrique Matos

Clichês. Algumas pessoas vivem em clichês, como se a vida fosse a letra de um pagode. Outras, são tocadas por eles e acreditam em frases prontas como guias para suas vidas, como se apresentações em PowerPoint fossem escrituras sagradas. Tem gente também que simplesmente não liga e passa pelos dias, livros, filmes e canções simplesmente sem notá-los. E a essa gente do meio, todos chamam de frios, tanto os pagodeiros de uma ponta quanto os outros, na ponta oposta da balança, que odeiam os clichês, que se arrepiam com uma citação óbvia, que fingem nem pensar assim de vez em quando, que preferem fazer de conta que nunca viram um capítulo da novela das oito ou que não se encantaram, lá na adolescência, com uma banda juvenil.

Mas o fato inegável e irrefutável é que sendo ou não algo tão obvio e simplório, a vida tem das coisas simples e das eruditas. Tem, no fundo no fundo, o sentimento comum de cada homem por aquilo que não se explica, pelos gestos instintivos e primitivos dos quais não podemos fugir e precisamos admitir que, sim, que toda mulher se arruma para encontrar o grande amor, se deslumbra com algum perfume, seja qual for, que se derrete ao receber uma flor. E que todo homem se impõe, se faz diferente e imponente para conquistar sua amada – ainda que sua imponência seja, no fim, não mostrar alguma sequer –, se orgulha dos bons amigos que ostenta, que precisa de algo pelo qual torcer e vibrar.

Não dá pra negar que todos temos um romance pelo qual choramos, um filme que sempre lembramos, uma canção para os momentos especiais. É fato incontestável que todo mundo se deslumbra diante da beleza natural do mundo, que quer um dia fazer alguma coisa pra mudar o rumo, que acha que noutros tempos as coisas eram melhores do que são agora.

Nas diferenças de estilos ou costumes, somos na essência iguais, ligados por esse sentimento semelhante – mas nos apegamos às mínimas diferenças para não admitir que somos tão parecidos. Todos temos, de alguma forma, o medo da morte, o sonho da vida abundante, a busca pela felicidade, a satisfação pacífica da alegria. Todos apelamos na hora da dor. Todos nós, cada um dos seres humanos, se rende e renuncia diante do amor.

É fato que todo homem precisa de Deus. Mas alguns vivem isso como se fosse a letra de um salmo em levada de samba, outros acreditam e se guiam pelas páginas do livro sagrado, tem gente que passa simplesmente sem pensar no assunto, ignorando o fato, as canções, o romance. E a essa gente do meio todos chamam de frios e insensíveis, tanto os crentes de uma ponta quanto os outros, no lado oposto da balança, que acham que isso tudo é clichê.

Duas escolhas (Max Lucado)

“Que farei então de Jesus, que se chama Cristo?” (Mateus 27:22).

Pilatos está certo em sua pergunta. “Que farei então de Jesus, que se chama Cristo?” Talvez você, como Pilatos, esteja curioso sobre este que se chama Jesus.

O que você faz com um homem que afirma ser Deus, mas odeia religião? O que você faz com um homem que se auto denomina o Salvador, mas condena sistemas? O que você faz com um homem que sabe o lugar e a hora de sua morte, mas vai até lá assim mesmo?…

Você tem duas escolhas.

Você pode rejeitá-lo. Essa é uma opção. Você pode, como muitos fizeram, chegar à conclusão de que a idéia de Deus tornar-se um carpinteiro é muito estranha – e sair.

Ou você pode aceitá-lo. Você pode fazer a jornada com ele. Você pode ouvir sua voz no meio de centenas de vozes e segui-lo.

“Duas escolhas” texto devocional de Max Lucado, publicado pelo site Irmãos.com (que reúne a maior parte dos textos do autor em português).

Cochilando nas tempestades

por Luiz Henrique Matos
(Tópico de reflexão para o grupo pequeno em 1/4/9)

“Certo dia Jesus disse aos seus discípulos: ‘Vamos para o outro lado do lago’. Eles entraram num barco e partiram. Enquanto navegavam, ele adormeceu. Abateu-se sobre o lago um forte vendaval, de modo que o barco estava sendo inundado, e eles corriam grande perigo. Os discípulos foram acordá-lo, clamando: ‘Mestre, Mestre, vamos morrer!’ Ele se levantou e repreendeu o vento e a violência das águas; tudo se acalmou e ficou tranqüilo. ‘Onde está a sua fé?’, perguntou ele aos seus discípulos. Amedrontados e admirados, eles perguntaram uns aos outros: ‘Quem é este que até aos ventos e às águas dá ordens, e eles lhe obedecem?’” (Lucas 8:22-25).

No meio da tempestade, Jesus cochilava. Em meio ao desespero, o medo da morte, na violência do vendaval, Jesus pergunta serenamente: “onde está a sua fé?”

No trajeto da vida, as tempestades sempre existirão. O que precisamos saber é que, seja qual for a circunstância, podemos confiar naquele que “aos ventos e às águas dá ordens, e eles lhe obedecem”.