De mãos dadas

por Luiz Henrique Matos

De mãos dadas

De mãos dadas

Se tem algo que eu gosto é segurar a sua mão. Não importa a ocasião, ao atravessar a rua, sentados nos sofá, ajudando a fazer força enquanto ela usa o banheiro ou simplesmente para dirigi-la em alguma situação. Aquela mãozinha envolvida na minha me ajuda a ter a dimensão da sua dependência – e o meu desejo de sempre garantir que ela saiba disso. Os dedos finos, a pele delicada, a palma da mão morna e úmida de suor, a minha certeza de ter o que é meu por herança.

Por uma mão ela arrasta uma boneca, um copo de leite, um lápis de cor com a ponta gasta. Por outra ela se arrasta, segue cegamente os passos daquele em quem confia e lhe dirigirá os passos.

Não preciso dizer que ela tem crescido mais rápido do que eu gostaria. Daqui a pouco ela será maior do que eu, mais inteligente, independente e, apesar de mais magra – isso não é nada difícil dado o meu último indicador na balança da farmácia – eu já não conseguirei carregá-la no colo.Mas não importa o quanto ela cresça, acho que sempre terei a sensação de que sua mão cabe dentro da minha e que, desse jeito, continuarei sendo o “papá” a quem ela recorre quando precisa de algo, quando deseja brincar, quando quer descansar.

Gosto de não precisar ouvi-la dizer nada e apenas erguer os braços com a mão espalmada tendo a certeza de que eu retribuirei. Gosto de sentir os dedinhos se entrelaçando aos meus, me dando a sensação tátil do mesmo sangue que somos. Não gosto de vê-la com medo, chorando, mas corro e me precipito em segurá-la, mãos erguidas em minha direção, para que saiba que sempre, sempre estarei ali para ampará-la. Faço tudo para estar.

Imaginar minha cria sozinha, abandonada à sorte, provas e desafios que esse mundo descarrega sobre nós não é dos sentimentos mais agradáveis. Chego a pensar que gostaria de tê-la nos braços o tempo todo. Mas sei que não é possível e, por hora, imagino também que não é o mais apropriado. Ela precisa viver, vai precisar aprender, vai ter que se virar sozinha. O coração debate com a razão e preciso aprender, eu, que o melhor a ser feito é o que é melhor pra ela. Dura realidade.

Ela já toma algumas decisões sozinha. Já fala por si. Ela já sabe andar em alguns lugares que antes lhe pareciam difíceis. Agora ela pedala o velotrol e já não depende de mim para empurrá-la. Eu estufo peito, coruja, ela tem aprendido coisas comigo – e eu ainda não me toquei que “velotrol” é uma palavra que morreu na minha infância e muito provavelmente ela nunca usará na vida!

Mas ainda tenho coisas a ensinar e minha alegria é estar com ela para isso. Caminhando de mãos dadas, fico feliz em poder andar devagar, no seu ritmo e limitações, para lhe mostrar o caminho que eu vejo à frente. Falo da forma mais simples possível para garantir que ela me entenda. Conto histórias e imagino coisas para que o conhecimento lhe seja algo claro.

Quero percorrer ao seu lado as trilhas que já conheço. Quero que sua infância seja recheada das brincadeiras, da ingenuidade e da inocência que eu acho que teve a minha. Quero que saiba que ao contrario do que argumenta um dos seus tios, torcer para o São Paulo é definitivamente uma boa escolha. Quero que ela conheça o Deus amoroso que eu conheço e o ame mais do que eu. Quero aprender tabuada, logaritmos, pi, raiz quadrada e alguma coisa de física – que nunca me entraram na mente – para poder ajudá-la a estudar nas provas do colégio. Quero, a contragosto e sem a mínima pressa (fique isso bem claro e documentado), poder conduzi-la até o altar ao encontro do homem de sua vida e que se realizem, que descubram juntos o amor e a razão do que os dois nasceram para ser: um. Quero repartir minhas experiências e aprendizados para poupar-lhe esforço e sofrimento, mesmo sabendo que, assim como eu fiz um dia, ela vai me achar um tolo antiquado e ignorar a maioria desses conselhos – e eu não me sentirei vingado quando, depois de se dar conta, ela falar que eu tinha razão. Quero mesmo que ela tenha mais razão do que eu, porque isso também mostrará que foi mais longe do que o pai.

E só quero ainda, assim de forma egoísta mesmo, que ela saiba de tudo isso e quando afinal descobrir que não sou tão grande, forte, inteligente quanto pensou a vida toda e então souber que o herói de sua infância é um pobre homem falível e cheio de pecados, que ainda assim se sinta orgulhosa em me chamar de pai. E que eu estarei sempre ali.

É irônico, talvez, saber que um filho não conhece a fraqueza de seu pai até que os anos passem e finalmente os corações se encarem e tudo venha a tona.

É irônico, certamente, depois de alguns anos de convivência mais íntima, saber que o meu Pai, o Deus da minha vida, perfeito e soberano, tem justamente no amor a sua fraqueza. E sensibilizado pelos corações quebrantados, pelas atitudes rebeldes, pelo choro desesperado, pela rendição cega e confiante dos filhos, ele se move, ele se rende, se entrega, encarna, perdoa, carrega, refaz. Ele estende a mão.

O Deus amor é Pai.

E, bem, talvez ele não seja são-paulino, talvez nunca me explique pra que raios servem os logaritmos, talvez tenha me deixado só por um tempo para eu aprender a andar sozinho. Mas, quando estendo minha mão espalmada, morna e úmida de suor para o alto e diante dele estou… arrependido, dependente, grato, resignado, com medo ou simplesmente estou, posso sentir a sua mão, forte e também delicada, e os dedos entrelaçados aos meus me dando a segurança de sua presença e a afirmação eterna de que sou filho, fruto do seu sangue.

Cenas domesticas: Co-piloto

por Luiz Henrique Matos

Já era tarde. Quase dez. Hora de criança estar na cama, já diriam várias pessoas. Mas nós ainda estávamos na rua, no carro, a família toda voltando do shopping. Adultos na frente, em silêncio, acreditando no sobrenatural poder sonífero que os automóveis exercem sobre as crianças e desejando que a nossa já estivesse dormindo para ainda tentar ver um filme qualquer no DVD (é incrível como nosso critério de filme bom muda depois da paternidade – até o Van Damme vira um clássico, raridade mesmo).

Finalmente, já na garagem do prédio, duas ou três curvas feitas suavemente e estacionamos o carro. Música desligada, freio de mão puxado, cintos soltos correndo de volta para o buraco-negro dos cintos de segurança e lá de trás uma voz desponta no silêncio:

- Ahh, cheguei!

Cenas domésticas – Mestre-cuca

por Luiz Henrique Matos

No parquinho, ela brincava na casinha de plástico. Abre daqui, fecha dali e, de repente, uma revoada de crianças barulhentas (acho que isso é redundância, não sei não) passa correndo pelo lugar. Ela observa pela janela da barraca, atenta, séria, entretida aos movimentos da molecada. E quando a turma ameaça correr em direção à saída, ela pára na porta e grita:

- Ei, venham papá, crianças!

:)

Versos infantis 2 – Alegria, tristeza e distração

por Luiz Henrique Matos

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Eu sou um distraído. Esqueço das coisas quase sempre. Por isso anoto tudo, por isso me organizo excessivamente.

Esqueço carteira, reuniões, chaves, blusa e crachás – só não esqueço nomes, sabe lá por que, mas não vem ao caso. Às vezes, esqueço até dos sentimentos. Às vezes eu esqueço a tristeza. Estou triste e de repente me distraio. E, não sei não, acho que às vezes a tristeza faz parte. É como a dor. Não faz bem esquecer a dor. Dor nas costas, por exemplo, que fica ali quietinha, confortável. Mas aí, se de repente você se mexe do jeito errado… aiii!

Agora, da alegria eu não esqueço. Da alegria eu não me perco, fico nela concentrado, empenhado, distraído. Alegria é distração. E a alegria, a minha, tem cara, tem jeito, tem gosto. Tem a cara da Nina sorrindo, tem o jeito de Deus me mimando, tem o gosto do beijo da minha Manú.

Mas aí, de vez em quando, vem a tristeza e sua teimosia e, nessas horas, se você mexe do jeito errado… aiii! E aí eu já nem me esforço em me concentrar. Eu fico ali, ansioso por uma alegria pra me distrair.

E ela aparece, e sorri, como agora.

(Notas para eu não esquecer: anotação do dia 16/5/9, por volta de oito da noite; o crédito da foto é do blog Interlúdio)

E o futuro, a quem pertence?

por Luiz Henrique Matos

Sementes (crédito: pictoscribe)

Estava pensando na minha filha ainda há pouco. Pela manhã eu olhei o tamanho que ela já está, os dois anos que passaram tão rápido e essas coisas de todo pai. A preocupação bateu quando tentei imaginar essa menininha já adulta, daqui alguns anos, construindo sua família e tudo mais.

E somado a isso, andei pensando também nessa coisa toda de aquecimento global, corrupção, violência, fome e pobreza. O mundo anda cada vez mais complicado. Parece-me que à medida que se amplia o acesso às informações sobre o caos em que estamos vivendo, cresce também a voracidade com que essa desigualdade se agrava.

E eu pensei na Nina outra vez. Que será do mundo quando ela já for adulta? Vai saber… Eu fico com um certo receio em pensar no tipo de prato que meus netos comerão à mesa, do ar que vão respirar, o tipo de proteção métodos de segurança que precisarão seguir antes de sair na rua. Tanta coisa.

Geralmente quando penso no legado que poderei deixar para meus filhos e netos, me vem à mente experiências, aventuras, princípios, erros e acertos que eu tanto gostaria de que se lembrassem. Penso também nos recursos materiais que me esforço para guardar e que poderão lhe garantir algum conforto. Mas esqueço do mundo.

Quer dizer, eu lembro de ensinar a Nina que ela precisa dividir seus brinquedos, ser “boazinha” e doar o que não usa. Eu procuro dar o exemplo fazendo alguma coisa. Mas é pouco, muito pouco.

O mundo, termo que generaliza pessoas – que é termo que generaliza o José, o Mohamed, o John, o Akira, o Makelele e cada ser humano que respira nesse planeta. Pois bem, o mundo precisa de algo mais de mim. Eu preciso fazer mais por ele, por todos.

Coisas simples. Se me foi dada uma condição de vida melhor que de meus semelhantes, então eu posso doar mais. Se eu aprendi a fazer algo que pode ajudar outros a se desenvolverem, então eu posso ensinar. Se… pois é, existem várias alternativas em minha mente, mas o gesto mais simples de estender a mão ao próximo é um passo que precisa ser dado. Como diz a sabedoria popular: comece limpando a sua calçada.

Sou cristão. Não digo isso porque acho que esse fato me garanta alguma condição especial. Pelo contrário, acho que minha crença me obriga a seguir um exemplo e alguns mandamentos a respeito de amor, generosidade, hospitalidade, doação, serviço, compaixão e entrega, que constam de forma enfática nos livros sagrados.

Há algum tempo, um amigo me falava sobre essa questão de plantar e colher. Está na Bíblia, mas é basicamente a velha regra natural da agricultura: o que você planta hoje, colhe amanhã. Às vezes o amanhã não é literal, às vezes quem vai colher o fruto dessa semente que lançamos não somos nós, mas outra pessoa, outra geração. Isso vale para gestos, coisas, investimentos – e plantas, evidentemente.

Até poucos meses, nosso mundo vinha passando por um período de bonança que há muito tempo não se via. Abundância de recursos, dinheiro, crédito, todo mundo esbanjando e aproveitando sua prosperidade. Tudo, segundo essa conversa com meu amigo, fruto de boas sementes plantadas lá atrás.

Pois é, mas acontece que nossa colheita também produz coisas. A maneira como arrancamos tais “frutos”, sem deixar a terra pronta para receber novas sementes, sem regar um pouco, pode impedir o novo plantio. Ficamos tão afobados em aproveitar a boa onda que deixamos de lado nossa obrigação em preservar para o futuro.

E a Nina, o que ela vai colher? Bom, tudo depende do que eu decidir plantar hoje.

(crédito da foto: flickr de pictoscribe)

Cenas domésticas – Herbalife

por Luiz Henrique Matos

Centro de São Paulo, rua lotada, multidões de pessoas se empilhando por todo lado e ambulantes vociferando suas ofertas de produtos piratas.

Nesse embaraço, o pai a carrega no colo já há quase uma hora. O braço cansado, a coluna pendente, as pernas fracas, o suor em bicas. Ela já tem dois anos. Ela já tem quase 15 quilos. Ela sorri. Está tudo bem.

Ela para de olhar a rua por um segundo, sonda o rosto do pai, o fixa nos olhos, passa os dedos pela barba e com os dedinhos juntos aperta-lhe as bochechas enquanto exclama sorridente:

- Gordinho!

Era só o que me faltava.

Cenas domésticas – Aniversário

Da série “Coisas lá de casa”…

Mãe: Nina, fala pra mamãe: quantos aninhos a Nina vai fazer?!?
Nina: Deeeeeezzzz!
Mãe: Não, filha, são dois… assim ó, com dois dedinhos. Conta junto com a mamãe. Depois do número 1 vem o…
Nina: Dooooooiissss
Mãe (empolgada): Isso, bebê!!! Que linda! Agora fale… quantos aninhos a Nina vai fazer?!?
Nina: Deeeeeezzzzz!!

Música para os meus ouvidos

por Luiz Henrique Matos

Ela tem dois olhos bem redondos, castanhos e quase sempre animados enquanto se concentram em alguma atividade. São esses olhinhos, muitas vezes, a primeira coisa que vejo no dia, bem de perto, quando acordo e ela já está ali na cama, quietinha, esperando. E abre um sorriso, com seus cinco dentes na boca, os olhinhos ainda inchados, as bochechas coradas e os dedos que me cutucam os olhos quando eu ouso fechá-los na tentativa de dormir mais um pouco, uns cinco minutos. Mas não dá, é irresistível. Ela está ali, com a testa colada na minha, respirando no meu rosto, me encarando, animada para começar o dia.

São os olhos espertos que me sondam pelo espelho, enquanto faço a barba no banheiro (“ué, que negócio é esse na cara dele?”, acho que ela pensa). Olhos atentos que me enxergam de longe no supermercado e eu a vejo estender a mão, me chamando para perto. São os olhos vagos semi-cerrados que pedem colo, lá pelas tantas da noite, quando ela já não resiste ao sono. Os mesmos que, cheios de lágrimas, pedem socorro depois do seu fracasso (leia-se: tombo) na tentativa de escalar algum móvel na sala. É o olhar brilhante, vivo, rodeado por aqueles cilhos compridos, o rosto gorducho e a boquinha rosada. É a sensação incrível de ver aquela pessoinha correr estabanada na minha direção ao me ver chegar em casa.

Fiquei mal acostumado. Eu diria: bem acostumado. Minha esposa iria falar que eu sou é carente mesmo. Mas o fato é que todos os dias espero por isso. Chego do escritório e, enquanto subo pelo elevador do prédio, já ajeito os papéis sob o braço e a alça da pasta sobre o ombro para abrir a porta de casa e esperar que ela venha.

Essa é das coisas mais rotineiras, eu bem sei. Sempre achei um clichê, gesto enfadonho, momentos estereotipados nos comerciais, a cena do pai ajoelhado, gravata frouxa no colarinho, sorriso estampado no rosto e braços abertos, esperando o filho que corre para se achegar em seus braços. O fato é que é exatamente assim que acontece. E eu me rendo ao rótulo que se quiser dar a isso e digo, a bem da verdade, é dos momentos que mais espero no dia.

E numa dessas “feiras” das quais se fazem os dias não ociosos da semana aconteceu, como sempre. Todo o ritual se repetiu, do elevador à porta de casa, do tilintar da chave na fechadura aos ruídos dela se movimentando na sala, do ranger da dobradiça enquanto a porta se abria (que agora lembrei ainda não cuidei de arrumar) aos primeiros sons da sola do meu sapato pisando no corredor da sala, do “quem chegô?” dito pela minha esposa ao afrouxar da gravata no colarinho. E foi ali, ao topar de frente com minha menininha correndo que ouvi:

- Papa!

Ela falou!

Saiu em disparada do sofá, as bochechinhas tremendo, os passos concentrados na minha direção. Em disparada, meu peito acelerava na sensação única de ver meu fruto me olhar nos olhos e dizer meu nome – ou a palavra mais simples que signifique essa condição paterna.

- Papapapapapapa… papa!

- Oi Nina!

Ela falou para mim. E se me pedisse o mundo naquela hora eu lhe daria (sabe como é, financiamentos bancários já não são tão difíceis de se conseguir ultimamente).

Eu olhava para aquela coisinha, que ainda precisa de mim para qualquer de suas necessidades básicas de sobrevivência e tinha consciência de que, naquele instante, ela era dona do meu coração. Seus olhinhos redondos brilhavam e o rosto sorridente me perseguia.

Duas silabas elementares no vocabulário de qualquer ser humano com mais de 6 anos, mas que a julgar de onde vinham, tornavam todas as outras coisas menos importantes por um momento. Era o melhor dos elogios que eu podia ter ouvido nesses dias.

Sim – respondendo a uma pergunta que talvez você não tenha feito –, ela já havia falado outras coisas antes. Disse “mamã” para chamar aquela que é justa merecedora da primeira fala. E disse “kissss”, para chamar a nada merecedora cachorrinha no quintal da casa da minha sogra, enquanto fingia estalar os dedos.

(Eu estava em terceiro lugar nessa fila, mas quem se importa com o detalhe de que antes de me chamar ela tenha aprendido a correr atrás de uma poodle que não lhe dá a menor atenção e que ela só vê uma vez por mês? Quem liga? Hein? E estalar os dedos! Hein?!?)

E aquela voz admirada se dirigindo a mim soava como expressão de louvor. Era ela, minha cria, aprendendo uma coisa nova e se expressando para mim. Orgulho, corujice, satisfação, amor, coração mole, euforia, puro exagero. Sim, a mãe dela tem razão, sou meio carente.

Aquela voz, o resmungo, o chorinho pelo qual eu largo tudo e lhe volto minha atenção. Deixo trabalho, abandono um livro aberto sobre a mesa, largo as tarefas por fazer, deixo o feijão esfriar no prato, desligo o futebolzinho na TV. Abandono a mais importante das prioridades, porque meu pequeno fruto precisa de mim. Eu nunca imaginei que seria assim, mas o coração de pai renuncia de si em favor do seu sangue que corre naquelas frágeis veias.

E ainda agora, alguns meses depois, aquela vozinha mínima me chamando ainda é capaz de me mover. E fico pensando que vai ser assim a vida toda. Se ela chama, eu vou. Se estou deitado, me levanto. Se ela diz algo, respondo. Se ela chora, eu acordo. Se ela pede, invariavelmente, eu dou.

Ela é filha, eu sou pai. E quando ouvimos a voz da nossa própria carne nos chamando, que pai não pára e se curva para ouvir, responder, atender ao pedido de um filho?

Quem resiste?

Nenhum pai. Nem o Pai.

Sobre a velhice, rotinas e prioridades

por Luiz Henrique Matos

Eu nem posso dizer que não haviam me avisado. As frases-feitas me passam pela mente como verdades nas quais eu não quis acreditar. “O tempo voa”, “vixe, passa rápido”, “aproveite agora”, “você vai ver como cresce rapidinho”… eles tinham razão.

No mês passado ela fez um ano. Já fez um ano! Corre para todo lado, balbucia as primeiras palavras, arrasta os brinquedos pela sala, faz as manhas de todo neném quando quer algo e engorda e cresce em ritmo de gado novo. O que eu posso fazer? Nada, nem sei por que pergunto. Os cabelinhos encaracolados, a pele branca, bochechas gordas, a boquinha rosa… Nina, meu neném, até há pouco tempo totalmente dependente, agora é uma pessoinha cheia de vontades, uma menina, criança, que daqui a pouco cresce e cresce mais. E assim vai. Quando se vê, já foi.

Passa rápido demais. E percebo que tem coisas dos últimos anos que se misturaram na memória. Vi-me mais uma vítima de outra verdade, a de que depois dos dezoito os anos já quase não se contam. E ficam esparsos, cada vez mais, os momentos memoráveis do dia-a-dia. A praga da rotina.

Não, não reclamo da vida. Ela é boa demais da conta. Tenho esposa, uma filha, trabalho. Tenho Deus, meu Senhor e Pai. Minha família e meus amigos. O que paro pra pensar é na rotina – sempre ela – e nos dias que insistem a passar, na parte da vida que se contam nas horas, que observo já vivida, lá atrás, através do retrovisor do carro que dirijo em primeira marcha no trânsito caótico dessas nossas avenidas.

Também não vou me iludir, o auto-engano é frustrante demais. Sei que as coisas continuarão como são e assim sempre serão. Mas eu não. Quero fazer diferente.

E isso passa pelos momentos memoráveis, daqueles mais simples, de um dia de boas risadas, boa comida, de descompromisso.

É o que eu quero. Estar com minha família e aproveitar. Lembrar que os recursos mais valiosos são aqueles para os quais dedico mais tempo. Jesus disse: “onde estiver o seu coração, ali estará o seu tesouro”. Falta agora um pouco dessa ordem em mim.

Deus, família, trabalho, igreja… tudo tem sua ordem, seu tempo, valor. Mas mais do que uma fração de minutos ou dias, importa a qualidade e não a quantidade que se emprega.

Para entender esse valor, recordo das boas marcas e lembranças. São essas coisas que quero viver mais. Em casa, à mesa, na rua, no chão, na estrada, à mesa, de mãos dadas. Sei que sou mais do que o acaso. Sei, em Deus, que existe um propósito para a vida. E eu gostaria de envelhecer e saber que cumpri com integridade minha jornada, o bom caminho. Mas não só. Se for assim não tem graça. Bom será saber que o fiz ao lado daqueles a quem amo.

Todos lá sentados num gramado de verde quase escuro, numa tarde de sol brando e céu azul, ao lado do pomar, em frente à casa de madeira clara, o cão correndo pelo jardim, as crianças brincando na terra, os adultos brincando na terra, uma boa rede estendida, a mesa posta com toalha branca embaixo da árvore cujo galho serve de sustento para o balanço de pneu de caminhão, o suco fresco servido gelado, a moça grávida sonhando com os dias da nova vida que carrega no ventre ao lado do marido que lhe acaricia os cabelos, o cheiro de café coado e recém fervido no bule invadindo o ar… e a certeza de que isso não nos custa mais do que um bom sonho.

Salomão sabia das coisas. Já idoso, no fim da vida, tratou de registrar o que observou para que pudéssemos aprender alguma coisa.

“Portanto, vá, como com prazer a sua comida e beba o seu vinho de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz. Esteja sempre vestido com roupas de festa, e unja sempre a sua cabeça com óleo. Desfrute a vida com a mulher a quem você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus dá a você debaixo do sol; todos os seus dias sem sentido! Pois essa é a sua recompensa na vida pelo seu árduo trabalho debaixo do sol. O que as suas mãos tiverem que fazer, que o façam com toda a sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria.” (Eclesiastes 9:7-10).

E penso, decido agora, que não vou eu esperar o fim da vida para chegar às mesmas conclusões que o sábio rei. Posso e vou fazer agora, aquilo que de fato tem valor. Quero ser o homem rico, cheio do tesouro que realmente interessa e vale a pena acumular.

Meu coração está no meu tesouro.

E confesso que às vezes eu queria mesmo é que o tempo não passasse assim de forma tão brusca. Que minha menina pudesse caber em meus braços para sempre. Que eu conseguisse me manter o humor do garoto que conquistou o coração da moça mais bonita, que um dia me disse o “sim” definitivo num altar. Tanta coisa. É bobagem minha, tempo gasto à toa. Importante é o que posso fazer desde agora.

Deus não faz um só dia igual ao anterior. Não tem amanhã que possa ser previsto e também não existe ontem que possa ser vivido outra vez. E acho mesmo que para o amor, hoje é nosso melhor momento. O que faço agora é o semear do fruto que colherei daqui a pouco e também lá na frente. E minhas prioridades revelam meus valores, me revelam.

O resto, Salomão me ensinou, é correr atrás do vento.

“Agora que já se ouviu tudo, aqui está a conclusão: tema a Deus e obedeça aos seus mandamentos, porque isso é o essencial par ao homem.” (Eclesiastes 12:13).

Primeiros passos

por Luiz Henrique Matos 

 

Soltei minha pasta no chão, larguei o paletó sobre a mesa, afrouxei o nó da gravata e arregacei as mangas da camisa. Eu acabara de ouvir a novidade e não podia acreditar que estava acontecendo. Bem, quer dizer, podia sim, já havia imaginado centenas de vezes como seria esse momento. Mas nada se parecia com aquilo.

Ajoelhei, abri os braços e fiz o convite:

- Vem, filha. Vem aqui com o papai.

Ela riu. Sempre ri. Soltou seu apoio no encosto da cadeira e deu o primeiro passo, cambaleou, tentou se equilibrar, ôôô, caiu sentada. Sem problemas, a fralda amortece a queda. Pronto, vamos recomeçar. Em pé. Um passinho, dois, outro, mais um, vários, vários passos. Ela vinha atravessando a sala em minha direção, com aquela insegurança típica da inauguração dos momentos importantes da vida, com um sorriso de conquista naquela boquinha banguela, seus olhos alternando entre o chão logo à frente e o meu olhar concentrado, orgulhoso, paterno, protetor, satisfeito, radiante, coruja.

- Que belezinha! Minha princesinha já está andando! Parabéns, filha. Que linda! Agora ninguém te segura… Amor, vai tirando tudo o que é de vidro aí de cima do móvel. Amor, você viu isso?! Preciso filmar! Amor, cadê a câmera?

Ela andou. E agora sai descontrolada pela sala, quartos, banheiros, cozinha, corredor, shopping center e ruas. Ela vai a toda, cambaleando, tropeçando, caindo e confiante. Independente.

Será que ainda vai precisar de mim para alguma coisa?

Até ontem só andava mesmo de mãos dadas, com aquela mãozinha suada apertando o meu dedo indicador e um pedaço de pão preso na boca. De mãos dadas com o pai, seus passos são mais largos, ela se sente mais segura. Eu era seu ponto de equilíbrio. E ainda pedia colo para qualquer coisa.

O tempo vai passando. Não me cabe julgar a velocidade das coisas, é o tempo, e pronto. Mas com o passar dos dias consigo enxergar um pouco do meu papel como pai se cumprindo, uma porção do trabalho finalmente frutificando.

Às vezes (cada vez menos) é possível perceber sua insegurança. Ela olha os cinco metros à sua frente – que a visão em miniatura deve transformar em cinco quilômetros – e fica com medo, ameaça sentar, pede colo. Vencendo os instintos super-protetores (são muitos, acredite), eu mantenho distância, estendo os braços e a incentivo a seguir sozinha.

Lembro que Deus já fez isso comigo. Não faz muito tempo, eu nem sabia andar. Levantou-me, estendeu o dedão para que eu me apoiasse e soltou minha mão no momento certo. Na outra ponta, de olhos esbugalhados e braços abertos, estava lá, coruja, orgulhoso de ver sua cria caminhando pela primeira vez com as próprias pernas. Cambaleante, mas vitorioso. Era eu.

Deus me fez para aprender a andar sozinho.

Apesar de já andar sozinha pela casa, a Nina ainda me pede colo. Quando está cansada, quando cai e começa a chorar, quando precisa de alguma coisa ou, nos mais deliciosos instantes, quando corre para um abraço.

Eu nem ligo, eu gosto, é minha filha.

Às vezes eu peço colo.

(Crônica escrita para o Comunidade Carisma.net)

Doentes curando doentes

por Luiz Henrique Matos

Ela estava gripada, dava dó. O olho inchado, a ponta do nariz vermelha, a respiração de boca aberta, ofegante, tadinha. De madrugada, lá do outro quarto, dava para ouvir os espirros, meio abafados pelo travesseiro. Dava para ouvir o ruído do nariz entupido, que escorria durante todo o dia. Dava para ficar preocupado. Ela nem tinha 70 centímetros de comprimento.

Minhas orações se intercalavam e contradiziam ao mesmo ritmo em que eu a balançava no colo. Pai, eu te peço que cure minha filha dessa doença. E eu ouvia um gemido, um chorinho, a voz rouquinha. Ai, Deus… passe essa dor para mim, mas não deixe que ela sofra. Os remédios, a dosagem, a inalação, o médico. Ué, cadê o telefone do doutor? A gente precisa ligar pra saber o que fazer. Tentava imaginar o que mais poderia ser feito para melhorar aquela situação. Senhor, cuide da minha menina…

E entre preocupações e tentativas, me surpreendia em atitudes curiosas. Naquela noite, ela estava deitada na cama, estirada, corpo dolorido e cansada. Eu dosava pelo conta-gotas um pouco de soro fisiológico em cada uma daquelas narinas minúsculas. Passei a massagear levemente a parte superior do nariz para que a entrada do soro fosse facilitada, apoiei sua cabecinha sobre um travesseiro mais alto, tirei as mantas e bichinhos de pelúcia que pudessem fazê-la espirrar ou acumular poeira. Isso fez com que ela respirasse com mais facilidade. Passou a descansar melhor. Dormiu.

Aí tentei lembrar de onde eu tirei tais instintos. Será que vinham no pacote da paternidade? Hum, não, acho que não. Recordei minha infância, a chateação de uma rinite alérgica que me prejudica o olfato até hoje (acredite, às vezes posso confundir cheiro de perfume com tempero de comida). E me vieram à mente as noites da nariz travado, as madrugadas em que a mãe trazia o travesseiro mais alto para eu dormir, da vez em que os carpetes de casa foram tirados e da revolucionária substituição dos cobertores de lã Parahyba por moderníssimos edredons. Lembrei que, um dia, eu mesmo precisei passar pelo que, agora, fazia pela minha filha.

Doentes curam doentes.

Confesso que aquilo estava longe do meu ideal de paternidade e muito, mas muito distante do tipo de conhecimento que imaginei transmitir para minha prole. Mas aprendi que as dores, sofrimentos momentâneos e tempestades pelas quais passo, devem servir – e servirão – para que eu ajude outras pessoas que porventura estejam lutando o combate que em algum momento já venci. Depois de passar a enxergar, devo guiar o cego na escuridão. Deus espera isso de mim. De nós.

Naquela noite ali no quarto, eu a segurava no colo, pedindo ao Pai que a curasse e aliviasse sua dor. E percebi em meu coração que ele observava, desejando embalar em seus braços a menina que criou para chamar de filha. Ela é dele. Dele, o Deus que se entrega, e cuida daqueles que ama.

E aí aprendo outra vez, na dor e na alegria, que a paternidade me aperfeiçoa como filho.

“Porque todos aqueles que pedem recebem; aqueles que procuram acham; e a porta será aberta para quem bate. Por acaso algum de vocês, que é pai, será capaz de dar uma pedra seu filho, quando ele pede pão? Ou lhe dará uma cobra, quando ele pede um peixe? Vocês, mesmo sendo maus, sabem dar coisas boas aos seus filhos. Quanto mais o Pai de vocês, que está no céu, dará coisas boas aos que lhe pedirem!” (Mateus 7: 8-11).

(Crônica escrita para o ComunidadeCarisma.Net)

Pequenas lições

por Luiz Henrique Matos

Até outro dia ela cabia no meu antebraço, seu tamanho exato. Hoje, eu mal consigo segura-la nos braços. Poucos meses se passaram mas muita coisa mudou. Na essência, é um ser humano em evolução tão intensa e mais rápida do que eu posso assimilar.

Hoje mesmo, durante o café da manhã eu a observava brincando no chão da sala, deitada de costas sobre o edredom, assistindo pela qüinquagésima vez aos clipes do “Cocoricó” (cuja trilha, confesso, canto entusiasmado entre o barbear e um nó torto na gravata).

- Como cresce rápido, não é mesmo dona?

- Poizé. Num instante eles cresce. Igual a vida. Quando a gente vê, rapidim, tudo já passô (sic).

Sotaque mineiro, analfabeta, cheia de razão, recolhia a louça de ontem espalhada sobre a mesa. Falou, é verdade, aquilo que todo mundo já sabe. Mas com o peso de setenta anos nas costas, filhos adultos, netos, um bebê adotado, viúva… imagino que suas histórias e lutas sejam interessantes. As dos antigos sempre são. Imagino que suas afirmações tenham sempre um peso maior de verdade e sabedoria do que essas conclusões da minha imaturidade.

Fugaz. O tempo voa, a vida passa e o que, de verdade, é importante fazer? Seria o desafio melancólico da auto-ajuda que questiona onde estão empenhados nosso tempo, dinheiro e esforços? Ou o melhor mesmo é viver despreocupado e deixar que as coisas aconteçam por si só?

Não sei dizer. Ou, prefiro não decidir isso agora. Em ambos os casos, não dá para seguir sozinho.

Ela passa por trás da mesa, percebo que calça o par Havaianas antigas da minha esposa. E volta então para a cozinha, onde lava, passa, prepara a comida que fará no almoço.

E percebo, entre uma mordida no pão sovado e um gole na xícara de leite frio com chocolate, que a sabedoria não é privilégio da “gente letrada”, mas dos que observam, e vivem, e seguem com dignidade a vida que nos absorve.

“Portanto, vá, coma com prazer a sua comida e beba o seu vinho de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz. Esteja sempre vestido com roupas de festa, e unja sempre a sua cabeça com óleo. Desfrute a vida com a mulher a quem você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus dá a você debaixo do sol; todos os seus dias sem sentido! Pois essa é a sua recompensa na vida pelo seu árduo trabalho debaixo do sol. O que as suas mãos tiverem que fazer, que o façam com toda a sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria.” (Salomão, homem que observou, já velho, em Eclesiastes 9:7-10).

Na falta do que dizer…

por Luiz Henrique Matos

Faz umas quatro horas que estou tentando escrever algo aqui nessa tela. Já comecei quatro textos diferentes, esse é o quinto. Acho que agora vai. Acho.

O último eu parei duas vezes. Na primeira, para dar a mamadeira para a Nina, que chorou lá do berço pedindo seu leitinho. Altíssima prioridade. Na segunda, também pela Nina, que resmungava os primeiros gemidos dando sinal de acordaria em breve.

Pensei em deixa-la ali no berço, afinal já passam das onze e é hora de bebê estar dormindo. Mas não resisti. Olhei aquele rostinho, aquele olhar de quem acorda e ainda dorme me sondando, o sorriso banguela se construindo no rosto e a mãozinha vindo na direção das minhas bochechas. Ela me aperta. Mão macia. Mas precisa cortar as unhas. Ela pede colo. Peguei-a e vim para a sala brincar. Isso sim, mais importante do que qualquer palavra mal escrita numa tela de computador.

Me veio à mente então uma pérola: mais importante do que as coisas passageiras que depois podem ser feitas, é dar valor ao que passa rápido e quando vê já não se pode mais fazer (éca, ficou péssimo isso).

Ela só tem cinco meses, mas sinto que a cada hora longe de casa, perco um novo sinal de seu crescimento. Ela já tem cinco meses.

Enquanto escrevo, ela me sonda por cima da tela. Sentada na cadeirinha de balanço (que preferiu, preterindo meu colo), olha insistentemente para mim enquanto narro em voz alta as palavras que despejo nesse teclado. Ela gosta. Ela ri timidamente. Ela não está com sono, definitivamente.

Que valor tem o tempo, afinal? Que prioridade tem as coisas tão urgentes, perto do que é mais importante? Quero saber, um dia lá na frente, que fiz a coisa certa. Que as escolhas, as mais simples, foram as que causaram impacto e tornaram nobre e valioso o viver. Que o olhar apaixonante e curioso de um bebê é, no fim das contas, maior do que o prazo das tarefas no escritório, maior do que o sono, melhor do que o melhor clássico de futebol na tv.

Falando em clássico, a música de Ravel toca ao fundo, completada pela trilha sonora do ritmo da chupeta colorida que estala naquela boquinha vermelha.

Ela me olha fundo nos olhos. Como faz a mãe dela, quando quer me dizer algo sem precisar abrir a boca. E vejo nesse olhar sua inocência, vejo minha filha, me vejo, sangue do meu sangue, vejo um bebê, vejo a mulher que um dia virá a ser (e aí já não quero mais ver nada porque isso vai longe demais pro meu gosto).

Agora ela observa a própria mão, abrindo e fechando. Ela raspa as pontas dos dedos no estofado para saber a textura que tem. Aprende algo novo. Ela tenta alcançar algo que está pendurado no arco da cadeira e arrancar dali a todo custo. Ela se revira toda para saber como ficar, cair, não… ixi, peraí, preciso arrumar… ufa, foi por um triz! Ela tenta engolir um brinquedo maior do que sua cabeça. Ela baba pra caramba.

Pensando bem no primeiro parágrafo dessa história, acho que o texto não dará em nada, senão nesse despejar de palavras e sentimentos que, a bem da verdade, não dizem muita coisa para o cristianismo de alguém. Talvez até digam ou sirvam para tratar de prioridades, para pregar uma vida mais simples e despretensiosa, para dizer que as coisas realmente valiosas e divertidas também não estão em nossa conta bancária (ah, mas não mesmo, dirão os endividados mas você entende do que estou falando).Acho que ela é destra. Puxou o pai?

Pensando bem, acho que o melhor a fazer é abandonar esse computador e voltar a brincar com minha princesinha. É, filhos nos dão essa vantagem, podemos voltar a ver desenho animado e brincar de ser criança sem que os outros adultos nos julguem idiotas. Pelo contrario, até acham bonito, nobre, pedagógico, estimula o sei-lá-o-quê da criança. Eu só sei de uma coisa: é bem legal.

Ela tem cosquinhas. Ela gosta do meu colo… (ou talvez não tenha muita opção). Ela gosta de cheirar um paninho, igual aquele personagem do Snoopy. Puxou a mãe? Opa, ela pediu colo. Agora está aqui deitada nos meus braços e com a cabeça recostada sobre meu peito. Nada paga essa sensação. Volto a um raciocínio antigo, mas que me visita toda semana: Deus nos dá a chance de ter filhos para que possamos, numa minúscula fração, entender o que ele sente como pai.

Ela não fala nada às vezes acho que ela acha que fala , só sorri, chora e resmunga de vez em quando. Mas nem precisa, você sabe bem disso. É que… ahn, aqueles olhinhos, aquelas mãozinhas, aquele sorrisinho… bem, isso não tem nada de diminutivo. Na falta do que dizer, o momento diz tudo.Talvez, voltando ao raciocínio do parágrafo aí de cima, talvez isso também seja a grande lição da paternidade divina. Ele contempla, ele prioriza, se enche de orgulho, sofre, ele sabe… sim, sempre sabe e ama sob qualquer condição.

Pensando… bem, agüenta firme aí que eu vou curtir minha cria.

Colos, cólicas, chavões e uma crônica de continuação

por Luiz Henrique Matos
(Continuação da carta anterior)

- Amor, vem cá! Aconteceu uma coisa estranha…

Eram os primeiros minutos do dia 19 de março de 2007, madrugada de domingo para segunda-feira. Eu acabara de fechar a tela do computador onde escrevia minha última mensagem, falando sobre minha esposa, a beleza da gravidez e as pequenas surpresas que Deus nos faz. Já calçava os chinelos e me preparava para ir para a cama quando ouvi sua voz vindo lá do banheiro. “Coisa estranha”, que raios seria isso? Corri para checar.

A bem da verdade, estranho era ouvi-la falar assim. Vindo do banheiro, chamados mais comuns diziam respeito a “Amor, me traz a toalha?”, “Por que você não abaixa a bendita tampa do vaso?” ou, tão comuns quanto, desesperos hitchcockianos que berravam “Henrique-corraqui-pelamordedeus-porque-tem-uma-mariposa-enorme-no-box!”.

Cheguei no banheiro, ela estava de pé em frente ao vaso, uma expressão curiosa naquele rosto meigo e o dedo apontando para algumas gotas avermelhadas no tapete. Olhei para ela, olhei para o tapete, olhei para ela:

- É, neguinha, das duas uma: ou estourou sua bolsa ou sua bexiga está frouxa…
- Bobo.

Alguns telefonemas e uma hora depois, preparávamos as malas para seguir até a maternidade. Nada garantia que a hora do parto havia chegado, mas nada também nos fazia acreditar no contrário. Nove meses se passaram e aquele me parecia o primeiro momento real dessa gravidez.

Malas nas mãos, chaves no bolso, caminhávamos pelo corredor rumo a porta da sala quando nos entreolhamos. Olhamos para a casa que deixávamos e concordamos:

- Quando voltarmos… seremos três.

Chuva. Escuridão na rua. Vai devagar! Hospital vazio. Acabou a energia, subiremos de escada. Enfermeira com sono. Boa noite. Exames estranhos. Telefonemas para a médica. Vai nascer. Ai, ai, ai! Cadastros infindáveis na recepção. Minha esposa saindo pelo corredor em uma maca. Elevador parado, mais escadas. Eu recebendo uma trouxa com roupas. Vestiário médico. Touca, máscara, protetores. Centro cirúrgico. Nossa amiga Amanda na sala de cirurgia. É bom ter um rosto conhecido por perto. Olá, essa é a equipe médica. Como vão, tudo bem? Ar-condicionado gelado. Cadê o fotógrafo? Oi amor, você está bem? Está nascendo! São três e vinte da manhã. Estava com o cordão enrolado no pescoço. Tire as fotos! Esqueça as fotos, quero vê-la nascer. Nascendo, nascendo, está saindo… Olha a Nina, que bebezão! Linda, maravilhosa! Vão cortar o cordão. Um beijo na Manú. Parabéns, agora você é mãe. Te amo. Eu também, muito. A enfermeira vindo. Olhe mamãe, sua filha! Que linda. Veja papai, sua filha. Posso pegar? Só se for rápido, ela precisa ir para o… Tá bom, é rapidinho.

Eu a tomo nos braços, o tempo pára, ela aquieta, meu coração acelera, a respiração ofegante, aquele rostinho, eu a observo estático, meus olhos marejam, lacrimejam, se fecham, eu choro e choro. É verdade, eu sou pai. Meu Deus, obrigado! Ela é sua, meu Pai, ela é toda sua. Obrigado.

- Oi Nina, minha filha, eu sou seu pai, seja bem vinda! – e eu contente por ter dito o que planejei.

As horas que se seguiram foram de algum sentimento que até agora não sei dizer. Vivenciei todos os chavões que uma canção romântica poderia expressar. “Uma sensação indescritível”, “sentimento único”, “amor que rasga o peito”… tantos que quase me via num balbuciar sertanejo. Num transe abobado, eu conversava animadamente com enfermeiras, seguranças, manobristas e comigo mesmo.

Enquanto minhas mulheres não vinham, sentei sozinho naquele quarto escuro. Eram quase seis da manhã quando abri meu bloco de notas e tentei escrever os detalhes sobre as últimas horas que vivi. Não consegui. Desde então, venho pensando em uma forma de registrar os momentos, as emoções, os passos daquela noite para que minha memória fraca não falhe ao tentar lembrar de um dos dias mais incríveis da minha vida.

Foram 39 horas ininterruptas, acordado e vendo minha vida mudar. Amigos, familiares, gente querida nos cercando, o telefone tocando. E depois desse dia, já passaram-se mais de dois meses. E vemos que as semanas seguem e nos levam aos passos inevitáveis de todos os pais, com os choros indecifráveis, colos, cólicas, listas de dúvidas para o pediatra, leite a cada três horas, corridas desesperadas para o hospital, livros de orientação, uma vontade de ter aquele bebê grudado em nós para não deixá-la desprotegida.

Eu, na verdade, queria poder carregar as duas no meu colo e permitir que elas se sentissem seguras. Mas não tenho bíceps e capacidade para tanto. Aliás, nem mesmo tenho a segurança que gostaria. Isso não está em mim, apesar da pose. Isso sim, eu sei, encontro no bom Pai que, nesses dias, está nos ensinando a ser pais.

E eu queria também escrever uma carta. Duas, na verdade. Uma para a nova mãe que vi nascer naquela noite. Outra, para a filha que verei crescer sob meus olhos atentos. Para minha esposa, pensava em registrar todo sentimento, amor, respeito, carinho, apoio, dedicação e tanto mais de coisas que gostaria que ela soubesse que eu sinto e quero viver ao seu lado. Para minha filha, pretendia deixar os grandes conselhos e princípios que, imagino, ela deverá ter, e assinar de próprio punho tudo o que sinto, penso e sonho para sua vida. Mas não consigo.

Foram dias de rabiscos mentais e tentativas vãs. Frustrado, demorei a aceitar a falta de inspiração, quando era justamente essa que não me faltava. Me vi então diante de uma única resposta possível para esse momento. Não, não foi num versículo bíblico como era de se esperar, tão pouco foi em uma frase devastadora de Shakespeare e ainda menos em um verso derradeiro nalgum poema de Fernando Pessoa. Foi sim, outra vez, num velho chavão, que encontrei orientação: “essa história não se escreve, essa história se constrói”. Ora, detesto chavões. Mas são eles mesmos, como diria um pensador, “uma verdade desgastada”.

Pois é, para minhas amadas, espero um dia ter mais do que verdades gastas para declarar. Espero e me esforço por um poema na ponta da pena para poder lhes escrever. Ao longo da vida juntos, nos gestos da rotina, nos presentes, nas flores enviadas de surpresa, nos passeios de fim de tarde, nas orações feitas à mesa, nos clássicos momentos no sofá, na corrida cotidiana que insiste em acelerar, enquanto trago o leite, o pão e o jornal do domingo de manhã, enquanto vejo o futebol na TV, o programa infantil ou a novela das oito. Nos nossos dias, às minhas queridas espero poder escrever e renovar minha declaração apaixonada.

Continuo acreditando no que agora testifico. E sigo também, na observação contemplativa daquele pequeno tesouro dormindo no berço e imaginando que o Criador fez uma vida nova brotar no ventre de minha Manú. A Nina que nasceu há dois meses e que não tem mais fim, é eterna, é assim, ora bolas, a eternidade divina frutificando do nosso amor.

E encontro novamente paz, em uma verdade nada desgastada, que proclama: “Eu te louvarei, porque de um modo tão admirável e maravilhoso fui formado; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem. Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado, e esmeradamente tecido nas profundezas da terra. Os teus olhos viram a minha substância ainda informe, e no teu livro foram escritos os dias, sim, todos os dias que foram ordenados para mim, quando ainda não havia nem um deles.” (Salmo 139:14-16).

O amor, um calção e gestos primitivos (cinco minutos antes de minha vida mudar)

por Luiz Henrique Matos

Lá fora na rua, um grupo festeja. Não sei o motivo, mas aqui quieto na sala de casa, dou risada ao imaginar que essa gente deve ser engraçada. Ouço as risadas, as palmas, a gritaria alegre de algumas pessoas reunidas e fico pensando que Deus tem uma pureza engraçada. Ele nos dá as melhores experiências e lições de vida justamente quando estamos desprovidos daquilo que tanto perseguimos para ser felizes.

Afinal, quem é que precisa de mais do que uma gargalhada para entender uma porção da felicidade? Quem é que precisa de mais do que um escorregão para encontrar ensinamentos a respeito da vida?

E percebo por essas, que o que mais atrai nas pessoas são justamente os gestos primitivos e tão naturais a nós. E percebo por outras, que necessidades vitais também estão na capacidade de rir, cantar, brincar um pouco, abraçar os amigos, comer à mesa com a família. Nos pequenos momentos que nos distraem daquilo que julgamos ser o que de fato importa, nem vemos que, ora bolas, o que importa de verdade está ali ao alcance de um gesto, uma palavra, um olhar, às vezes até de um silêncio.

Gestos humanos, primitivos. São condições à própria vida. Me parecem os tipos de valores e sentimentos que nos formam, independentemente das épocas, da história, desde o princípio. É o que nos faz o que somos, criaturas moldadas à imagem e semelhança de um Deus admirável.

* * *

Aqui dentro, mudo de assunto mas não de conclusão. Observo por um instante, deitada num colchão no chão da sala, a mulher da minha vida. Que cochila. A sutileza de seus gestos, a respiração leve, os cabelos soltos meio bagunçados sobre a fronha de estampa verde xadrez. Uma almofadinha sob a barriga para sustentar os nove meses de gestação. Ela espera por nossa filha. “Puxa, amanhã pode ser o dia em que seremos pais!”. Ela veste meu calção branco – sei lá eu o porquê de ela fazer isso, mas estou certo de que ela o veste da maneira mais charmosa e honrosa que aquele calção velho jamais poderia desejar (partindo do pressuposto, evidente, de que os calções são dotados de algum desejo, honra ou vaidade).

E aqui, apaixonado outra vez mais, acho curioso esse sentimento que nos leva a acreditar e desejar ter uma vida inteira ao lado de outra pessoa. Eu sinto isso. Quero passar ao lado dessa menina todos os meus dias, minhas alegrias e dores, minhas dúvidas e conquistas, meus sonhos e falhas, minhas noites de sono repartidas em uma cama. Cumprirei meu voto de “felizes para sempre” e, sem esperar que chegue o sempre, seremos felizes todos os dias.

Lembro, por um pouco, de alguns retratos de infância que víamos juntos há alguns dias e penso então num belíssimo futuro, no tempo que envelheceremos lado a lado, de mãos dadas, dois heróis da vida simples sentados juntos à mesa. Mas não qualquer mesa. Será uma mesa grande e velha, de madeira já gasta, posta com comida farta, doce de leite e suco de frutas, à espera dos filhos e netos para um almoço no domingo.

Bom, vou dizer uma outra bobagem, mas acho até que é desses detalhes que se preenche o amor. Talvez eu esteja mesmo tendo algumas variações, mas penso aqui que um sentimento precisa de mais do que um significado e um dicionário para ser real. Para ser real ele tem que ser vivido. E o que se vive não são palavras ditas, não ditas, malditas ou escritas, é a vida. Coisas do cotidiano, vitórias extraordinárias, derrotas nem tanto (bem, assim se espera sempre com otimismo). É de tudo que se compõe a vida.

Ela respira fundo, me olha sonolenta. “Sobre o que você tá escrevendo?”. Eu olho para ela, olho para a tela. “Sobre a vida, sobre Deus, família… essas coisas”. Vira de lado, dolorida, coitada, a barriga pesa. Cochila outra vez.

Não, não é uma brincadeira essa história de casar e construir uma família. Isso é um gesto de honra. Honra, reforço a expressão, outra palavra cujo significado pouco se vive nesses nossos dias de relações casuais, convicções hedonistas, falsas verdades e calções brancos dotados de sentimentos.

Enquanto escrevo, vejo o pedaço de metal dourado que me enlaça um dos dedos – o anular, cujo nome sempre me esqueço – e penso que, outra vez, uma coisa tão pequena e arcaica, me faz lembrar dos sentimentos, os sonhos, os planos, a entrega e a decisão de uma vida inteira que estão empenhados nessa aliança.

Sim, honra e amor, Deus e o homem, as amizades e risos, os sonhos e nossos sentimentos primitivos… Sim, o eterno é a promessa de uma aliança.

* * *

PS.: Escrevo agora, depois de seis dias, para a última revisão desse texto. Foi que, nem cinco minutos depois do ponto final dessa carta, nos primeiros instantes do dia seguinte, ouvi minha esposa chamando, agora lá no quarto. Sua bolsa amniótica havia rompido. Deixei o computador como estava e corremos para o hospital, para ver, dali três horas, nossa pequena Nina surgir nesse mundo. Era real, seríamos pais no dia seguinte. Continua.

As cegonhas não existem

por Luiz Henrique Matos

- Os pais morrem de aflição quando se fala na limpeza do umbigo do bebê, mas é simples. Você deve segurar o pequeno pedaço do cordão e com uma haste de algodão embebida em álcool a 70%, limpar a base do umbigo fazendo um movimento circular e também ao redor num raio de dois centímetros…

“Será que serei um bom pai?”, era o pensamento que me ocorria. Enquanto ela falava, eu anotava, tentava absorver tanta informação quanto me fosse possível, mas minha mente não conseguia fugir desse questionamento sem resposta. “Foco Henrique, foco!”.

- O leite materno é fundamental. É incrível, a mãe produz um leite específico para nossa espécie. Nesse alimento estão todas as vitaminas que a criança vai precisar nos seis primeiros meses de vida. Por isso, mamães, é preciso estimular a produção de leite. O aleitamento é importantíssimo. Mas tudo funciona como uma fábrica, se acabar a demanda, acaba também a produção, o estoque seca.

“Demanda, fábrica, produção… empresa. Vou conseguir sustentar minha casa, dar o melhor para minha família? E se um dia eu perder o emprego? Preciso fazer as contas. Não quero que falte nada para elas”. Fulana, Sicrana, Beltrana… as professoras entravam e saíam daquela sala apertada no curso de gestantes, o ar-condicionado fazia um apito inconveniente, eu brigava com aquela persiana que não fechava direito e minha mente teimava em outras perguntas fora de contexto.

Lá em casa, o quartinho já está pronto, como um ninho montado cuidadosamente para abrigar um filhote. Olho para aqueles móveis, vejo aquelas roupas em miniatura penduradas no varal, aquele perfume inconfundível. “Por que demora tanto pra nascer?”.

- Muito bem, agora os maridos peguem esse bastão e passem nas costas de suas esposas. Façam massagem nos ombros, desçam pela lateral… iiiissso, passem também na região lombar. Lembrem-se, homens, elas estão carregando um peso, é importante que fiquem relaxaaadas…

“O que está passando pelo coração dela? Acho que vai ser uma mãe excelente. Tanto amor, cuidado, tanto carinho, a determinação… ela tem valores que eu não tenho, tomara que prevaleçam nessa educação. Ai, tomara que não sinta muita dor. O parto vai ser bom, ah será”. Eu pressionava o massageador sobre seu corpo, com receio por não machuca-la, eu a tocava querendo que sentisse meu carinho, meu amor, minha vontade de mostrar que estou presente, na mesma passada, de mãos dadas, desejando sustentar aquele peso no lugar dela.

- Peguem a boneca, tirem o macacãozinho e a fralda. Segurem de barriga para baixo, apoiando o bebê na palma de suas mãos e no braço. Suavemente, joguem a água morna com sabão sobre o bebê. Muito cuidado com os olhos e ouvidos. Sim, pode molhar o umbigo que não tem problema. Vistam com cuidado, a fralda não pode ficar muito folgada, não precisa esquentar tanto o bebê, a pomada, o cotonete, o sabonete glicerinado… agora troquem tudo de novo.

“É de verdade… Não é uma brincadeira de casinha, é de verdade! Que boneca que nada, tem uma pessoazinha nova dentro daquela barriga. Não vai simplesmente esvaziar e voltar ao que era. Em poucos dias teremos uma filha nos braços, uma criança dentro de nossa casa para o resto da vida, um bebê. Ai que frio na barriga, que coisa!, que vontade de chorar…”.

* * *

Minha filha nasce daqui alguns dias – talvez hoje, se assim resolver – e, como eu bem previa desde o início, os nove meses findam e eu não tenho a menor idéia do que é ser pai. “Serei um bom pai?” é o que fico encucando enquanto uma avalanche de sentimentos, novos e velhos, me atropelam.

Estou com medo. Estou feliz. Estou ansioso. Entusiasmado. Estou apreensivo. O que é mesmo “apreensivo”? Estou tranqüilo. Curioso. Estou pronto. Estou nada. Ah, acho que estou. Inseguro. Confiante. Alegre. Apaixonado. Estou marido. Estou me tornando um pai.

Ai caramba, pai!?

E quem é que vai me dizer o que fazer? Alguém aí tem um manual de instruções?

Bem, da maneira mais tola imaginável, tenho aprendido que nessas horas em que nenhuma das direções para onde olho me aponta um caminho, acabo mesmo apelando para o alto. Não, eu não busco um super-herói (essa tentativa já foi em vão). Como diria um rei antigo chamado Josafá: “Meus olhos estão em Deus”.

Sim, em Deus sempre há uma resposta. Um novo fôlego me enche os pulmões, a alma, o espírito. Percebo que apesar de mim mesmo, a revelação da verdade eterna se faz presente nesse ponto culminante.

Estou em paz.

É consolador saber que tenho um Pai que me guia por esse caminho desconhecido. Um Pai satisfeito em ensinar. Sua lealdade inabalável. Carinhoso e presente. É algo sobrenatural pensar que Ele também é o Pai dessa criaturinha, uma vida nova que nasceu como fruto do amor entre minha esposa e eu. É assustador pensar que Ele está nos comissionando para conduzir uma pessoa diante de uma vida inteira, num mundo que parece perecer a cada velho novo dia. Caberá a nós guia-la no caminho. Caminho?

Estou perdido.

Mas que caminho é esse? Que credibilidade eu tenho se sou eu mesmo quem tantas vezes tateio na escuridão tentando encontrar uma luz por onde seguir? Que verdades, que princípios, que sementes lançarei nessa terra fértil e pura? Que pai serei?

Fico tendo desses devaneios. Em meu coração, eu só queria que ela soubesse que já a amo, que já está em minhas orações há anos. Que nunca nos vimos, mas já faço hoje qualquer sacrifício por ela e pela mãe. E penso a todo instante no momento em que nossos olhos se encontrarão pela primeira vez e, bobo que sou, direi: “Oi Nina, seja bem-vinda ao mundo. Muito prazer, eu sou o seu pai”. Teremos muito o que conversar.

Estou sonhando.

Quero que ela saiba tomar suas próprias decisões, fazer escolhas boas. Que ela seja boa. Sonho que ela tenha um caráter irrepreensível, seja bonita, que se firme em princípios eternos, seja meiga e de olhos brilhantes, que ame a Jesus Cristo, que use vestidinhos com detalhes floridos. Sonho que ela ame as pessoas, que goste de brincar comigo e de deitar sobre meu peito enquanto vejo a TV. Sonho que ela mude a sociedade em que viverá, que ela corra na minha direção e se jogue nos meus braços quando eu chegar em casa à noite. Sonho que ela tenha grandes sonhos! E espero que durma bem a noite inteira para eu continuar sonhando. Sonho um novo mundo para minha família, com passeios e viagens perto da natureza. Quero uma família grande, mais filhos, uma casa ensolarada – como essas dos comerciais de margarina – e minha esposa e eu sentados juntos na varanda enquanto as crianças brincam no jardim.

Sim, eu sonho e creio que ensinaremos coisas boas a ela. Será uma pequena menina, uma grande mulher. Eu quero, sim meu Deus, ah como quero, que ela seja uma pessoa melhor do que eu!

Meu Pai, será que serei um bom pai?

Estou em dúvida.

Acredito que nunca saberei. Dizem os antigos que saberei sim, quando vierem os netos. Mas isso é coisa distante, nisso eu nem penso agora. O que percebo é uma renovação nos meus sentimentos empoeirados de fé, esperança, vida. Talvez brote daí essa confiança maior do que eu mesmo. Nessa hora em que eu forço a visão para que o foco esteja correto, imito aquele rei e volto meus olhos inteiramente para Deus. Acreditando ser perfeitamente possível, penso lá no fundo: “Pai, vá na frente, eu vou te seguindo”.

Estou grato. Tenho aprendido que a felicidade tem muitas faces.

As grandes conquistas do homem

por Luiz Henrique Matos

Desde criança, sempre acreditei que um dia eu faria algo que marcasse e mudasse a história das pessoas. Inventaria algo que fosse um divisor de águas na humanidade, uma salvação para os povos. Nunca soube direito o que seria, mas era um pensamento megalomaníaco qualquer.

Bem, preciso ser honesto antes de continuar essa confissão vergonhosa… pensamentos assim ainda me assaltam a mente. Sonhos impossíveis. Mas não são por vaidade, tão menos por orgulho. Esse sonho infantil, passava e passa por grandes feitos que tragam alegria para as pessoas. Eu diria então que é uma megalomania altruísta.

Quem sabe não seria um livro publicado mundialmente? Talvez um projeto de erradicação da fome. Uma canção tocante (ainda que eu seja inteiramente desprovido de ritmo e afinação). Ou, não seria eu um atleta nas Olimpíadas trazendo orgulho para minha pátria? Um grande artista? O vencedor de um Oscar para melhor documentário? Um prêmio Nobel da paz? Um líder político, um explorador espacial, um super-herói (por razões racionais esse último já não me vem tanto à mente)?

Bem, os amigos mais próximos são testemunhas de que nenhuma das opções acima fazem parte de meu acervo de dons e possibilidades. Mas foram e são sonhos, agora devidamente confessados. E só não me envergonho mais em escrevê-los nessa carta porque sei muito bem que você também pensa essas bobagens enquanto vive o ócio da vida comum, durante suas tarefas rotineiras, ao comer um pão com manteiga ou escovar os dentes em frente ao espelho.

A verdade é que nenhum de nós quer passar despercebido pela vida. Nós sonhamos! Queremos fazer algo que marque a geração em que vivemos. Desejamos ter a nossa saga particular e deixar uma lembrança para nossa descendência.

E foi há pouco, vendo um programa bobo de TV, que percebi que há algumas semanas eu estou sim, de maneira inimaginável, começando a escrever algo na história.

Serei pai. E daqui cinco meses uma garotinha (as chances são de 80%) sairá de dentro da minha esposa. Uma vida totalmente nova, inédita, um ser humano a mais no planeta. Uma pessoazinha de algumas gramas e centímetros…

E isso é muito mais do que uma estatística demográfica para o mundo, é o resultado da soma do que minha esposa e eu somos. É como se o amor que sentimos um pelo outro pudesse ser medido e se transformasse em algo que podemos tocar. Sim, amor tem tamanho e ela é a prova viva disso.

É a prova de que o amor cresce, engorda e se desenvolve. Ela será a nossa marca, uma assinatura que deixaremos no mundo. Uma ovelha no rebanho do bom Pastor. Daremos a ela um nome e nossos sobrenomes. Com os olhos em Deus, daremos a ela o melhor que tivermos e que não tivermos também. Na verdade, se necessário, deixaremos de ter para que nada lhe falte.

Eu sei muito bem que essa não é a história que estará nas prateleiras das livrarias. Não passará em horário nobre e dublado no canal de televisão de alguma emissora no norte europeu. Não será noticiada em primeira página. Também não a lerão as pessoas que não conhecemos, não ganharemos medalhas, prêmios ou condecorações por isso.

Mas quem se importa? Seremos pais e essa é a glória – que talvez venha ainda acompanhada de uma camiseta de “Super Pai” pintada a dedo na 2a Série, uma caneca feita de barro por aquelas mãozinhas finas ou mesmo um beijo melado na bochecha quando eu chegar do trabalho para jantar. Isso importa.

Valores importam porque são o que nos moldam. São nossa família. E aquilo que somos e vivemos, eu sei, refletirá nessa vidinha que hoje pulsa, se prepara e surgirá em nossa casa e inverterá as nossas vidas sem pedir licença.

Quando casamos, iniciamos nossa família. Mas agora sinto que estamos começando a história daquilo que realmente somos. E ainda teremos mais filhos, que nos darão netos e bisnetos e talvez até alguns tataranetos (quem sabe o que ciência não há de preparar até lá?).

E quando estivermos velhinhos, sentados em nossas cadeiras de balanço, tomando um chá com biscoitos (bem, acho que ainda gostarei muito mais de um Toddynho do que dos chás), esses pequenos resultados de nosso amor, virão nos visitar num fim de tarde ensolarado. E então, entre uma brincadeira e outra, contarei a eles sobre os grandes feitos que seu avô realizou.

Sim, poderão haver aventuras, viagens, expedições inter-espaciais. Poderei ostentar livros premiados, ações humanitárias e conquistas materiais. Curiosamente ou não, não tenho a mesma fé em relação a música e a carreira como atleta.

Poderei ser ali, nesse futuro imaginado, um homem marcante para as pessoas. Mas hoje, percebo e acredito, que a grande obra de minha vida será a mais simples delas. Uma vida vivida com amor, a Deus e à minha família. Os filhos como frutos desse amor simples e tão comum. Eles serão o símbolo da história, do nome. Será essa, afinal, a mais nobre das obras, a melhor das conquistas, o grande triunfo. E me alegrarei, realizado em saber (ah, como creio!), que eles foram muito além de nós nessa jornada.

Hoje, oro e espero fazer direito. Espero honrar a confiança de Deus Pai em mim e na minha Manú, porque Ele nos dará a chance – e o amor, a vontade e o desafio – de escrever a nossa história, de escolher como e por o quê seremos lembrados um dia.

“Eis que os filhos são herança da parte do Senhor, e o fruto do ventre o seu galardão. Como flechas na mão dum homem valente, assim os filhos da mocidade. Bem-aventurado o homem que enche deles a sua aljava; não serão confundidos, quando falarem com os seus inimigos à porta.” (Salmos 127: 3-5).

Versos infantis dessa minha felicidade

por Luiz Henrique Matos

Felicidade eu tenho,
Deitada ao meu lado,
Suspirando em paz,
Descansando em sonhos,
A repousar

Cabelos soltos sobre cama,
Como solta ela está,
Entregue, inocente,
Renovando a vida e o dia,
A repousar

Felicidade eu sinto,
Realizado nesse leito,
Enquanto leio, paro e olho,
A admiro e assisto,
A repousar

E sonho, ah, eu sonho acordado,
Com o filho que ela tem em seu ventre,
O futuro que seremos, dois eternos,
Ah, felicidade!
Ah, repousar!

Crescerá a criança,
De todo amor será cheia, de Deus,
E lançada como a flecha voará,
Subirá como águia, além irá pela vida,
Até pousar.

A explosão da vida

por Henrique Matos

Vou ser pai. Minha esposa me fez ontem essa boa surpresa. Isso quer dizer que estamos afinal sendo presenteados com uma alegria que, admito, ainda não tem medida nesse meu coração mole.

É incrível pensar que dentro daquela barriga já existe uma pessoazinha, com menos de um centímetro, é verdade, mas com um coraçãozinho batendo. Existe uma vida ali e nada me faz duvidar de que essa explosão milagrosa não seja ação de um Deus perfeito e amoroso.

É igualmente maravilhoso – e até meio assustador – pensar que Deus confiará em nossas mãos a responsabilidade de criar um filho seu. Coisas assim que me fazem ter certeza de que a vida não é fruto do acaso, que cada ser humano é especialmente moldado em todas as suas características, que todos temos uma identidade única que nos diferencia e torna tão especiais.

Nesse instante existe um ser humano, ainda que uma coisinha sem forma, sendo moldado pelas mãos de Deus. E ele nascerá de minha esposa todo enrugado e mesmo assim vou acha-lo a coisa mais linda do mundo e já procurar algo em que tenha puxado o pai. E dormirá em um berço sob meu teto e me acordará de madrugada com um choro muito mais alto do que sua estatura mínima pode fazer acreditar. Quebrará boa parte dos cristais que preservamos por anos num móvel da sala e nos fará manter um estoque de copos de plástico mesmo para as refeições mais nobres. Me pedirá um vídeo-game de presente quando eu sonho em deixar uma coleção de livros. Me obrigará a trocar o canal da TV no meio de um decisivo jogo do tricolor para assistir algum desenho animado ultra-moderno que eu vou criticar e lamentar dizendo que na minha infância tudo era diferente. E ele consumirá mais fraldas do que jamais pensei existir numa prateleira de supermercado, terá mais brinquedos do que julgo necessário, perderá mais roupas do que o tempo que levam para gastar, trará uma bagunça desmedida para essa minha vida tão metódica… e, meu Deus, como estou grato por isso!

Bem, talvez essa seja mais uma experiência dessas que todos precisamos passar na vida. É possível – eu creio nisso de fato – que a paternidade seja a melhor das lições de Deus para que entendamos um pouco do sentimento que ele tem, como Pai, por seus filhos. Toda expectativa, os sonhos, a imaginação que voa longe tentando saber como e quem será esse indivíduo que é parte de nós. Gosto de imaginar – e acho que ele também – que essa nova vida terá seus próprios dons, personalidade, talentos, decisões e um propósito especial a cumprir.

Não, não acho que será fácil (e ninguém disse que seria), mas sei, de todo coração, que é o que mais desejamos nessa vida e que nossa esperança está nessa fé. E é nesse momento, tentando entender quais são as expectativas de Deus para essa criança, que voltamos a ser só um par de filhos necessitados, buscamos o colo do nosso Pai e pedimos um conselho diário para que nos ajude a ser o exemplo de caráter e vida que ele espera que sejamos.

Viver essa verdade com alegria, obedecer, ser e partilhar esse amor… com certeza, a única forma de podermos ensinar isso tudo da maneira certa.

“Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Digo isso com convicção. Meus ossos não estavam escondidos de ti quando em secreto fui formado e entretecido com nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir.” (Salmo 139: 13-16).