Onde nascem os sonhos

por Luiz Henrique Matos

- Nina, já contei uma história e nós já oramos. Agora vamos dormir.
- Mas pai…
- O quê?
- E depois que dorme?
- Ah, aí você sonha, filha.
- Sonha com o quê?
- Com um monte de coisa legal. Com brincadeira, com os amigos, com Deus, com o que você quiser. Só coisa boa.
- E depois que sonha?
- Aí a gente acorda e vai brincar.

Alguns segundos de silêncio…

- Papai?
- Oi, Nina.
- Onde é que sonha?
- O quê?
- Onde é que a gente sonha?
- Onde? Hmmm… a gente sonha no coração.
- Eu não quero…
- Tudo bem, filha, não precisa sonhar.
- E você, pai?
- …eu?

Vira-latas

por Luiz Henrique Matos

No último fim de semana, depois do almoço, levei minha família a uma sorveteria. Estávamos em Itapeva, cidade natal da Manú e, sabe como é, domingo, casa de parentes, churrasco, excessos… e a gente ainda acha espaço para a sobremesa.

A sorveteria fica num calçadão em pleno centro da cidade. É o único estabelecimento em todo o comércio – fora a farmácia e o boteco – que abre aos domingos.

Parei o carro numa rua acima e enquanto caminhávamos, cruzamos com um vira-latas fuçando o lixo acumulado na rua. Cena típica. Sacos pretos revirados, restos de comida consumidos com voracidade e o forte odor da sujeira cruzando o ar. O pobre animal estava doente. Tremia enquanto procurava algo que lhe saciasse a fome.

Não seria nada diferente do que vemos em qualquer caminhada por qualquer cidade, não fosse o momento em que o coitado percebeu nossa aproximação e parou. Cambaleou um instante e, numa fração de segundos, encarou a Manú com aquele olhar de dor e desamparo.

- Esses bichos ficam o dia todo consumindo porcaria, sem comer direito. Aí chegam num momento que engolem o que tem pela frente pra tentar matar a fome.

Do alto da minha sensibilidade, passei reto e tentei desviar o foco da atenção da minha esposa, sabendo o que poderia vir em seguida caso ela…

Pois é, minha estratégia não deu certo. Entrei na sorveteria, mas ela não se contentou com minha resposta tão compassiva. Ficou ali parada no meio do calçadão, a sobrancelha franzida, a expressão intrigada, olhando pro monte de lixo revirado. Aí – como já era de se esperar – me mandou levar alguma coisa boa pra ele comer.

Claro, ela tinha razão.

Numa sorveteria, o máximo que se consegue de qualidade nutricional mastigável é um pedaço de bolo. Comprei uma fatia e subi a rua com o pratinho em mãos. Cheguei perto, meio constrangido com a cena e acho até que estalei os dedos para chamar.

- Ei, amigão, vem cá… toma. Você deve estar com fome.

Cena fofa. Me senti o próprio explorador do Discovery Channel se aproximando das feras de forma heróica e lhe entregando o alimento.

Afastei-me e observei. Ele comeu o bolo. Virei as costas e voltei para o balcão refrigerado do estabelecimento. Missão cumprida. Três bolas, por favor. A Manú orgulhosa. Chocolate, côco e morango, caprichado. Peraí, a Manú ainda estava lá fora, com a mesma expressão no rosto.

- Que foi, amor? – perguntei, sem querer ouvir a resposta.

- Acho que ele não tá bem…

Quando ela teima com algo, vai até o fim. E eu agradeço a Deus por isso.

E lá fui eu. Sorvete derretendo na mão, me aproximei dos sacos de lixo e vi o pobre coitado botando todo o bolo pra fora. Meu coração apertou. Estranhamente, pela primeira vez na vida, eu assistia a uma cena dessas sem passar mal junto. Eu sentia aquele cheiro azedo do vômito vindo em minha direção e não me movia. Eu queria pegar aquele animal no colo e correr para um hospital ou sei lá o quê.

Joguei o sorvete de lado. Pedi a alguém que trouxesse um pouco de água.

Ele tremia, suava, esfregava os olhos, ele chorava. Ele só tem 12 anos. “João Paulo”, foi o nome que falou quando conseguiu pronunciar a segunda frase. A primeira foi a que me derrubou de vez:

- Dói… dói tudo.

Poucas vezes ele me encarou. Quando o fez, seu olhar era de dor e desespero. Ele queria socorro mas não sabia pedir. Ele não estava drogado – conforme pressupus quando o notei pela primeira vez – ele estava cansado, tinha fome e talvez dengue ou uma intoxicação.

Então, liguei para a ambulância, mas o serviço de atendimento não estava funcionando. Aí liguei pra polícia, que me mandou ligar pro bombeiro, que me mandou ligar num 0800 que não funcionava e então eu liguei de volta e eles me mandaram ligar pra polícia de novo, que me mandou ligar pro bombeiro, mas eu avisei que eles não podiam atender e então ele me mandou esperar na linha e depois mandou eu ligar na guarda municipal, que finalmente resolveu mandar uma viatura pra buscar o menino.

O João Paulo mora com os pais na periferia da cidade. Saiu de casa às 7:30 para catar latinhas e vender. Estava sem comer desde que acordou e já vinha passando mal desde cedo, andando pelas ruas daquele jeito. Eram três horas tarde, um domingo de sol, as famílias reunidas para o farto almoço do fim de semana e o menino virando sacos de lixo para ajudar a sustentar sua casa.

A viatura chegou. Uma mulher dirigia o carro.

- Venha, filho. Entre no carro. Vamos no hospital pra você tomar um sorinho.

Ele se arrastou para dentro do carro. Arrastou também o saco preto com meia dúzia de latas que conseguiu no dia. E foi.

Paguei a conta na sorveteria, reuni a família e voltamos para casa. No caminho, vi o dono do sobrado onde o menino ficou sentado em frente jogando água na calçada e me encarando bravo.

Eu dirigia o carro sem nem perceber o tempo passar. E a gente passa pelo mundo e nem vê que tem alguém sentindo dor na calçada. A gente olha para um menino fuçando no lixo e logo confunde o menino com o lixo. Mais um vira-latas. Nem paramos pra pensar que a criança tem nome, tem pai, tem mãe e precisa de água, de arroz-feijão, de lápis e papel e de uma bola pra brincar. A gente vê que é um menino e nem pensa: “podia ser meu filho”. Podia.

Tem tanta gente viciada no mundo. Cocaína, cigarro, dinheiro, álcool, sexo, televisão, vídeo-game, comida… tem gente viciada em tudo. Mas quando penso nessa insensibilidade toda que nos faz ignorar a necessidade do nosso semelhante, eu acho que o pior vício do homem é o próprio homem. A maioria das pessoas que eu conheço – entre as quais me incluo – nem mesmo resiste à tentação de só se preocupar consigo mesmo.

O centro do mundo é o meu umbigo.

De volta em casa, bebi um copo de água, deitei na cama e me acomodei em minha zona de conforto pra poder cochilar um pouco. Mas aí pensei no João Paulo, lembrei dessa coisa toda dos vícios da nossa sociedade, fiquei cruzando as coisas na minha mente e orei a Deus pedindo para que não me deixasse esquecer que ele me mandou amar as pessoas.

Não quero ser insensível aos problemas dos outros. Por favor, não. Eu quero, na verdade, o contrário. Quero olhar e não conseguir dar um passo sem fazer algo. Eu quero que Deus me ajude a mergulhar num vício novo. Eu quero é ser viciado em gente.

Jesus olhou para o João Paulo… “Jesus olhou para as multidões e foi movido de íntima compaixão.” (João 14:14).

“Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados. Erga a voz e julgue com justiça; defenda os direitos dos pobres e dos necessitados” (Provérbios 31:8-9).

Corrida – Forrest Gump e eu

por Luiz Henrique Matos

“Run, Forrest, run!”
(Jenny Curran, em Forrest Gump)

Comecei a correr.

Nunca tive muita habilidade para esportes. Reconheço, entretanto, que demorei para aceitar o fato. Ainda aos onze anos, eu tinha certeza de que um dia seria zagueiro do meu time de coração – bom, se um garoto sonha ser zagueiro, já dá indicações significativas de que não nasceu mesmo para a coisa. Mas depois de passar infância e adolescência entre os últimos escolhidos nas seleções de times na várzea da rua de baixo, não tive muita opção e acabei pendurando as chuteiras (sem muito uso, é verdade).

A vida passaria sem maiores dificuldades não fosse o fato de que hoje, beirando os 30 anos, noto que na mesma medida em que perco cabelos, ganho peso. Até que a ciência consiga provar a relação entre um efeito e o outro, eu sigo “expandindo” além do que deveria. Estou quase quinze quilos acima do normal e minha circunferência abdominal exige que eu faça algo urgente a respeito (tudo bem, a Manú exige bem mais do que a circunferência).

Encontrei então na corrida uma alternativa possível. Me pareceu um esporte menos complexo do que o futebol ou o tênis porque correr, no fim das contas, é o mesmo que andar bem depressa e com saltos. Se eu souber colocar um pé na frente do outro e me mover com certo impulso, então devo estar apto para a coisa.

Como fator motivacional, ganhei um par de tênis de presente no Natal. Depois de pensar no assunto por uns dois ou três anos, dei meus primeiros passos.

- Neguinha, andei pensando, acho que vou fazer corrida. É um esporte simples, está na moda, eu posso fazer em qualquer lugar, já tenho esse tênis legal… O que você acha?

A Manú ficou em silêncio. Não sem razão, em onze anos de relacionamento, já deve ser vigésima sexta vez que prometo começar alguma atividade e entrar em forma. Mas lá no fundo, eu podia ouvir minha querida esposa dizer: “Run, Henrique, run!”

Forrest Gump e eu.

Há algum tempo, assisti a uma palestra do Rick Warren e ele ensinou que se conseguirmos praticar algo por seis semanas consecutivas com uma certa frequência, então aquilo se transforma num hábito que não abandonamos com tanta facilidade. Ele falava sobre a disciplina em nossa espiritualidade e em como é importante manter uma rotina devocional para amadurecermos em nossos relacionamentos com Deus e com outras pessoas.

Lembrei disso em fevereiro deste ano, quando finalmente comecei minha atividade física com o tênis que já não era tão novo. Eu estava correndo três vezes na semana e isso me empolgou. Na ocasião, comentei com um amigo: “Eu devo ter um mínimo de inteligência e força de vontade. Não é possível que não seja capaz de fazer algo por míseras seis semanas.”

Na quarta semana, eu parei.

Rick Warren e eu.

Nas Olimpíadas de Atenas, em 2004, o maratonista brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima liderava a principal prova dos jogos. Ele já estava na etapa final, faltavam apenas seis quilômetros para vencer a corrida (uma maratona tem 42) e mantinha um bom ritmo e vantagem sobre o segundo colocado. Vanderlei passava por uma avenida da cidade e era ovacionado pelas pessoas que assistiam nas calçadas. De repente, um sujeito invadiu a pista e se jogou sobre ele. Os dois sumiram no meio da multidão. As pessoas ajudaram, Vanderlei se esquivou do sujeito, levantou, retomou a passada e seguiu em frente. Mas então, com o ritmo comprometido, ele perdeu duas posições e, ao invés do ouro que parecia garantido, voltou para casa com a medalha de bronze.

O maluco que se jogou sobre o corredor e boicotou sua conquista foi Cornelius Horan, um ex-padre irlandês que defendeu seu gesto como uma forma de protesto religioso.

Boicote. Na maior parte das vezes, eu sou o meu próprio padre irlandês. Encontro justificativas bizarras – e até acredito nelas – para arruinar meus planos quando eles estão em seu melhor momento.

Cornelius Horan e eu.

Geralmente, atribuímos nossos fracassos a alguém ou alguma força do mal que certamente conspira contra nossas vidas. Mas o fato é que, em grande parte, somos nós quem atrapalhamos nossos projetos. Os conflitos no casamento, a carreira que não avança, um livro lido pela metade, a reforma da casa inacabada, a vida de oração que se esfria… tudo ia tão bem e, de repente, num dia meio nublado, a gente acorda e simplesmente deixa que a preguiça nos impeça de seguir em frente.

E é aí que nossa vida de oração é interrompida por uma bola de sorvete, que paramos com a corrida por um pecado bobo, que nossa dieta vai pelo ralo porque não quisemos acordar mais cedo. E tudo se mistura, a vida vira essa bagunça toda, nos culpamos por alguns minutos, os dias vão passando, aí culpamos alguém, reclamamos da falta de tempo, reclamamos da vida e aceitamos mais uma derrota porque, afinal, alguma força do mal certamente conspira contra nossas vidas.

A hiena Hardy e eu.

No fundo, gostaríamos mesmo é de calçar um par de tênis e correr dez quilômetros no primeiro dia. Desejamos tomar uma pílula e ver nossas doenças curadas. Dormir e acordar sem preocupações no outro dia. No fundo, esperamos que Deus esteja pronto para aliviar nossa carga e resolver as dificuldades como um motoqueiro que entrega a pizza no prazo combinado. Queremos coisas imediatamente. Queremos juntar as mãos numa oração breve e saber que nosso relacionamento com Deus será íntimo e já não cometeremos tantas bobagens.

Mas a verdade – que preciso aprender urgentemente – é que o progresso se constrói lentamente. Também é verdade que as coisas dependem mais de nós do que gostamos de admitir – tá aí outra coisa para eu aprender urgentemente. Somos responsáveis pelos frutos das sementes que lançamos. E a realização é fruto de disciplina, fé e perseverança.

Como na corrida, é preciso percorrer um passo de cada vez, um metro a cada passada e, assim, um quilômetro inteiro, depois dois, três, quatro, cinco… e quarenta e dois. E um casamento feliz, uma mãe reencontrando sua filha, um rapaz concluindo os estudos, um homem vencendo o câncer, um livro publicado, o pão de cada dia posto sobre a mesa, a voz de Deus ao seu lado, a minha “barriga tanquinho”.

Schwarzenegger e eu.

“Vocês não sabem que de todos os que correm no estádio, apenas um ganha o prêmio? Corram de tal modo que alcancem o prêmio. Todos os que competem nos jogos se submetem a um treinamento rigoroso, para obter uma coroa que logo perece; mas nós o fazemos para ganhar uma coroa que dura para sempre. Sendo assim, não corro como quem corre sem alvo, e não luto como quem esmurra o ar.” (Paulo, em 1 Coríntios 9:24-26).

É importante saber onde se quer chegar. Mas não adianta querer chegar ao destino sem percorrer o trajeto. O corpo precisa entrar em forma, o caráter precisa ser moldado, há um aprendizado em todo processo. Precisamos dar o primeiro passo. Precisamos dar o segundo passo também. Mas confiantes de que nunca estamos sozinhos. Em cada etapa dessa jornada, Deus nos acompanha e nos inspira. E é assim, avançando dia após dia, que os milagres acontecem.

E eu sigo. Num dia de cada vez, sigo acreditando. E caminhando.

Deus e eu.

Considerações sobre céu e inferno

Fico pensando se Deus, no último dia, resolvesse nos julgar pela nossa capacidade de demonstrar amor ao próximo. Se no fim das contas, a distinção entre homens bons e maus fosse tão simples quanto avaliar nossa atitude em relação às pessoas que passam pela vida da gente e que tiveram fome, sede, estiveram doentes, presas ou necessitadas de alguma forma.

Fico pensando que se as coisas fossem por aí, então o diabo já deveria começar as obras de ampliação nas instalações do inferno.

Fico pensando na passagem de Mateus 25:31-46 e um certo arrepio me sobe pela espinha.

-LHM

Não vou deixar a vida me levar

Às vezes, na vida, a gente é dotado de tão boas intenções que nos envolvemos em alguns projetos e acabamos deixando de lado detalhes importantes.

Pessoas. Estou falando de filhos, esposas, amigos, pais, familiares… porque nenhuma carreira, obra social ou ministério é mais importante do que aqueles que estão – ou deveriam estar – ao nosso lado diariamente.

Não podemos deixar que a vida nos engula, a rotina nos absorva e os dias escorram pelos dedos como areia fina. A vida é nossa e a escolha de como vamos usar esse tempo está, o tempo todo, em nossas mãos.

-LHM

Imagem e semelhança 1 – Livros, moldes e projeções

por Luiz Henrique Matos

A Nina gosta de livros. E você pode imaginar o orgulho que toma conta do pai coruja quando a filha, num shopping center, prefere a “loja de livros” à de brinquedos. E ela se delicia naquele ambiente. E eu me delicio naquela criatura de um metro de altura e fico pensando na nova Cecília Meireles, na Elizabeth Barret Browning, na Jane Austen que vai se formando sob meu teto.

E eu fico pensando o quanto sou estúpido em querer tudo isso.

Como gente egoísta que somos, caímos no erro de projetar em nossos filhos as nossas frustrações. Escritores, advogados, jogadores de futebol… queremos que nossas crias tenham o sucesso que julgamos não ter tido. Ao invés de lutar pelos nossos sonhos, penduramos as chuteiras e passamos a desejar que os pequenos cresçam e se moldem às expectativas que alimentamos sobre eles.

Aí está a diferença do homem em relação a Deus – ou talvez, o contrário seria mais adequado. O Pai não projeta em nós o desejo de que sejamos como ele. Ao contrário, sua glória pessoal é que sejamos totalmente nós, plenos da identidade que ele sonhou para cada um, individualmente.

Daí o erro da religião em querer moldar o homem num padrão de comportamento, caráter e atitude. Daí o erro de todos nós em desejar que nossas crianças se pareçam conosco ou com o ideal de homem que criamos.

Pobres dos filhos, criados para serem livres, mas aprisionadas em gaiolas e estereótipos. Não foi esse, jamais, o sonho do Pai.

Cada pessoa em sua plena humanidade é o reflexo da glória de Deus. Cada pequenino, transbordante de si mesmo, a imagem e semelhança do Criador.

Essa crônica faz parte da série “Paternidade“. Clique aqui ou na página dedicada do menu para ler os textos anteriores.

Reflexos (uma foto para a quarta-feira)

Essa semana, postei essa foto aí no twitter. Eu estava no escritório, quando um amigo alertou sobre o pôr-do-sol que tínhamos na janela. Fiz a foto com o celular e postei com a observação: “Olhando esse pôr-do-sol, o rio Pinheiros até parece bonito.”

Sem nenhuma pretensão, sem crítica, eu só queria repartir à toa a bela imagem da minha cidade (bom, se você não vive em São Paulo, precisa saber que o Pinheiros é um rio poluído e totalmente sem vida – à exceção de uma família de capivaras mutantes que insiste em nadar por ali de vez em quando).

Então, passado um tempo, o Sérgio mandou um comentário na foto que me motivou a postar isso tudo por aqui: “Querido amigo. O rio é lindo quando reflete a luz… Assim, mesmo do jeito que somos, podemos ser belos quando refletimos Deus.”

O Sérgio é um poeta, ele é romântico de um jeito que eu não sou. E de certa forma, eu acho que ele está certo. Somos imperfeitos, sujos, insistimos em caminhar sobre a linha tênue entre a santidade e o pecado. Por isso somos humanos. Por isso, quando o caráter do Pai transparece em nossas vidas, refletimos sua beleza e graça.

-LHM

Teologia na estante

por Luiz Henrique Matos

Hoje, eu mexia lá na minha estante de livros à procura de alguma inspiração para a próxima leitura. Mas, estranhamente, nenhum daqueles na prateleira dos “cristãos” parecia me interessar (isso porque, para facilitar minhas decisões, procuro ler o primeiro capítulo de cada livro que compro ou ganho para definir a sequência certa das próximas leituras – é, também acho que tenho TOC).

A verdade é que já faz um tempo que perdi o interesse por esses debates teológicos e as correntes de pensamento do cristianismo (já falei disso antes – aqui). Ao menos por um tempo, não quero ler o que esses caras pensam sobre Deus e as coisas da igreja. Não estou interessado em defesas de tese e outras questões periféricas da fé.

Mas sinto a necessidade, cada vez maior, de conhecer a Deus. Quero amá-lo e cumprir cada sonho seu que arde em meu peito, quero me apaixonar pelo que faz com que seus olhos brilhem e travar a mais cruel das batalhas contra o que lhe desperta ira. E acho que isso passa por aprender a amar as pessoas.

Eu preciso aprender a amar o meu semelhante – e acho que esse é o foco da vida no momento. Sem as teorias de sempre, de um jeito sincero e real. Quero viver a minha espiritualidade de um jeito mais simples e essencial. E quero ler a Bíblia a partir da ótica dessa nova experiência. Não ao pé da letra, como fiz na maior parte do tempo, mas com o encanto das histórias de homens e mulheres, imperfeitos, inconstantes, mas santificados pelo mesmo Deus que me resgatou.

Então, parei de novo diante da estante e saquei um romance que aguardava empoeirado na prateleira de cima.

Contando histórias


Pai e filho (foto de Jim Skea)

por Luiz Henrique Matos

- Papai?
- Oi, filha.
- Senta aqui comigo.
- Claro, querida. Que que você quer?
- Histórinha, papai! Conta uma histórinha?

E lá vou eu. Em minha saga diária de inventar histórias. As preferidas envolvem uvas (isso aí, uvas. Vai entender…) e um passarinho que vive na árvore da casa da vovó. O resto do enredo é por minha conta e risco. E bota risco! As tramas precisam ser originais, senão:

- Não, papai, essa não. Outra.

Às vezes, eu crio histórias aleatórias, por puro entretenimento. Mas em outros momentos, acabo achando que essa é uma chance de incutir bons princípios e ensinamentos na mente da minha filha. E é nessas horas que uvas deixam de chupar chupetas, fazem orações de agradecimento e passarinhos dividem brinquedos com seus amigos de escola.

Fico tentando pensar num jeito de fazê-la entender verdades importantes, de ser educada de um jeito divertido e aprender um pouco sobre o Deus que eu amo, sobre as coisas certas, sobre ser obediente, sobre torcer pro São Paulo.

E acho que as histórias são um bom jeito para isso. Funcionaram comigo, afinal. Quer dizer, funcionam. Seja quando criança, freqüentando a biblioteca pública ao lado da minha escola no Bom Retiro ou lendo as dicas da revista Alegria. Seja agora, já adulto, extraindo valores dos bons romances que carrego pra todo lado embaixo do braço ou entendendo que através das Escrituras, Deus me mostra suas ilustrações e princípios – porque, em certos casos, não importa tanto a literalidade dos fatos, mas seu significado e efeito.

- Papai, conta uma história de você?
- Conto. Qual você quer?
- De você pequeno. Na bicicleta.

Agora ela deu de querer saber da minha infância.

A verdade é que pais são seres insondáveis, grandiosos, infalíveis, perfeitos – e eu tardo a me dar conta de que eu sou, para minha menininha, um herói. Seu mundo, sua história, tudo parece despertar a curiosidade dos filhos. E de alguma forma, é nesse olhar, nessa expectativa toda, que as crianças firmam sua referência.

Eu me lembro do meu pai enquanto eu ainda era criança. Ele era o homem mais forte, o melhor jogador de futebol, o motorista implacável, o churrasqueiro talentoso e, além do Magnum, o único cara bonito de bigode que poderia existir no mundo. E ele me contava as histórias sobre sua vida no sítio, sobre o pai que perdeu na infância, a vinda para a cidade grande… e me ensinou a andar de bicicleta!

E quem imaginaria que tirar as rodinhas da minha Caloi azul-marinho seria, décadas mais tarde, um grande exemplo de bravura e traria novamente à tona todo o sentimento de conquista e liberdade daquele dia? Quem diria que uma dolorosa cicatriz no joelho seria tão útil para ensinar a Nina sobre certos cuidados que devemos ter ao brincar com os amiguinhos – especialmente se for um pega-pega ultra-mega-super-rápido em volta de uma Kombi num chão cheio de areia?

Todo filho deseja conhecer seu pai. E nessa relação de descoberta, das pequenas coisas e das grandes conquistas, o relacionamento amadurece. No conhecimento transmitido, no aprendizado ensinado e nas histórias inventadas. Na troca de palavras e no toque, nisso se solidifica o amor e se edifica uma vida de cumplicidade. Nisso, um filho admira seu pai, o homem se apaixona por Deus, um pai se aproxima do filho, Deus se revela ao homem, um garoto escolhe seu time de futebol e a paternidade ganha um sentido assustador.

Às oito e meia ela dorme. Depois de ouvir uma ou duas histórias, eu cubro minha menina, oro por ela uma outra vez, desejo que tenha sonhos encantadores e deixo o quarto com a luz indireta acesa, sem deixar de estar atento a cada um de seus movimentos.

Então eu me acomodo num canto da sala, recosto a cabeça em algo macio e, com a Bíblia aberta nas mãos, balbucio meu pedido:

- Pai, senta aqui comigo? Me conta uma história de você?

Essa crônica faz parte da série “Paternidade”:

1. A explosão da vida
2. Versos infantis dessa minha felicidade
3. As grandes conquistas do homem
4. As cegonhas não existem
5. O amor, um calção e gestos primitivos (cinco minutos antes de minha vida mudar)
6. Colos, cólicas, chavões e uma crônica de continuação
7. Na falta do que dizer
8. Pequenas lições
9. Doentes curando doentes
10. Primeiros passos
11. Sobre a velhice, rotinas e prioridades
12. Música para os meus ouvidos
13. E o futuro, a quem pertence?
14. Versos infantis 2 – alegria, tristeza e distração
15. De mãos dadas
16. Sobre ser pai no Dia dos Pais
17. A doce presença
18. Transportando tesouros e atropelando cachorros – os heróis da vida pequena

Uma Páscoa para quem não acredita em Jesus ou coelhos

por Luiz Henrique Matos

Há alguns meses eu almoçava com uns colegas do trabalho e um deles contou a história de um conhecido que abandonou a carreira na área de vendas de uma multinacional para ser pastor de uma igreja evangélica. “É um ótimo negócio”, disse meu amigo, “ele parou de vender produtos e passou a vender o que todo mundo quer: perdão e vida eterna”. E enquanto boa parte ria, emendou: “vai ficar rico!”.

Aquilo teve um certo efeito em mim. Até então eu pensava que muita gente não acreditava em Jesus por não conhecer sua história ou não compreender a razão de seu gesto pela humanidade. Mas meu amigo provou o quanto eu estava equivocado. E então passei a compreender que boa parte das pessoas que conheço e não são cristãs, conhece a história do cristianismo mas elas não a seguem simplesmente porque não acreditam que isso faça diferença real em suas vidas.

Durante essa semana que passou especialmente, eu sempre paro para pensar no fundamento da minha fé. A época da Páscoa sempre me atrai por duas razões principais e importantes na vida: a essência da fé cristã e os ovos de chocolate.

Direto ao ponto e recapitulando, ainda que não seja novidade para muitos, o ponto central da reflexão sobre a Páscoa é que Jesus Cristo, entre sexta-feira e domingo, morreu numa cruz e ressuscitou. Na cruz, o Deus vivo, como cordeiro de sacrifício sem qualquer impureza (na analogia da tradição judaica) sofreu o peso da culpa e a condenação pelos pecados de toda humanidade e morreu no nosso lugar. Na ressurreição, ele venceu a morte e, na sua vitória, nos deu vida eterna. Através de Jesus, se assim acreditamos, recebemos perdão pelos nossos pecados e vida eterna ao lado de Deus.

Pensar nisso tudo sempre me emociona e faz compreender a profundidade e a razão da minha fé em Deus. Refletir sobre esses dias, em Jesus e tudo o que ele fez por mim, me faz amá-lo intensamente e me faz voltar aos primeiros dias dessa relação.

Agora, se isso tudo faz sentido pra mim, acredito que o meu amigo – e muito mais gente – não vê razão para levar o assunto tão a sério porque, no fim das contas, tanto faz se Jesus era Deus ou não e, ainda que fosse, eles não estão tão preocupados com a questão do perdão de pecados e qualquer coisa sobre vida eterna. Primeiro, porque essa discussão sobre pecado, certo e errado e culpa é uma coisa muito relativa – o certo para você pode ser errado para mim e vice-versa.

E sobre a questão da vida eterna, é mais fácil construir para si um conjunto de crenças nos quais se apegar do que seguir ao pé da letra um único raciocínio defendido por uma igreja, comunidade ou grupo religioso. Até porque, convenhamos, diante de tantas opções, a chance de se estar errado é considerável. Ou ainda, para os extremistas, pode-se simplesmente não acreditar em nada e deixar que as coisas aconteçam naturalmente de acordo com as circunstâncias, o acaso ou o ciclo da evolução.

Sinceramente, acho que por esses pontos todo mundo pode ter razão. Não se pode justificar algo em que se acredita com uma história sendo contada repetidamente ao longo dos anos, por mais que essa história trate dos anseios mais profundos que o homem carrega consigo: redenção e uma resposta para a morte.

Não se pode acreditar em Deus porque as coisas assim parecem convincentes ou convenientes. Porque Deus não se materializa, se explica ou modela.

E um grande erro da igreja, eu acredito, seja esse vício de tentar sistematizar a fé. Certa vez eu ouvi um pastor pregar e ele dizia: “se um dia você conseguir criar uma definição para Deus, jogue fora e fuja, porque você acabou de criar um ídolo”. Não dá. “O homem tentar entender a dimensão de Deus é o mesmo que uma ameba tentar entender o pesquisador, olhando através do tubo do microscópio”.

E porque Deus é incompreensível, também não dá para acreditar que alguém passe a acreditar em sua história porque ela lhe foi contada de maneira convincente. A espiritualidade de um homem, até para o mais incrédulo, é íntima, insondável e inexplicável.

Jesus é a única forma de se ver Deus de algum jeito. Como ser, como agir, como amar, o que fazer, o que não fazer… todas as nossa questões, das fundamentais às mais banais, são respondidas ao olharmos para Jesus.

É por isso que, diferente do que andamos pregando em nossas igrejas, Jesus não prometeu prosperidade às pessoas. Ele também não prometeu benefícios ou poderes sobrenaturais, nem milagres para todos os casos. Ele nos prometeu uma razão de viver. Ele prometeu saciar nossa fome existencial, prometeu uma resposta suficiente. Ele oferece a alegria eterna.

Mas para experimentar essa alegria é preciso, naturalmente, acreditar. Para enxergar Jesus como Deus, é necessário conhecê-lo. E aí reside a grande questão: dois mil anos após a morte de Jesus, como pode um homem chegar a tais conclusões por si só? Não creio que seja possível, salvo exceções eventuais.

O amor, a fé e a esperança são das coisas que não se incutem na mente de um indivíduo. São coisas, aliás, das quais não se convence alguém sequer, até que ele mesmo experimente tais sentimentos e aceite, naturalmente, que existem questões que jamais compreenderemos ou dominaremos.

É impossível sistematizar o amor. E Deus é amor. Daí a coisa toda de alguns parágrafos acima.

Agora, já vi gente tentar, com alguma dose de sucesso, retratar o amor através da arte. E de um jeito mais convincente do que um cientista faria, vi o amor impresso num homem apaixonado. Nas telas, em livros, no cinema e na música. Nas histórias bem ou mal contadas, nas personagens inventadas ou na crua realidade humana, não há como fugir do que nos domina, não há alternativa para nossa impotência diante do que não se explica.

Somos impotentes diante do amor.

E outra vez voltando ao ponto central desse texto – se é que ele ainda tem algum -, só é possível que nos apaixonemos por alguém que, de alguma forma, “experimentamos”. E como alguém pode experimentar a Jesus sem acreditar nele ou no que ele representa?

A materialização de Deus somos nós.

Sei que isso é discurso batido e meio desgastado por aqui, mas a verdade nunca basta: as pessoas só acreditarão no Jesus que amamos se puderem vê-lo personificado no exemplo de vida daqueles que se dizem seus seguidores.

Jesus disse: “amem as pessoas como eu amei a vocês”.

Note, ele não nos pede um sacrifício. Deus não exige ou espera que qualquer um de nós se entregue numa cruz tal como ele fez. Jesus nos pede para amar. Seu mandamento fundamental, que provoca reflexões, não se baseia numa ordem explícita e dolorosa. Ele diz: “Ame! Ame intensamente, da melhor forma, cheios de alegria e compaixão. Ao ponto de não suportarem o sofrimento alheio. Rendam-se ao amor”.

O amor. Esse é o seu único pedido ao homem. Essa é também, sua maior promessa.

Parecer com Deus, portanto, tem muito menos a ver com uma conduta de vida ou práticas religiosas e se resume num ponto mais simples do que muitas vezes gostaríamos: amar o próximo seja ele quem for.

E agora, pensando aqui no sofá de casa, eu acho que esse meu discurso é bastante convincente. Sei que muitos dos meus amigos vão ler essa carta e concordar comigo. Bom, mas não vou ser eu o hipócrita aqui. Admito que não tenho uma soma sequer nessa medida de bondade e amor que Jesus pediu que tivéssemos.

Mas penso que se tem algo na vida que eu deveria buscar, isso passa por me aperfeiçoar num sentimento. Peraí, perdão, o termo não é aperfeiçoar… Não acho que seja possível lapidar o amor de alguma forma. As coisas passam, portanto, pela entrega, pela renúncia, por deixar que o sentimento que me domina, cumpra em mim seu papel. Que o amor, que Deus, seja em mim plenamente para que eu seja, de alguma forma, amor para os outros.

“Isso é impossível”, talvez você diga. E talvez eu mesmo diga isso também. Porque apesar da simplicidade do argumento, isso não é mesmo fácil de pôr em prática. Mas, antes de deixar que minha auto-piedade e o conformismo me façam deitar a cabeça no travesseiro para dormir o bom sono dos ímpios, uma verdade me vem à mente e martela: se Jesus tivesse pensado como eu, talvez a cruz tivesse ficado vazia. E, pimba, uma outra dose de Páscoa para refletir.

Bem, realmente é mais fácil convencer minha filha de três anos que um coelho subiu pelo elevador até nosso apartamento no 11º andar e botou um ovo de chocolate num canto escondido da casa, do que amá-la de forma tão intensa que um dia ela passe a acreditar que esse amor, real e incondicional, tem sua fonte num Deus perfeito e amoroso, que fez tantas coisas por ela.

E… chocolates! Hummm, isso parece uma idéia genial!

Ebook: Correndo atrás do vento

Um dos temas que involuntariamente tenho desenvolvido por aqui ultimamente trata da igreja. Sim, todo o blog trata de igreja, mas tenho visto que algumas das crônicas e ensaios tem se concentrado especialmente nessa crítica. Não é proposital, como disse. Mas é inevitável, dado o contexto em que vivemos.

Por isso, resolvi fazer uma experiência. Depois de 7 anos restrito a esse pequeno ambiente digital, reuni os textos da série “Correndo atrás do vento” (que você pode acessar, compilada, num link logo ao lado) em um ebook, devidamente publicado no site Bookess, que se presta habilmente a esse tipo de serviço.

Clique aqui para acessar e baixar o arquivo

É evidente que, como tudo aqui, esse não é um manuscrito finalizado. É um experimento, que pode e deve sofrer revisões, acréscimos, cortes e ajustes. Mas eu acredito que pode ser o primeiro passo (junto com as demais séries) de compilações futuras.

Desnecessário dizer que gostaria de saber a opinião de vocês.

Obrigado pelo carinho e paciência.

Abraços,
Henrique

Os evangélicos-bomba

por Luiz Henrique Matos

Estava pensando nesses caras que amarram uns quilos de dinamite na barriga e, em nome de Alá, se explodem em algum local público e movimentado do mundo. Pensei em como isso algo totalmente possivel de fato, em como tanta gente acredita nesse tipo de absurdo.

Minha curiosidade passava por tentar entender em que momento exatamente um rapaz se convence de que a resposta para todas as coisas passa por apertar um botão e botar tudo pelos ares. A sua vida inclusive.

Minha outra curiosidade era tentar imaginar o tipo de deus em que um indivíduo acredita para chegar à conclusão genial de que ele se satisfaz com esse ódio todo. Que paz, afinal, pode coexistir com a guerra?

E então eu lembrei de um sujeito que eu conheci quando me converti. Um não, vários sujeitos. Pensando bem, igrejas inteiras. E acho que se eles tivessem nascido no Afeganistão, estariam hoje numa fila de voluntários talibãs para morrer em nome de sua fé.

Fé o escambau, essa gente se mata em nome do ódio. Deus, Alá ou seja lá quem for, é um pretexto para a amargura que os entorpece. Fariseus. Estão cegos e acham que podem conduzir alguém a algum lugar.

Se o Bin Laden fosse evangélico e vivesse no Brasil, acho que ele faria um baita sucesso. Com programas na tv, emissoras de rádio e mega cruzadas em praças públicas.

MST? Farc? Al-Qaeda? Que nada, nós teríamos os evangélicos-bomba. Fogo puro.

Eu juro que tenho medo.

Mas pior do que o absurdo desse extremo físico, eu acho que é o que já acontece por aqui. Os evangélicos bomba já estão entre nós. E eles matam silenciosamente. Com suas mensagens, com as pregações escabrosas e as bizarrices doutrinarias, nossos terroristas escravizam inocentes, manipulam vítimas emocionalmente feridas e, aos poucos, minam suas forças. Eles matam, milhares, todos os dias, com suas campanhas que prometem milagres e prosperidade instantâneas, com a culpa e o medo incutidos nas mentes que influenciam e se escondem atrás de um subterfúgio: o deus que professam, mas que contraditoriamente, existe para lhes servir em seus caprichos.

Eu tenho mesmo muito medo.

Tenho medo porque convivo com gente assim. Tenho medo porque, preciso confessar, eu mesmo já quase entrei na fila dos homens-bomba (duvida? Então dê uma olhada em alguns dos textos que escrevi há seis ou sete anos).

Mas eu temo, principalmente, por duas razões fundamentais. Temo pelas pessoas que morrem todos os dias, enganadas, acreditando num deus tão cruel. E temo – me apavoro – pelas pessoas, as que não caem na lorota dos terroristas, mas que acreditam que o cristianismo, no fim das contas, é o que esses bandidos pregam.

Mas há esperança, sempre há. Precisa. Porque em outros momentos da história em que ideologias parecidas ganharam espaço (vide os fariseus do primeiro século, as cruzadas na Idade Média, a inquisição da igreja romana…), Deus providenciou uma mudança de cenário. Não, ele não travou guerras. Ele também não dizimou os enganadores com raios ou enviou exércitos para a batalha – bom, tome cuidado você, se desejou que fosse assim. Deus não faz isso porque Deus não tem inimigos. Deus não fere, não mata, não condena. Deus é Pai, ele é amor.

E o amor é a sua espada, é seu argumento, seu único recurso, é a revolução pela qual escolhe salvar o mundo sempre que teimamos destruí-lo.

Por amor ele criou, viveu entre nós, perdoou, nos ama e procura. Com o amor, ele nos derrota. Amando incondicionalmente, o Pai nos constrange, nos faz cair de joelhos. E amados, nos rendemos, nos prostramos. E já não há outra saída.

O homem cujo coração se rende a Deus, passa a enxergar como ele. Odeia o que Deus odeia e ama o que ele ama.

Porque, pensando bem, não precisamos de algo pelo qual morrer. Precisamos de uma causa pela qual viver.

“Ame o outro como a si mesmo.” (Jesus)

Esse texto faz parte da série “Correndo atrás do vento”. Leia mais:

1. A teologia não salva
2. Em defesa da crise
3. E o futuro, a quem pertence?
4. Pessoas mudam, o mundo muda (manifesto)
5. Os riscos da prosperidade
6. Clichês
7. Deus não tem um sonho pra você
8. Julgando um livro pela capa (e pessoas por sua opção religiosa)
9. Jesus não tinha inimigos
10. Um Deus, diversos cultos
11. Comodidade
12. Churrasco, futebol, igreja e uns quilos a mais

Comendo o fruto outra vez

por Luiz Henrique Matos

Ahh, Adão!

Você já pensou no que seria o mundo se ele e Eva não tivessem comido o fruto proibido? Quanto tempo e sofrimento não teriam sido poupados? Como seriam hoje o mundo e as pessoas?

Viveríamos no Paraíso. E a árvore estaria intocada, no centro do jardim. E seríamos inocentes amigos do Criador. Felizes, puros, plenos e realizados. Sem pecado, o mundo estaria muito diferente do que estado lamentável em que se encontra.

Ahh, ilusão. Doce ilusão.

Não faltariam chances. Não teria fim a vontade ardente do erro não cometido. E seria de se perder em contar nos dedos os momentos em que nós, qualquer um de nós, homens, botaríamos o fruto na boca outra vez.

Quem atira a primeira pedra? Quem tem coragem, afinal, de culpar Adão e Eva pelo erro que todos nós cometeríamos?

“Consequentemente, assim como uma só transgressão resultou na condenação de todo os homens, assim também um só ato de justiça resultou na justificação que traz vida a todos os homens. Logo, assim como por meio da desobediência de um só homem muitos foram feitos pecadores, assim também, por meio da obediência de um único homem muitos serão feitos justos.” (Romanos 5:18-19)

Ahh, Jesus…

Cenas domésticas: conversa séria

por Luiz Henrique Matos

Lá em casa, toda vez que a Nina passa do ponto nas birras ou apronta alguma coisa realmente muito grave, nós a chamamos para “uma conversa muito séria” lá no quarto (calma, antes que a polícia bata na porta de casa, quero deixar claro que “uma conversa muito séria” não passa de três minutos de bronca, a sós, olhando bem na bolinha nos olhos).

Pois bem, num sábado pela manhã estávamos no quarto assistindo TV, enrolando para levantar e a mãe fez o favorzão de trazer café na cama para nós. Bolo, pão com requeijão, iogurte, Nescau no copo, bolachas… só coisa boa. A certa altura, já quase satisfeitos, a Nina foi tentar virar de lado na cama e acabou dando um chute no meu copo de Nescau. Sim senhoras e senhores, lá foram 400ml de líquido marrom bem escuro sendo absorvidos por lençóis, edredon e pelo colchão.

Ela ficou preocupada.

- Pai, disculpa…
- Nina, não se preocupe, filha. Não tem problema, tá? Não foi culpa sua, foi sem querer.

Limpamos a cama, levamos a tralha para o tanque e eu fui para a sala terminar de dar o café da manhã para a Nina. Só havia sobrado o iogurte. Abri, lambi a “tampinha” de alumínio, me ajeitei no sofá e enquanto tentava pegar a primeira colheirada para servir minha filha, fiz alguma grande besteira e espirrei iogurte para todo lado. Sofá, almofadas, roupas e o piso, tudo devidamente afetado.

Eu fiquei preocupado.

Corri para providenciar minha segunda faxina em menos de uma hora e a Nina observava sentadinha no sofá. Quando voltei, meio ofegante, retomei o assunto.

- Ixi, Nina, você viu o que o papai fez?
- Derrubou tudo, né?
- É… aiaiai. Mas agora já está tudo pronto. Vamos tomar o seu danone?
- Mas… pai?
- Oi, Nina.
- E quem é que vai “conversar muito sério” com você?

(para o Frases de Crianças)

Cenas domésticas: nunca é cedo para ensinar

por Luiz Henrique Matos

Era cedo. Estávamos na cozinha e como todos os dias, eu preparava um copo de Nescau para a Nina. “Leitinho, papai, leitinho” é a fala matinal que me desperta, junto com a música do Louis Armstrong que toca no relógio.

Hoje ela foi atrás de mim. Enquanto eu ajeitava o lanchinho da escola, ela virava o copo de leite numa golada só. Depois, não satisfeita, pediu:

- Pai, eu quero também aquele outro. O amarelo.

- Que amarelo, filha?

- Aquele, pai. Abre o armário.

Bom, eram seis da manhã, eu estava com sono e você precisa me desculpar pela falta de paciência com minha pequena.

- Ah, filha, isso não é hora de olhar o armário. Não é hora de doce. E você já comeu.

- Nããão, pai. Eu quero aquele amarelo. Eu esqueci o como chama…

- Nina, eu não sei o que você está querendo. Você já tomou seu leite, agora é hora de se arrumar e ir pra escola.

- Ah, pai… por favoooor! (ela agora está com essa mania de dizer “por favoooor” pra qualquer coisa que queira mesmo, como se fosse um apelo em última instância. Funciona).

- Tá. Eu vou abrir o armário.

Abri a porta e só via pacotes de biscoito, o açucareiro, Nescafé, sal, Ovomaltine, uma lata amarela de leite Ninho… Opa, amarelo!? Leite Ninho?

- Nina, é isso aqui que você quer? Um grudinho*?

Ela sorriu. Ficou um tempo sem dizer nada. Eu, com a cara amassada de sono ainda esperava retomar a rotina. E ela arremata:

- Viu como você aprende?

Realmente.

(*Grudinho é um troço que minha sogra inventou e a Nina adora. A receita é simples: duas colheronas de leite em pó e uns 10 ou 20 mililitros de água. Vira uma pasta grudenta e, segundo dizem, deliciosa – há paladar para tudo)

- Crônica para o blog Frases de Crianças

Churrasco, futebol, igreja e uns quilos a mais

por Luiz Henrique Matos

No domingo, fizemos um churrasco aqui em casa. Amigos, comida, crianças, preguiça e amenidades. Gosto de ficar assim sem fazer nada ao lado de gente querida. Faz bem para a mente, é bom pra recuperar o tempo que a gente perde trabalhando.

Foi bom também porque, sentado com os amigos depois do almoço, pude falar sobre um assunto que já há algum tempo me angustia.

Em geral, os assuntos que me angustiam por algum tempo estão restritos a trabalho, família, o próximo jogo do São Paulo, a igreja e, mais recentemente, o aumento significativo da minha circunferência abdominal – com o perdão pelo linguajar chulo.

E nesse caso, preciso dizer que não será hoje que abrirei um discurso sobre detalhes estéticos. A verdade é que, dentre as tantas coisas, falávamos do tema menos apropriado para uma ocasião tão singela: igreja.

O ponto essencial é que eu fico imaginando se não seria mais adequado que a igreja privilegiasse sua atuação social, colocando isso no primeiro plano de suas atividades, ao invés de expor suas práticas devocionais e investir recursos na divulgação de suas crenças, doutrinas e mensagens.

Posso estar sendo ingênuo, mas será que ajudar os pobres e auxiliar as famílias não é mais urgente do que discutir a forma como nos comunicamos com o mundo, as melodias de nossas canções e as estratégias de evangelização?

Jesus vivia dessa forma. Ele dedicava seu tempo em servir e se relacionar. Ele ouvia mais do que falava.

Sei de muitas igrejas se preocupam em servir e ajudar os necessitados. Grande parte das que conheço, investem o maior percentual de sua arrecadação em projetos sociais e assistencialistas. Mas quem é que sabe disso?

Em nosso relacionamento com a sociedade, externamos as práticas devocionais e internalizamos os serviços. Mostramos ao mundo nossas atitudes de adoração, nossos cânticos e as pregações impactantes e guardamos, dentro dos muros de nossas comunidades, as obras sociais, os orfanatos e os ministérios de cuidado familiar.

Recebo semanalmente uma série de newsletters de igrejas brasileiras e norte-americanas mostrando sua agenda de atividades. São boletins com design elaborado, mensagens bonitas e linguagem moderna. Falam basicamente de atividades devocionais. Os livros, os clipes musicais, os vídeos inovadores, a presença em redes sociais, a mensagem do culto, a série de pregações, a dinâmica dos grupos pequenos e os acampamentos. De verdade, no que isso parece interessante a alguém que não conhece uma igreja?

Quando mostramos uma preocupação real com os outros, o que fazemos nos torna simpáticos.

Posso também estar errado – eu costumo estar quando alimento minhas utopias -, mas acho que as pessoas estão cansadas dos nossos discursos e divagações. Falo, inclusive, das pessoas de dentro da igreja. Ninguém mais tem paciência para ouvir um grupo de religiosos anunciando salvação, perdão, redenção e um messias, quando não sentem que precisam disso realmente. Quando, principalmente, não conseguem enxergar o Messias nas pessoas que o anunciam.

Eu vejo mais gente mudando de igreja do que gente nova na igreja. Eu vejo sempre as mesmas poucas pessoas servindo a muitos “irmãos de fé” e nenhuma multidão empenhada em servir o mundo.

E então, quando ninguém mais está disposto a ouvir a nossa defesa inovadora do cristianismo no contexto social pós-moderno (bom, sempre tem que ter um titulo bacana para virar tema de livro depois), culpamos a pós-modernidade, a televisão e algum multimilionário com pinta de anti-cristo e investimos mais dos escassos recursos que já temos em plástica pura e simples. Remodelamos nossas canções, redecoramos os salões de reunião, lançamos mão de novas mídias e – me perdoe a expressão – “secularizamos” nossa imagem para torná-la mais interessante ao homem dos nossos dias.

Agora, por outro lado, quem não se sente atraído – ou ao menos respeita – um grupo de pessoas que se empenha em melhorar a condição do mundo? A solidariedade, as boas ações, a generosidade, o amor. Esse é o comportamento que não enfrenta barreiras, que encontra a simpatia das pessoas.

Jesus costumava guardar suas práticas devocionais para os momentos de isolamento. Sua intimidade com Deus era vista pelos que já o conheciam há mais tempo. Diante das multidões, ele não se exibia, ele saciava necessidades.

Do lado de fora da igreja, em sua face mais exposta, deveria aparecer a prática essencial do cristianismo: a preocupação com o próximo. O amor. Internamente, em nossas reuniões e congregações, aí sim, nossa vida devocional é que sustenta a força desse trabalho (intercessão, adoração, estudo, jejum). Outra vez, o amor.

Reclamamos da dificuldade de evangelizar e da grande “concorrência” para expor a Verdade em que cremos no mundo atual, mas somos nós quem esquecemos de refletir a imagem da Verdade em que cremos: Jesus Cristo.

Jesus, puro e simples. Precisamos menos dos recortes periféricos e mais da sua essência.

Bom, é verdade que eu demorei a notar, mas finalmente nos tocamos de que o assunto não era a coisa mais interessante para se discutir num churrasco. Por isso mesmo, deixamos o assunto no ar e, num silêncio momentâneo de reflexão que se seguiu, ouvimos um “alô, você ligado no futebol…” vindo da televisão. Ia começar o jogo. Coisa boa e digestiva para um domingo à tarde, de extrema importância para acalentar nossas inquietações mais íntimas.

- Rapaz, como anda jogando mal esse seu time! – eu disse para provocar um amigo.

- Cara, você engordou, hein? – ele retrucou.

E as coisas, como sempre, ficaram a deriva. Meu peso, o jogo de futebol e as questões fundamentais – e inapropriadas para um churrasco – da igreja.

“A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo” (Tiago 1:27).

Esse texto faz parte da série “Correndo atrás do vento”

Leia mais:

1. A teologia não salva

2. Em defesa da crise

3. E o futuro, a quem pertence?

4. Pessoas mudam, o mundo muda (manifesto)

5. Os riscos da prosperidade

6. Clichês

7. Deus não tem um sonho pra você

8. Julgando um livro pela capa (e pessoas por sua opção religiosa)

9. Jesus não tinha inimigos

10. Um Deus, diversos cultos

11. Comodidade

12. Churrasco, futebol, igreja e uns quilos a mais

Um pedaço de nós

por Luiz Henrique Matos

Em geral, temos um certo orgulho e valorizamos mais as coisas que nos mesmos fizemos.

Brinquedos para as crianças, pipas, lavar o carro, pendurar um quadro, construir uma casa – mesmo que seja de bonecas -, constituir família. Filhos.

Precisamos nos envolver, dedicar tempo. Precisamos nos doar para que tenhamos um pouco de nós mesmos semeados naquilo que chamamos “nosso”. Sejam coisas ou pessoas.

Devemos ser parte de algo para entender o seu valor e, finalmente, dar a vida por isso.

Como maridos, pais, artesãos, profissionais, carpinteiros, filhos…

Deus entende dessas coisas.

“Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16).

A Bíblia é humanidade pura

por Luiz Henrique Matos

Deus escreveu sua história através das vidas de pessoas imperfeitas. Eram pecadores, assassinos, adúlteros, impetuosos, mentirosos, trapaceiros, medrosos, idolatras – e a Bíblia não esconde isso em nenhum momento. A Bíblia é humanidade pura. Mas anos depois, quando se lê a respeito desses homens, os registros os tratam como “os pais da fé”. As Escrituras os chamam de amigos de Deus, santos, homens segundo o coração do Pai. Deus conhece suas histórias mas não os trata pelo que fizeram, ele prefere enxergar o que significaram para o mundo. Ele os vê como filhos. O Criador olha para sua criatura e vê a obra completa. O homem.

“A glória de Deus é um ser humano em plenitude de vida.” (Irineu)

Duas fotos de Cartier-Bresson

Hoje fui à exposição de Henri Cartier-Bresson aqui em São Paulo. Aproveitei o horário de almoço e caminhei com o Gustavo até o lugar.

Além da qualidade das imagens, outra coisa me fez parar pra pensar sobre o talento do fotógrafo: a sensibilidade para enxergar a beleza no cotidiano. As cenas comuns, a vida rotineira nas cidades e no campo, as pessoas em seu dia-a-dia sem se desligar do que fazem. O incrível, na fotografia e nas cenas, é o “olhar ausente” (como diria o Sérgio) do artista que encontra o encanto nas coisas pequenas.

Vale para fotos, para a escrita e para pensar nas coisas que nos afetam.

Henri Cartier-Bresson

Vale também uma visita à exposição ou ao site do fotógrafo.

Henri Cartier-Bresson

Pra quê?

por Luiz Henrique Matos

Sabe, acho que a competição toda já passou do ponto para mim.

É que chega um hora em que as pessoas ao redor começam a te observar e cobrar um “próximo passo”. Nessa altura do jogo, já não basta sua capacidade, talento e empenho para que o mérito lhe seja outorgado, agora é preciso vencer, é hora de arregaçar as mangas e partir para a luta. Como se a vida fosse um campo de batalha e nós, combatentes ambiciosos.

Desculpe, mas eu não quero. Peço perdão também pela imaturidade dessas palavras, mas às vezes a infantilidade ergue a voz petulante. Pensando bem, eu nem diria que é infantil, isso tudo é coisa de adolescente, que acredita ter a razão no bolso do shorts e o direito de se expressar e reivindicar sua… sua… bem, adolescentes só querem ter o direito de alguma coisa, não importa exatamente o que seja.

E eu tenho muito disso, admito. Eu quero ter o direito de não precisar provar minhas habilidades a todo instante – até porque, é fato, não sou hábil em muitas coisas, muito menos a cada instante.

Quero viver. Quero amar, estar, crer, ser. Simplesmente ser.

Quero desfrutar a boa vida ao lado da mulher que amo, dos meus filhos, da família, dos amigos, em Deus.

E quero ter o direito de estar errado sem que isso me pese como condenação.

Quero parar de competir, porque acho que não vale a pena e, no fim das contas, isso não é vitória coisa nenhuma.

Eu quero acreditar – e tenho esse direito – que ao invés de me estapear com alguém para ocupar o lugar mais alto, posso lhe estender a mão, chamá-lo de irmão e finalmente estarmos, todos, na posição mais nobre.

Jesus disse: “do que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”.

Quando crescer, eu quero é ganhar a vida.

Presente de aniversário

Ontem foi meu aniversário e ao chegar em casa, além de um excelente presente dado por minha esposa e filha, recebi também um carta, assinada pelas duas, com o criminoso conteúdo abaixo:

02/12/09

Filha, hoje é aniversário do papai. Fala o que você deseja para ele e eu escrevo aqui nessa cartinha.

- Bolo… vela… hmmm sorvete… não, sorvete não, sorvete é ruim… não, sorvete sim, põe aí mãe… e presente.

Isso é o que ela deseja para você!

Mas eu também perguntei:

- Filha, você gosta do papai?
- Ahâm
- Ele é divertido?
- Ele não é divertido, ele é papai… feliz aniversário pra ele. Vou fazer um desenho.

Esperamos que goste.

Bjs,
Mamãe e Nina

Amamos você!

Entre os rabiscos que ela própria fez, havia o desenho (com a devida legenda, evidentemente) de um bolo e uma vela.

Não se deveria deixar pais emotivos receberem esse tipo de coisa. Mas a vida tem dessas peças. Foi a melhor coisa do dia.

Comodidade

por Luiz Henrique Matos

A comodidade é um perigo que não bate à porta. Ela chega sem avisar. É duro se dar conta, num certo dia, que a aparência de felicidade e paz na sua vida é, na verdade, o marasmo. Tudo parece tão fácil, as coisas caminham bem, cada passo pode ser dado com um certo planejamento. Mas nem percebemos que estamos andando em círculos.

É um perigo.

E não se trata de alegria ou tristeza, nem de riqueza ou pobreza. Trata-se de realização. O fato é que nos deixamos levar pela vida, nos cercamos de pequenos confortos e isso, sem risco que nos amedronte, se ocupa de nos preencher.

É a rotina com aspecto de aventura. É o caminhar sobre uma esteira rolante, é viver no modo automático sem se dar conta de que nossas escolhas e atitudes – ou a falta delas – nos fazem apenas existir.

Sabe, me perdoe a ousadia, mas preciso dizer: às vezes, se tudo vai indo bem é porque algo não está bem.

Se o próximo grande passo que tenho para dar na vida é a troca do meu carro por um modelo mais novo ou decisões sobre meu trabalho, então eu me apequenei.

A vida é grande demais para eu tratá-la dessa forma. É um presente inestimável para que eu faça dele algo tão diminuto. Eu desonro o seu Autor conduzindo-a de forma tão triste.

Faço um balanço: onde estão os meus planos? Onde dormem meus sonhos? Onde guardei as aventuras, viagens, filhos e os jantares a dois que imaginei? Cadê as grandes conquistas que brotavam na imaginação e faziam valer qualquer desafio?

Vamos nos afundando. No sofá, no marasmo, no lero-lero repetitivo dos dias. E a barriga cresce, os cabelos caem, a mente atrofia. E a gente fica querendo um controle-remoto para poder mudar de canal e esquecer.

Não, isso não é auto-ajuda. Absolutamente. Não estou aqui para mudar o rumo das coisas e dizer que você e eu somos seres especiais, feitos para vencer e que se pensarmos positivamente, tudo dará certo.

Não, pode ser que não dê. As chances de fracasso são bem grandes.

Mas eu acredito – e é disso que preciso me lembrar – na esperança, na tentativa e na vocação. Creio em Deus e nos seus sonhos me inspirando e alimentando. Tenho conhecimento de que não sou suficientemente sábio para julgar que posso pensar a respeito da vida e de mim mesmo, algo diferente do que seu Criador um dia imaginou.

Quero e preciso retomar o plano inicial. Não perder de vista o propósito e viver consciente e aberto para sonhar. E alimentar velhos sonhos.

Não, de novo, isso não trata de ambição, determinação ou foco. Ao contrário, isso aqui diz respeito à entrega, renúncia e o retorno à essência, em Deus, de quem eu sou realmente.

Ser um bom marido, um pai dedicado, trocar as lâmpadas queimadas, lavar o carro, fazer planos para o futuro e para a hora do jantar. Viver o dia de hoje. Trazer o pão quente pra casa, me alimentar do pão da vida a cada dia.

Sonhar. E viver o bom sonho do homem que se realiza em seu Deus.

Transportando tesouros e atropelando cachorros – os heróis da vida pequena

por Luiz Henrique Matos

Atropelei um cachorro na estrada. Foi tudo tão rápido, estava escuro, ele correu para o meio da pista e parou diante do carro, uns cinco metros à frente. Eu nem consegui pisar no freio. Lembro do olhar estático do pobre animal paralisado pela luz alta do farol e em seguida o impacto seco no pára-choque. Vi, depois, a sombra escura e morta no asfalto pelo retrovisor, cada vez mais distante, pequena, até sumir. Sem nada que pudesse fazer, chorei e segui viagem.

Voltávamos do interior do estado, onde visitamos alguns familiares e eu dirigia por uma estrada paralela enquanto as duas dormiam no banco de trás.

E pensando no momento que acabava de viver, me preocupei com algo mais que pudesse nos acontecer. Viajamos por essas estradas tantas vezes e, é bem verdade, não tenho noção real dos riscos que corremos. Olhei de relance para as duas, mãe e filha, que dormiam desconfortáveis e temi pela responsabilidade de levá-las para casa em segurança.

Eu carregava um tesouro precioso. Confiadas à minha direção, estavam as coisas mais importantes que tenho nessa terra e, bem, eu peno em admitir, mas não sou dos melhores motoristas que conheço – e isso já é um auto-elogio – o que torna o desafio um tanto maior.

Exagerando outra vez nas analogias, eu me sinto como um daqueles guerreiros de histórias épicas que saem em cruzadas pela terra com a missão de transportar algum tesouro precioso para o rei. Levam consigo uma carta de recomendação, viajam em nome da coroa e estão dispostos a abrir mão da própria vida em favor de algo que não lhes pertence mas pelo qual, não se sabe a razão, são apaixonados.

Mas, peno em dizer, eu não sou um guerreiro habilidoso. Não manejo bem uma espada, não sei montar cavalos e meu reflexo não é apurado. O fato é que às vezes eu falho nessa missão. Piso feio na bola. Deixo cair, desprotejo, penso mais em mim mesmo do que nelas. Mas, apesar de minhas limitações, a carta do rei sempre me faz lembrar a que vim. Seu olhar não me deixa esquecer que são suas filhas que estão sob minha responsabilidade.

Não, não pense que isso é um desabafo arrependido. Pelo justo contrário, eis aqui meu voto de fidelidade, minha alegria, o reconhecimento, afinal, do que entendo por realização.

Descobri que longe de ser um fardo, essa missão consiste em minha grande alegria. E não é que a minha visão seja limitada ou que me falte ambição, eu só notei que tenho em casa o tesouro mais nobre que jamais poderia sonhar conquistar. E empenhar a própria vida em favor desse prêmio, talvez seja o mais heróico dos gestos que poderei ostentar.

O herói da vida pequena. A refeição em casa. As férias em família. O tempo juntos sentados no sofá da sala vendo o mesmo desenho pela trigésima vez. As brincadeiras simples na rua. O cineminha com pipoca de sexta à noite com a eterna namorada. Deus, a família, os amigos. As melhores coisas da vida não nos custam sequer um centavo.

Que feito pode ser mais nobre do que dar vida a um ser humano, guiar seus primeiros passos e conduzi-lo em sua existência para que um dia seja alguém melhor do que eu jamais sonhei ser? O que pode ser melhor do que amar uma linda mulher e empenhar a vida em protegê-la, sustentá-la e lhe ser fiel? Que massagem no ego pode ser melhor do que descobrir que duas lindas garotas te acham o cara mais bonito, forte e bacana do planeta, apesar da barriga proeminente, da barba por fazer e da toalha molhada largada sobre a cama (tá bom, eu admito que exagerei no bonito, forte e bacana)? Que honra maior em ver multiplicar o fruto desse amor (leia-se netos) e acompanhá-los crescendo saudáveis, santos, unidos e correndo pelo quintal da nossa casa?

Bom, parece simples, mas não é simplório. Parece pouco nobre, talvez porque seja tão comum a todos. Parece não dar nenhuma fama e reconhecimento público, e realmente não dá mesmo. Mas eu acredito sinceramente que nada pode fazer um homem mais feliz.

Penso nisso tudo agora, seguindo de volta pra casa, para que um dia eu não precise ver as coisas importantes que deixei para trás. Para que a vida que eu sempre quis não seja atropelada pelas escolhas erradas que fiz, como uma sombra na escuridão, pequena e distante no retrovisor.

Eu sigo viagem. Eu, meu cavalo, a carta do Rei me incumbindo da nobre tarefa de ser pai e um tesouro incalculável em meus braços. Sim, essa é a grande missão do guerreiro. Habilidoso ou não, sigo satisfeito em saber que já carrego comigo o grande prêmio da vida.

Essa crônica faz parte da série “Paternidade”:

1. A explosão da vida
2. Versos infantis dessa minha felicidade
3. As grandes conquistas do homem
4. As cegonhas não existem
5. O amor, um calção e gestos primitivos (cinco minutos antes de minha vida mudar)
6. Colos, cólicas, chavões e uma crônica de continuação
7. Na falta do que dizer
8. Pequenas lições
9. Doentes curando doentes
10. Primeiros passos
11. Sobre a velhice, rotinas e prioridades
12. Música para os meus ouvidos
13. E o futuro, a quem pertence?
14. Versos infantis 2 – alegria, tristeza e distração
15. De mãos dadas
16. Sobre ser pai no Dia dos Pais
17. A doce presença

Cenas domésticas: Na sala do presidente

por Luiz Henrique Matos

- Filha, você quer ir trabalhar com o papai hoje?

Tive que levar a Nina pro escritório. Além da grandiosa, epopéica, dificílima e quase impossível tarefa de pegá-la na escola, levar pra casa, dar o almoço e trocar de roupa, ainda me restava o desafio de carregar minha filha para o trabalho num dia em que minha esposa estaria presa em reuniões e não poderia estar em casa mais cedo.

Confesso que eu tinha medo de como ela reagiria ao ambiente, mas, eu não imaginava, o primeiro martírio foi meu e não dela. É constrangedor notar como você passa a ser o foco número um de olhares estranhos te seguindo os passos ao entrar de mãos dadas com um serzinho cor-de-rosa e menos de um metro de altura no seu ambiente de trabalho.

Vencida a barreira dos olhares e comentários, chegamos à minha mesa, tirei os badulaques, brinquedos e.

Passada a via-crúcis paterna, tudo ótimo. Minha filha me enchia de orgulho desenhando com seu super-lápis-de-cor no verso de alguns relatórios confidenciais que eu tinha que analisar. Ganhou mimos, saiu com uma colega para ganhar presentes na redação de revistas infantis, voltou feliz da vida com seu “kit das princesas” e perdeu um pouco a inibição do início de já conversava abertamente com as pessoas.

Até que…

Até que, o presidente da empresa entrou em nossa sala. Peraí, você leu direito isso aí? Eu disse: até que o PRESIDENTE da empresa entrou na sala! E minha filha ficou olhando aquela figura engravatada caminhar na nossa direção.

- Opa! Quem é essa aí? – ele disse sorrindo (bom, o fato de seu super-chefe sorrir não alivia em nada a tensão do momento).

- É a chefe nova – eu disse e, em seguida, já me arrependi (bom, o fato de você fazer uma brincadeira sem graça enquanto está diante do seu super-chefe demonstra que você nunca pode confiar em si mesmo diante de situações constrangedoras).

- Oi mocinha! Como você chama?

- Nina – ufa, ela respondeu!

- Que bonitinha…

Então ela olhou para as mãos dele, fitou nos olhos e soltou:

- Que isso aí na sua mão?

Eu já nem respirava mais.

- O quê? Ahh, você gosta de gibis? Esse aqui é o Pernalonga, conhece? – bem, antes que você pense que presidentes de grandes empresas andam com revistas em quadrinhos pelos corredores ao invés de relatórios e planilhas complexas, acho importante dizer que eu trabalho numa editora.

- Deixa eu ver?

- Olha aqui ó – ele ainda sorria (e um filme com a retrospectiva da minha carreira passava em minha mente em alta velocidade).

Então ele perguntou:

- Nina, você gosta de balas?

Ela, como filha educada que é, olhou para mim e ficou esperando a resposta. Ele, em sei lá qual condição, também me olhou e esperava uma resposta. E então, pela primeira e última vez na minha vida eu me vi dando alguma autorização para o presidente.

- Sim, pode dar – eu disse num misto de pavor e um pingo de satisfação.

- Vem comigo, Nina. Dá a mão pro tio.

Ela saiu pelo corredor de mãos dadas com ele. O tempo passava e eu não conseguia pensar em nada enquanto olhava fixamente pela porta por onde ela saiu.

Cinco, dez, 20 ou 190 minutos depois ela voltou. Da sala do presidente, ela chegou com as mãos cheias de balas 7Belo:

- Papai, papai! Olha!

- Eu falei pra ela pegar a balinha e ela me perguntou se “pode pegar duas”. Aí eu mandei ela encher a mão – ele me disse, ainda sorrindo (e isso já começava a me aliviar) – vai lá, Nina. Vai lá com seu pai.

- Puxa, obrigado Sr. Fulano… e, filha, agradeça o tio.

- Bligada!

- Ô, que nada. Tchau.

Eu me recuperava de um quase infarto e ela já enchia boca com duas balas ao mesmo tempo. Eu sei que ela nem tem dimensão da experiência que teve e é isso que mais me apaixona nas crianças. A ousadia livre de não ter sua opinião abalada pela posição das pessoas e apenas aceitá-las sem barreiras se elas lhe parecem sinceras e amigáveis (é claro que um pacotinho de 7Belo influencia muito nessa reciprocidade).

Minutos depois, um conference call acontecia na mesa ao lado e ela, já totalmente amiga de todo mundo, falava pelos cotovelos.

- Nina, shhhhiu… silêncio, filha!

Ela olhou para os lados, sondou as pessoas e perguntou sussurrando:

- Quem ali tá durmindo?

Meu telefone tocou. Era minha chefe. Eu, numa ligação mega-ultra-hiper-urgente tentava assimilar as decisões que ela me pedia para tomar enquanto prestava atenção na minha filha fugindo pelo escritório em direção à saída.

Um homem vinha pelo corredor e a pegou no colo. Primeira sensação: alívio (ela estava a salvo e eu poderia me concentrar no telefonema). Segunda sensação: dúvida (quem era o cara, afinal?). Terceira sensação: desespero (era o diretor de RH!).

O foco necessário na conversa telefônica me impede de analisar o que a Nina e ele conversaram naqueles minutos, mas eu confesso que ainda prefiro não saber o que se passou.

Antes de encerrar a ligação, o diretor já havia saído do local, a Nina estava sentada outra vez, de volta aos desenhos e às Princesas.

Terminei o que precisava fazer, enviei alguns últimos emails e desliguei o computador. Recolhi as coisinhas multicoloridas que enfeitavam minha mesa e enquanto a Nina se aprontava (e chupava a oitava balinha 7Belo), fiquei pensando nas duas novas amizades da minha filha, na visita a sós na sala do presidente, no cafuné recebido pelo diretor de RH e o agrado geral causado com a equipe.

- É, filha, em três horas por aqui você conquistou o que seu pai nunca conseguiu em sete anos de empresa.

(crônica para o Frases de Crianças)

Cenas domésticas: trapalhadas paternas

por Luiz Henrique Matos

Hoje minha esposa precisou sair mais cedo de casa e eu fiquei com a incumbência de acordar, vestir, dar o Nescau e levar a Nina para a escola – bem, é evidente que ela deixou cada peça de roupa devidamente separada e o lanchinho pronto sobre a pia, para eu não esquecer.

- Henrique… Henrique? Henrique!?
- Ahn? Oi…
- Amor, estou saindo pro trabalho mais cedo. Acorde e preste bem atenção.
- Tá.

E até agora uma sucessão de palavras fora de ordem e tarefas desconexas ainda tentam encontrar algum sentido na minha mente.

Acordei atrasado, me aprontei, ajeitei as coisas, me atrapalhei, acordei a Nina, segui o passo-a-passo matinal e fiquei tentando convencer minha filha de dois anos de que ir à escola é mais legal do que parquinho, desenho na TV, casa da vovó e brincadeira com o priminho.

Finalmente, convencida e com a mochila nas costas, saímos do apartamento e esperávamos pelo elevador quando ela se deu conta de que alguma coisa estava diferente na rotina dela:

- Cadê a mamãe?
- A mamãe já foi para o trabalho, filha. Hoje ela tinha que ir mais cedo.

Ela pensou, olhou para o elevador, para a porta e, espantada, exclamou:

- Nóis tá sozinho!?

Pois é, querida, seu pai conseguiu…

(post para o Frases de crianças)