A liberdade portátil

Na Idade Média, os livros eram copiados à mão e, por isso, extremamente custosos; uma dama da nobreza britânica pagou a cópia de um livros de orações, em determinada ocasião, com diversas cabeças de gado. Por causa da invenção da imprensa, na metade do século XV, a difusão do livro experimentou um salto surpreendente. No século XVI, algumas casas editoras européias passaram a publicar livros em formatos pequenos (enquanto os livros medievais eram enormes e só podiam ser lidos sobre uma mesa apropriada). Esses livros menores podiam ser carregados e lidos em qualquer parte. Por isso, uma casa editorial, a dos Irmãos Trechsel, adotou como lema a frase latina “Libertatem meam mecum porto”, que significa “Carrego comigo minha liberdade”.

Trecho da crônica “A liberdade portátil”, do meu amigo Rui Luis Rodrigues no site da Carisma.

Um versículo para 2012

Assim diz o Senhor, aquele que fez um caminho pelo mar, uma vereda pelas águas violentas, “Esqueçam o que se foi; não vivam no passado. Vejam, estou fazendo uma coisa nova! Ela já está surgindo! Vocês não a reconhecem? Até no deserto vou abrir um caminho e riachos no ermo.”

(Isaías 43:16, 18, 19)

Bons samaritanos

“Os bons samaritanos sempre serão necessários para socorrer os que foram assaltados e roubados; entretanto, seria melhor acabar com os bandoleiros na estrada de Jerusalém a Jericó”, escreveu Stott em seu livro A Cruz de Cristo. “Por isso, a filantropia cristã em termos de alívio e ajuda é necessária, mas muito melhor seria um aprimoramento a longo prazo, e nós não podemos fugir da nossa responsabilidade política e da necessidade de participar da transformação das estruturas que inibem este aprimoramento. Os cristãos não podem olhar com tranquilidade as injustiças que arruínam o mundo de Deus e degradam suas criaturas”.

- John Stott, citado no artigo “Evangélicos sem espetáculo” de Nicholas D. Kristof para o The New York Times (publicado no blog de Ed René Kivitz)

Da minha lista de pendências 3

“O amor deve ser sincero. Odeiem o que é mau; apeguem-se ao que é bom. Dediquem-se uns aos outros com amor fraternal. Prefiram dar honra aos outros mais do que a si próprios. Nunca lhes falte o zelo, sejam fervorosos no espírito, sirvam ao Senhor. Alegrem-se na esperança, sejam pacientes na tribulação, perseverem na oração. Compartilhem o que vocês têm com os santos em suas necessidades. Pratiquem a hospitalidade. Abençoem aqueles que os perseguem; abençoem, e não os amaldiçoem. Alegrem-se com os que se alegram; chorem com os que choram. Tenham uma mesma atitude uns para com os outros. Não sejam orgulhosos, mas estejam dispostos a associar-se a pessoas de posição inferior. Não sejam sábios aos seus próprios olhos.”

“Não retribuam a ninguém mal por mal. Procurem fazer o que é correto aos olhos de todos. Façam todo o possível para viver em paz com todos. Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: Minha é a vingança; eu retribuirei, diz o Senhor. Ao contrário: Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele.”

“Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem.”

(Paulo, na carta aos Romanos, capítulo 12, versos 9 a 21)

Chesterton

A Igreja se justifica não porque seus filhos não pecam, mas porque pecam.

Ora, a melhor relação com nossa casa espiritual é ficar suficientemente perto para amá-la. Mas a segunda melhor é relação é ficar suficientemente longe para não odiá-la.

- G. K. Chesterton, em O Homen Eterno.

Um amante de todos

Nenhuma aridez – salvo as que se aleitavam muito naturalmente no solo palestino. Nenhuma palavra escrita – salvo as que se danaram na ingovernável dança das areias. Aos olhos do Carpinteiro – e creio não ser demasiado lembrar – Deus não se explicava em sistemas ou teologias, em abstrações refinadas e conceitos áridos. Não era um objeto oculto cujo desvendamento exigia muito esforço e algum privilégio – qual queriam os fariseus, e qual ansiaram os gnósticos. E se ao sol não é dado desvelar novidades, como ainda querem os paladinos das ideias corretas.

Se Deus se deixar ver na aridez, será na aridez bastante concreta do deserto. Se conceder encontros consigo nas palavras, serão naquelas infectadas por essa doença do verbo a que chamam poesia – essa doença do Verbo a que chamam Encarnação. Em Jesus, Deus se revela na hora miraculosa da mesa – quando o pão se parte; se exibe desvestido no coito do arado com a terra. Bebendo nas águas da poesia judaica, Jesus fornece-nos a vívida imagem de um Deus cavalheiro, que isca os mais rudes corações com seus engenhos trovadorescos. Um noivo – um prodigioso amante – e o que é mais inconcebível: um amante de todos; mas só por ser, antes, um amante de cada um.

No universo do crente o ouro é o credo. Soada a trombeta, restará como moeda única (aqueles para quem tudo se resume aos mandamentos e ao seu estrito cumprimento, na economia da lei, são os bem-aventurados que herdarão o Reino). O Filho do Homem solicita a palavra e nos previne, não sem gentileza, com uma ressalva que é a suma de sua boa notícia: no universo dos amantes o ouro é outro – e aquele, o ouro dos crentes, é ruidosa palha, é som e fúria.

O Verbo se faz Carne. A prosa acata dolorosamente as setas da poesia. Em ato dramático, o amante abandona tronos e coroas e privilégios a fim de abraçar a condição plebeia da amada – e assim fitá-la nos olhos. Em ato de suprema mesura, o amante torna-se fabricante de móveis, admirador de lírios, e promete a instauração de seu Reino Eterno na terra onde rasteja a relha e onde o corpo lampeja – na terra dos mil e um desejos.

A eternamente mal compreendida cortesia da graça é também essa: a de não exigir da camponesa que escape de sua condição e se adapte aos modos severos da corte; a de não estabelecer, entre a camponesa e as delícias do Reino, obstáculos cuja transposição exigiriam da pobre jovem uma fuga de si mesma.

A cortesia da graça veio liberar os homens de serem deuses; liberá-los para um encontro com Deus na democrática liturgia da vida, onde as hierarquias não imperam e onde os paramentos revelam-se obsoletos. O Verbo se fez Carne a fim de que a carne não sangrasse e fizesse sangrar no disparatado intento de se fazer Verbo.

(por Alysson Amorim, em Amarelo Fosco)

Fonte:  A bacia das Almas

Da minha lista de pendências 2

“O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo? Aí sim, a sua luz irromperá como a alvorada, e prontamente surgirá a sua cura; a sua retidão irá adiante de você, e a glória do Senhor estará na sua retaguarda. Aí sim, você clamará ao Senhor, e ele responderá; você gritará por socorro, e ele dirá: Aqui estou. “Se você eliminar do seu meio o jugo opressor, o dedo acusador e a falsidade do falar; se com renúncia própria você beneficiar os famintos e satisfizer o anseio dos aflitos, então a sua luz despontará nas trevas, e a sua noite será como o meio- ia. O Senhor o guiará constantemente; satisfará os seus desejos numa terra ressequida pelo sol e fortalecerá os seus ossos. Você será como um jardim bem regado, como uma fonte cujas águas nunca faltam.”

-Isaías 58:6-11

Do que eu falo quando eu falo de corrida

“Muitas vezes me perguntam no que eu penso quando corro. Em geral, as pessoas que perguntam isso nunca correram longas distâncias. Sempre reflito sobre a pergunta. o que exatamente penso quando estou correndo? Não faço a menor ideia.

Em dias frios, acho que penso um pouco sobre quanto está frio. E nos dias quentes, em como faz calor. Quando estou triste, penso um pouco sobre a tristeza. Quando estou feliz, penso um pouco sobre a felicidade. Como já mencionei, lembranças aleatórias me vêm à cabeça, também. E ocasionalmente, muito difícil, sério, tenho uma ideia para usar em um romance. Mas na verdade quando corro não penso em quase nada que seja digno de mencionar.

Apenas corro. Corro num vácuo. Ou talvez eu deva me colocar de outra forma: corro a fim de conquistar um vácuo. Mas, como seria se esperar, um pensamento ocasional vai invadir esse vácuo. A cabeça de uma pessoa não consegue se manter num vazio completo. As emoções não são fortes ou consistentes o bastante para sustentar um vácuo. O que quero dizer é que o tipo de pensamentos e ideias que invadem minhas emoções quando corro permanece subordinado a esse vácuo. Na falta de conteúdo, eles não passam de pensamentos aleatórios que giram em torno desse vácuo central.”

Do escritor Haruki Murakami em seu novo livro “Do que eu falo quando eu falo de corrida”, em que trata, além do óbvio (ele corre maratonas), sobre sua carreira como romancista e a experiência de envelhecer.

Fiquei um pouco impressionado com o quanto me identifiquei com algumas das opiniões relatadas nos ensaios e as experiências de Murakami (claro que não estou me referindo às maratonas).

Já terminei a leitura, mas vou publicando trechos por aqui.

A invenção da gentileza

“Nisso, tomando-o pela mão direita, o levantou; imediatamente os seus pés e artelhos se firmaram e, dando um salto, pôs-se em pé. Começou a andar e entrou com eles no templo, andando, saltando e louvando a Deus. Todo o povo, ao vê-lo andar e louvar a Deus, reconhecia-o como o mesmo que estivera sentado a pedir esmola à Porta Formosa do templo; e todos ficaram cheios de pasmo e assombro pelo que lhe acontecera. Apegando-se o homem a Pedro e João, todo o povo correu atônito para junto deles, ao pórtico chamado de Salomão.”

A disciplina da inclusão envolve mais do que um lançamento contábil; envolve mais do que fazer com que o que era contado como de fora passe a ser contado como de dentro. Em cada caso, cada vez que uma pessoa se dispõe a abraçar incondicionalmente uma outra, há um verdadeiro trajeto a ser vencido: um percurso a ser primeiro encontrado e depois percorrido. Ser salvo é ser salvo das distâncias, e arrepender-se é passar a agir deliberadamente de modo a transpô-las.

Vencer em regime definitivo a distância entre eu e o outro é o sentido da cruz e da salvação. É também, ao que tudo indica, a chave do reino de Deus.

Neste caso exemplar, um homem curva-se para estender a mão, e outro homem ergue-se firmando pela primeira vez sobre os próprios pés. No momento seguinte são iguais, olhando-se formidavelmente no mesmo nível. Encontraram-se lá em cima, e o mundo ganhou mais um cavaleiro andante.

Os antigos mestres da humanidade não desconheciam o autoconhecimento e o altruísmo, e os melhores entre eles não se limitavam a recomendá-los com palavras; porém foram necessários primeiro Jesus, depois a sua ausência, para introduzir os rigores da gentileza nas corredeiras do mundo dos homens.

O amor, como inventado ou apresentado por Jesus, não é apenas severo, absolutamente inflexível em sua disposição de favorecer e de integrar; é também consistentemente gentil – embaraçosamente gentil. De fato, sua severidade fica demonstrada no caráter inabalável de seu cavalheirismo.

Há algo de inerentemente ridículo no cavalheirismo, e é sem dúvida preciso ser um homem um pouco ridículo para ensinar – de fato ensinar – abraçando crianças, defendendo donzelas em perigo e lavando os pés de seus subordinados. A inclusão irrestrita e a defesa dos mais fracos nos parecerá invariavelmente embaraçosa, e os homens se mostrarão sempre mais prontos a abraçar o sacrifício do que o ridículo. Estamos prontos a pagar pelo heroísmo, mas menos dispostos a cobrir os custos da gentileza, porque a gentileza é a ultrajante manifestação de um amor resolutamente cavalheiresco – aquela estirpe peculiar de amor a que o Novo Testamento dá o nome de graça.

Muito declaradamente, não queremos ter nada a ver com a graça, que é por definição uma espécie voluntária de beleza. A graça é para deuses e dançarinos – isto é, é para homens, e sempre que possível preferimos nos manter abaixo desse patamar.

Porém Jesus, que tinha o sonho de semear homens de modo a colher o reino de Deus, não se contentava em exigir e oferecer menos do que o amor exuberantemente cavalheiresco – isto é, arbitrário, incondicional, anárquico, todo-inclusivo.

A gentileza, será preciso repetir, não é menos severa do que o amor. Não é uma manifestação de polidez ou de civilidade mascarada como tolerância. Não tem nenhuma relação com aquilo que costumamos chamar de “boa educação”, e que se destina a permitir a convivência ao mesmo tempo em que perpetua e valida a distância entre as pessoas. Ao contrário, a verdadeira gentileza é selvagem em sua obsessão de incluir, e saberá mostrar-se pouco gentil para com os que sonegam a graça e patrocinam a exclusão. A gentileza não ignora que é uma modalidade de anarquia e de revolução; não ignora que o seu próprio regime de violações (“Eu não condeno você”, Jesus ousou dizer à mulher adúltera, nisso transgredindo pelo menos tanto quanto ela) exige uma completa revisão dos critérios dos homens. O único mundo que a gentileza é capaz de conceber, e nisso insistirá até a morte voluntária, é um mundo em que todos se conformem a ela mesma.

Pedro e João, num único gesto, trazem para junto de si um homem que todos tomavam por definitivamente excluído dos canais aceitáveis da sociedade. E, trazendo-o para junto de si, trazem-no imediatamente para dentro – aqui está ele nos átrios do templo, saltando como um bailarino imbuído de uma nova graça, uma beleza inconcebível que transtorna todos que são submetidos a ela. O que estivera sentado à porta pedindo esmolas está agora dançando aqui dentro; o excluído a que todos negavam a graça agora a derrama com mais gosto do que todos que assistem.

Essa transgressão da gentileza é terrível demais para ser contemplada sem horror. Um universo que pode assim facilmente ser transtornado pelo amor e pela inclusão, um mundo assombrado dessa forma pela graça, é um mundo em que os homens terão de abrir mão de todas as suas seguranças. Diante dessa possibilidade, todos são tomados de terror e de perplexidade.

É aqui, diante desta glória, que devemos decidir não discutir o cessacionismo, a doutrina que postula que os milagres da era apostólica deixaram (ou não, discute-se) de acontecer nos nossos dias. Porque aqui está absolutamente declarado, escancarado além de qualquer dúvida, que a inclusão não foi resultado do milagre; a inclusão foi em si mesma o milagre – “e reconheceram-no como o mesmo que estivera sentado à porta do templo”.

Todos os milagres de Jesus e dos apóstolos devem ser entendidos retroativamente a partir dessa chave de compreensão. Jesus, que recusou-se diante da tentação a produzir sinais que tornassem evidentes o seu poder e a glória da sua vocação, não recusou-se a cuspir na terra para fazer lama e a tocar a pele crestada de um leproso a fim de fazer brotar a inclusão. Em termos estritos, os milagres de Jesus não são manifestações de poder: são instâncias de inclusão. Conhecendo a glória da nossa vocação, Jesus foi capaz de dizer sem exagero que seus discípulos fariam “sinais maiores do que esses” – porque nosso chamado é o de implantar um mundo inclusivo que Jesus em seus milagres apenas sugeriu.

Deve ficar portanto entendido que milagres só acontecem quando o amor é colocado em prática, e que milagres são o amor colocado em prática. A gentileza é por excelência a manifestação do poder de Deus, e é também o único verdadeiro sinal que Jesus dignou-se a apresentar.

Basta ao discípulo ser como o mestre: o sinal divino e o divino selo são a inclusão do outro, pelo que os milagres só cessam de acontecer quando deixamos de incluir. O cessacionismo depende, para ser válido, da nossa omissão. Arrepender-se é mudar o mundo, e pecar é omitir-se.

Mas neste ponto o homem agraciado para de repente de cantar e de saltar e corre para se abrigar entre seus amigos. Ele entendeu que não está mais sozinho e que nisso consiste a dádiva que recebeu, e compreende ao mesmo tempo que nada há de mais sério do que ganhar um presente.

Texto do Paulo Brabo, em seu blog A Bacia das Almas

Do que realmente importa

Portanto, vá, coma com prazer a sua comida e beba o seu vinho de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz. Esteja sempre vestido com roupas de festa, e unja sempre a sua cabeça com óleo. Desfrute a vida com a mulher a quem você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus dá a você debaixo do sol; todos os seus dias sem sentido! Pois essa é a sua recompensa na vida pelo seu árduo trabalho debaixo do sol. O que as suas mãos tiverem que fazer, que o façam com toda a sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria.

[…]

Agora que já se ouviu tudo, aqui está a conclusão: Tema a Deus e obedeça aos seus mandamentos, porque isso é o essencial para o homem.

- Eclesiastes 9:7-10 e 12:13

Escrevendo o mundo (Donald Miller)

Naquela época, quando me deitava na cama ou atravessava um corredor na faculdade, a consciência de que eu estava vivo me espantava, como se ela chegasse por trás de mim e me batesse com um livro de cada lado. [...]

A experiência é tão lenta que você poderia facialmente chegar a acreditar que a vida não é tão importante assim, que ela não é incrível. O que estou dizendo é que acho a vida incrível, e nós simplesmente nos acomodamos com ela. Todos somos como crianças mimadas que não nos impressionamos mais com os presentes que recebemos – é só mais um pôr do sol, só mais uma pancada de chuva sobre os montes, só mais uma criança nascendo, só mais um enterro.

[...] Se tenho uma esperança é a de que Deus ficou sentado no vazio escuro e escreveu-nos, você e eu, especificamente na história, e colocou-nos com o pôr do sol e a pancada de chuva como se estivesse dizendo: “Aproveite seu lugar em minha história. A beleza dela significa que você é importante e pode ser criador dentro dela, assim como eu o criei.”

- Donald Miller, em “Um milhão de quilômetros em mil anos” (p. 74 e 75)