Cenas natalinas: Inverno na Galiléia

por Luiz Henrique Matos

Belém (Vasily Polenov)

Maria observava. O menino crescia com saúde. Era inteligente, curioso e obedecia aos pais. Gostava de brincar nos quintais poeirentos do vilarejo, correndo entre seus irmãos e amigos, e às vezes se enfiava na oficina para observar o pai trabalhando que, orgulhoso, mostrava seu ofício ao filho. Ele era como qualquer criança entre as outras e era isso que a deixava angustiada.

“O que vai acontecer? Quando é que as coisas vão mudar, afinal?”

O passar dos anos nunca apagou o que lhe aconteceu, mas a construção de sua família, a rotina da vida atribulada em Nazaré cuidando dos filhos, o trabalho de José… isso tudo tomava tanto tempo que Maria chegava a passar meses sem refletir sobre o assunto.

Ela pensava em seu bebê que agora era um yeled formado, um menino alegre, com seus oito anos. E não fosse a verdade irrevogável dita por aquele anjo e o milagre que lhe sobreveio depois daquele dia, Maria julgaria que sua vida seguia o caminhar natural das coisas, tal como seria se nada tivesse sucedido.

Mas era só o inverno apontar e o velho pensamento a inquietava.

Era o chegar do vento seco, dos dias gelados e curtos, as lamparinas acesas sobre a mesa e a lenha estalando no fogo para que a casa pudesse aquecer um pouco. Os anos passavam fugazes, mas a cada novo inverno em Nazaré, a lembrança daquela noite lhe vinha à mente como um lampejo.

Cada momento da viagem a Belém eram nítidos para Maria e ela reconstruía a história de sua gestação em cada detalhe. A noite fria de inverno rigoroso, as hospedarias abarrotadas e sem quarto para a família, a estrebaria, as dores do parto, José ao seu lado lhe soprando a face, o choro da criança rasgando o silêncio da noite, a sensação indescritível de dar vida a um ser humano, os anjos louvando nos céus, o Deus vivo sendo acalmado pelo seu leite. A família reunida, a vida em sua plenitude, a promessa cumprida e descansando numa manjedoura. Glória, sono e o amor mais puro transbordando em seu coração.

* * *

“Mãe, está chegando a hora.”

Os anos passaram. O menino cresceu. Maria observava pela porta, apoiada com a mão espalmada sobre as ancas. Cansada. Viúva, pobre, fazia o possível para sobreviver, assim como grande parte da vizinhança. Os filhos todos crescendo e se aprumando, em pouco tempo estaria sozinha. Às vezes se pegava pensando em como as coisas seriam daqui a pouco.

Seu menino vinha do quintal em silêncio. Ele podia não dizer nada, mas pelos passos ela reconhecia cada um. Era assustador notar como o tempo passou rápido e estranho pensar que as crianças que brincavam por ali, agora já eram adultos.

Aos trinta anos, Jesus já estava na idade em que um homem deixa os pais e forma sua família.

“Mas não, ele não. O filho de Deus precisa cumprir sua missão. Ele estudou, era prodígio na Lei, seria Rabi por entre esse povo e querido por todos. Seria o profeta, o Deus vivo… Mas, o que dirão dele? Como o Messias pode ser o filho dessa viúva pobre e ignorante? Como será? Ah, querido, pode não ser fácil! Eu queria poder estar com você e te ajudar. O que o espera lá fora? Certamente o Poderoso guiará os seus passos, mas pudera eu fazer-te sandálias mais confortáveis… Agora, chegou a hora e eu só penso em como meu filho poderá ser profeta em Israel se tudo o que lhe ensinamos foi a disciplina da obediência, o temor a Deus e o ofício do pai? Ah, Deus, não me deixe ter errado em nada!”

Era inverno, já no começo. A noite se afundava fria, a luz do fogo aceso refletia no seu rosto e a imagem da estrebaria ainda era viva em sua mente.

Na companhia do filho mais velho, ela ainda tentava disfarçar. Enquanto o pensamento vagava, os olhos fitavam seu menino, de ombro apoiado na porta, banho recém tomado, um cálice nas mãos, o sorriso fácil estampado no rosto e os olhos vivos – ele não podia esconder o brilho – cheios de expectativa pelos dias que viriam.

Maria se admirava. Seu coração inquieto e cheio de dúvidas era sempre inundado pelo regozijo da promessa divina que se cumpria sob o teto de sua casa. “Foi para isso que ele nasceu!”. E nessas horas, o velho cântico dos anjos lhe saltava pelos lábios.

“Hosana! Hosana! Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade! Hosana!”

Jesus ria da mãe cantarolando.

“Vá, meu yeled, vá! Eu farei uma prece a cada instante. Que a paz reine através de você.”

Esse texto faz parte da série “Cenas natalinas”

1. O filho
2. Noite em Belém
3. Antes e depois

Pra quê?

por Luiz Henrique Matos

Sabe, acho que a competição toda já passou do ponto para mim.

É que chega um hora em que as pessoas ao redor começam a te observar e cobrar um “próximo passo”. Nessa altura do jogo, já não basta sua capacidade, talento e empenho para que o mérito lhe seja outorgado, agora é preciso vencer, é hora de arregaçar as mangas e partir para a luta. Como se a vida fosse um campo de batalha e nós, combatentes ambiciosos.

Desculpe, mas eu não quero. Peço perdão também pela imaturidade dessas palavras, mas às vezes a infantilidade ergue a voz petulante. Pensando bem, eu nem diria que é infantil, isso tudo é coisa de adolescente, que acredita ter a razão no bolso do shorts e o direito de se expressar e reivindicar sua… sua… bem, adolescentes só querem ter o direito de alguma coisa, não importa exatamente o que seja.

E eu tenho muito disso, admito. Eu quero ter o direito de não precisar provar minhas habilidades a todo instante – até porque, é fato, não sou hábil em muitas coisas, muito menos a cada instante.

Quero viver. Quero amar, estar, crer, ser. Simplesmente ser.

Quero desfrutar a boa vida ao lado da mulher que amo, dos meus filhos, da família, dos amigos, em Deus.

E quero ter o direito de estar errado sem que isso me pese como condenação.

Quero parar de competir, porque acho que não vale a pena e, no fim das contas, isso não é vitória coisa nenhuma.

Eu quero acreditar – e tenho esse direito – que ao invés de me estapear com alguém para ocupar o lugar mais alto, posso lhe estender a mão, chamá-lo de irmão e finalmente estarmos, todos, na posição mais nobre.

Jesus disse: “do que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”.

Quando crescer, eu quero é ganhar a vida.

Transportando tesouros e atropelando cachorros – os heróis da vida pequena

por Luiz Henrique Matos

Atropelei um cachorro na estrada. Foi tudo tão rápido, estava escuro, ele correu para o meio da pista e parou diante do carro, uns cinco metros à frente. Eu nem consegui pisar no freio. Lembro do olhar estático do pobre animal paralisado pela luz alta do farol e em seguida o impacto seco no pára-choque. Vi, depois, a sombra escura e morta no asfalto pelo retrovisor, cada vez mais distante, pequena, até sumir. Sem nada que pudesse fazer, chorei e segui viagem.

Voltávamos do interior do estado, onde visitamos alguns familiares e eu dirigia por uma estrada paralela enquanto as duas dormiam no banco de trás.

E pensando no momento que acabava de viver, me preocupei com algo mais que pudesse nos acontecer. Viajamos por essas estradas tantas vezes e, é bem verdade, não tenho noção real dos riscos que corremos. Olhei de relance para as duas, mãe e filha, que dormiam desconfortáveis e temi pela responsabilidade de levá-las para casa em segurança.

Eu carregava um tesouro precioso. Confiadas à minha direção, estavam as coisas mais importantes que tenho nessa terra e, bem, eu peno em admitir, mas não sou dos melhores motoristas que conheço – e isso já é um auto-elogio – o que torna o desafio um tanto maior.

Exagerando outra vez nas analogias, eu me sinto como um daqueles guerreiros de histórias épicas que saem em cruzadas pela terra com a missão de transportar algum tesouro precioso para o rei. Levam consigo uma carta de recomendação, viajam em nome da coroa e estão dispostos a abrir mão da própria vida em favor de algo que não lhes pertence mas pelo qual, não se sabe a razão, são apaixonados.

Mas, peno em dizer, eu não sou um guerreiro habilidoso. Não manejo bem uma espada, não sei montar cavalos e meu reflexo não é apurado. O fato é que às vezes eu falho nessa missão. Piso feio na bola. Deixo cair, desprotejo, penso mais em mim mesmo do que nelas. Mas, apesar de minhas limitações, a carta do rei sempre me faz lembrar a que vim. Seu olhar não me deixa esquecer que são suas filhas que estão sob minha responsabilidade.

Não, não pense que isso é um desabafo arrependido. Pelo justo contrário, eis aqui meu voto de fidelidade, minha alegria, o reconhecimento, afinal, do que entendo por realização.

Descobri que longe de ser um fardo, essa missão consiste em minha grande alegria. E não é que a minha visão seja limitada ou que me falte ambição, eu só notei que tenho em casa o tesouro mais nobre que jamais poderia sonhar conquistar. E empenhar a própria vida em favor desse prêmio, talvez seja o mais heróico dos gestos que poderei ostentar.

O herói da vida pequena. A refeição em casa. As férias em família. O tempo juntos sentados no sofá da sala vendo o mesmo desenho pela trigésima vez. As brincadeiras simples na rua. O cineminha com pipoca de sexta à noite com a eterna namorada. Deus, a família, os amigos. As melhores coisas da vida não nos custam sequer um centavo.

Que feito pode ser mais nobre do que dar vida a um ser humano, guiar seus primeiros passos e conduzi-lo em sua existência para que um dia seja alguém melhor do que eu jamais sonhei ser? O que pode ser melhor do que amar uma linda mulher e empenhar a vida em protegê-la, sustentá-la e lhe ser fiel? Que massagem no ego pode ser melhor do que descobrir que duas lindas garotas te acham o cara mais bonito, forte e bacana do planeta, apesar da barriga proeminente, da barba por fazer e da toalha molhada largada sobre a cama (tá bom, eu admito que exagerei no bonito, forte e bacana)? Que honra maior em ver multiplicar o fruto desse amor (leia-se netos) e acompanhá-los crescendo saudáveis, santos, unidos e correndo pelo quintal da nossa casa?

Bom, parece simples, mas não é simplório. Parece pouco nobre, talvez porque seja tão comum a todos. Parece não dar nenhuma fama e reconhecimento público, e realmente não dá mesmo. Mas eu acredito sinceramente que nada pode fazer um homem mais feliz.

Penso nisso tudo agora, seguindo de volta pra casa, para que um dia eu não precise ver as coisas importantes que deixei para trás. Para que a vida que eu sempre quis não seja atropelada pelas escolhas erradas que fiz, como uma sombra na escuridão, pequena e distante no retrovisor.

Eu sigo viagem. Eu, meu cavalo, a carta do Rei me incumbindo da nobre tarefa de ser pai e um tesouro incalculável em meus braços. Sim, essa é a grande missão do guerreiro. Habilidoso ou não, sigo satisfeito em saber que já carrego comigo o grande prêmio da vida.

Essa crônica faz parte da série “Paternidade”:

1. A explosão da vida
2. Versos infantis dessa minha felicidade
3. As grandes conquistas do homem
4. As cegonhas não existem
5. O amor, um calção e gestos primitivos (cinco minutos antes de minha vida mudar)
6. Colos, cólicas, chavões e uma crônica de continuação
7. Na falta do que dizer
8. Pequenas lições
9. Doentes curando doentes
10. Primeiros passos
11. Sobre a velhice, rotinas e prioridades
12. Música para os meus ouvidos
13. E o futuro, a quem pertence?
14. Versos infantis 2 – alegria, tristeza e distração
15. De mãos dadas
16. Sobre ser pai no Dia dos Pais
17. A doce presença

O centurião

por Luiz Henrique Matos

Cafarnaum, Galiléia – Ele sabia que aquilo soaria absurdo, mas já não tinha alternativas. Estava em jogo sua reputação, seu nome, a posição na hierarquia do exército romano. Mas a força de seus sentimentos era maior do que o orgulho e o patriotismo. Seu empregado mais estimado estava à beira da morte e aquele a quem tantos chamavam de Messias vinha passando pela cidade. Constrangido, clamou pelo favor de seus amigos judeus. Eles não haveriam de lhe negar o pedido, sabiam de sua compaixão por seus valores e sua crença. Os homens atenderam, foram ao encontro de Jesus e insistentemente lhe pediram para que fosse até a casa do centurião e curasse seu servo, prestes a morrer. Jesus se compadeceu e atendeu sua súplica. O homem, em sua casa, angustiava-se: “O que eu fiz? O que eu fiz? Quem sou eu para pedir ao Filho de Deus para que cure meu servo?”. O mestre ainda caminhava em direção à residência do centurião quando outros amigos lhe vieram ao encontro. Traziam um recado: “Senhor, não te incomodes, pois não mereço receber-te debaixo do meu teto. Por isso, nem me considerei digno de ir ao teu encontro. Mas dize uma palavra, e o meu servo será curado”. Jesus parou, refletiu, admirou-se: “Nem em Israel encontrei tamanha fé!”. O centurião, um estrangeiro, que não era judeu e tão pouco membro daquele sistema de crenças, em seu desespero, em sua compaixão pela dor de seu empregado, ele entendeu a verdade sobre Deus, intercessão, fé e humildade. Era um homem justo, de bom coração e isso era o que importava. Quando os amigos voltaram para casa, o servo estava restabelecido.

(Lucas 7:1-10)

Jesus não tinha inimigos

por Luiz Henrique Matos

Quando ensinava nas sinagogas, pelos caminhos, pelas cidades ou à beira do mar, eles estavam ali. Sempre presentes, contrastavam com a multidão sedenta e admirada. Assistindo inconformados às manifestações e milagres, punham-se aqueles homens de roupas impecáveis, postura superior e a expressão fria da condenação nos olhos.

Eles o odiavam. Queriam entender as motivações por trás de tudo aquilo e revelar sua farsa. Queriam pegá-lo desprevenido, ter um motivo para expor sua fraqueza e a mentira de seu discurso. Mas nunca conseguiram.

Mas ele não, ele não os via como adversários. Jesus não tinha inimigos. Fariseus, escribas e sacerdotes não eram pedras em suas sandálias, atrapalhando a caminhada. Ao contrário, eles também eram o alvo de sua mensagem. Jesus os via como filhos que teimavam em não reconhecer suas próprias limitações.

Ele os conhecia, sabia quem eram, compreendia que seus corações estavam repletos de indagações a seu respeito. Eram como os tantos outros que o seguiam, mas ao ouvir sobre a graça, a esperança e o amor de Cristo, não podiam acreditar naquilo como verdade. Não era possível, isso contrariava toda a história e a base de suas crenças.

Jesus viveu por eles também. Ele sabia que não o aceitariam, mas ainda assim, ele os amou e consagrou-se por aqueles homens.

Envoltos pela superficialidade de seus cargos e posições, eles queriam calar-lhe a voz para que o “falso messias” não atrapalhasse seus costumes e tradições. Aquele Jesus, um incendiário social, precisava parar com seus milagres e o discurso que lhes tirava o domínio sobre o povo.

Eles o perseguiam. Eles o odiavam. Eles queriam entender. Tinham dúvidas. Tinham medo. Eles queriam matá-lo… Ele queria morrer por eles.

Eles desejavam tirar-lhe a vida, mas Jesus sonhava levá-los a viver uma nova vida ao seu lado.

E assim se cumpriu.

Na cruz, Jesus morreu pela humanidade toda. E ele morreu pelos fariseus que tramaram sua prisão, pelos sacerdotes judeus que lhe cuspiram no rosto, pelos guardas que o açoitaram, pela multidão que ainda há pouco o seguia fervorosa, mas que agora, com o mesmo fervor, o condenava aos brados: “crucifica!”.

E ainda ali, inabalável, ele amou.

“Porque Deus amou o mundo…” (João 3:16).

Amou porque essa era a sua condição, porque esse é o seu olhar pelos homens, esse era o presságio da história que ele já conhecia. Pendurado numa cruz, sangrando e ofegante, Deus não se ofendeu com os que lhe impuseram essa dor.

Não podemos saber o que lhe passou à mente. Nunca compreenderemos como é possível que isso tenha acontecido. Jamais seremos capazes de entregar nosso filho para morrer no lugar de pessoas que o perseguiram. Mas ao olhar seu gesto, pelo lampejo da história, pelo fato consumado, sabemos que esse amor nos comprou e que Deus, o próprio Criador, nos adotou como filhos.

Porque Deus não tem inimigos entre os homens. Ele não entra no campo de batalha para guerrear com sua criação. O Pai não olha nossas vestes, não se importa com nossa posição social ou opinião a seu respeito, porque isso não é condição para seu amor paterno e eterno. Nós somos o alvo do seu sacrifício.

“Deus nos amou primeiro.” (1 João 4:19).

Jesus ama os fariseus, os políticos, os ladrões, os ateus, as prostitutas, os publicanos, os pecadores, os discípulos, os traidores. Ele ama até os cristãos.

Deus não se importa com o que somos, ele se importa com quem somos. Ele não quer saber como estamos, ele quer que estejamos nele, guardados em seus braços, remidos por seu amor, lavados em sua pureza, atentos à sua voz, felizes, juntos, em Deus.

Nunca o entenderemos, não conseguimos racionalizar seu gesto, não sabemos como retribuir. Por isso, nos prostramos e adoramos.

“Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele.” (1 João 4:16).

Julgando um livro pela capa (e pessoas por sua opção religiosa)

por Luiz Henrique Matos

Um dos meus passeios preferidos é freqüentar livrarias. A Manú, minha mulher, é quem sofre com esse hábito. Não importa onde estejamos, andando pela rua, passeando num shopping ou viajando, se eu vejo uma livraria, invariavelmente paro e gasto um tempo folheando, lendo as orelhas e levando algum exemplar na bagagem (se vou ler ou não, aí já é outro papo).

Mas, não bastasse, o hábito traz consigo um defeito: decido se vou comprar ou não um livro olhando para a capa. No fim das contas, contrario o velho ditado e a capa é o critério de desempate entre levar um ou outro.

Isso é terrível. Penso que essa é a razão de ainda não ter lido as “Confissões” de Santo Agostinho ou “Sobre a brevidade da vida” de Sêneca, que impressos naquelas capas duras, escuras e mal diagramados pela editora, ficam relegados à eterna possível próxima leitura na minha prateleira. Um pecado.

Mas o pior não pára por aí (bem, esse é um texto bastante previsível, imagino. Eu não gastaria o seu tempo falando sobre capas de livros). A coisa feia mesmo é que eu também classifico as pessoas pelos rótulos que estampam. E acho que sei muito sobre elas e sobre sua “qualidade”, apenas pelo julgamento pessoal.

Nosso mundo, cada vez mais, se fundamenta na divulgação e no consumo de informações superficiais. Já não lemos as notícias, apenas as manchetes e os resumos dos jornais. E somamos a isso a conversa na hora do café, a opinião do cobrador de ônibus e a sabedoria do vizinho que conhece a vida alheia como ninguém. Tudo isso misturado de qualquer jeito e, pronto, opinião formada. Somos influenciáveis. Nossas verdades são muito relativas. E, em grande parte, nossas crenças são baseadas no senso comum do que a maioria concorda como sendo certo ou errado.

Mas, bem, esse defeito tem um nome feio à altura: preconceito. Muito menos grave com os livros do que com pessoas. E o perigo maior do preconceito (ou talvez a sua causa primária) é a generalização. É, no fim das contas, a forma como esse julgamento molda minhas escolhas, opções de vida e a forma como trato meu próximo. Tomo como comparação o passado, os gestos semelhantes de outros que também erraram e, com base nisso, me acho no direito de julgar e condenar alguém. Isso me dá um medo danado de mim mesmo.

E para ficar só no campo das opções religiosas, tomo como base o noticiário da última semana. Eu assisto ao Jornal Nacional e, só por ele, já me sinto no direito de apontar o dedo para a barriga do vizinho que ficou à mostra. Ah, não, esse vizinho não é o fofoqueiro de dois parágrafos acima, esse é o outro, o evangélico com quem tomo o elevador pela manhã, cuja aparência e excesso de simpatia deixam bem claros, para mim, o coitado que é. Bem, não tão coitado assim, penso em seguida, até porque é voluntária a sua escolha em freqüentar um lugar que lhe toma duas noites da semana com seus cultos e lhe garfa 10% do seu salário – dinheiro esse que certamente vai para o bolso do pastor e vira, dali um tempo, uma gravata de seda, um carro zero quilômetro ou sei lá, um jatinho (tem tantos pastores querendo comprar jatinhos ultimamente). Pastor esse, que deve ser um desses caras sem formação acadêmica que, não sabendo mais o que fazer da vida e com boa lábia, se viu entre um emprego vendendo filtros Europa ou a chance de “vencer na vida” tirando dinheiro de gente como o meu vizinho.

E então, depois do meu raciocínio genial, eu penso por não mais do que um minuto: “é, parece fazer sentido… provavelmente é isso mesmo… puxa, é claro que é isso!” E amanhã, quando encontrar o vizinho fofoqueiro no corredor (esse também devidamente rotulado), vou ter assunto para falar do caso dos pastores que roubam dinheiro por aí e citar o exemplo do vizinho evangélico, um coitado, que deve estar alimentando esse tipo de gente corrupta.

Opa, mas peraí, eu sou evangélico!

E, perdido num instante de consciência – porque, afinal, tenho para mim que não sou um “coitado” manipulado –, fico achando que tal como odiaria ser visto da forma com que julgo minha companhia de elevador, talvez não faça sentido eu ficar olhando para as pessoas a partir das suas aparências.

Volto o pensamento para a mensagem essencial do livro que digo ser minha base de vida (e do vizinho também) e lembro-me de algo tão simples como “ame seu próximo como a si mesmo e a Deus acima de todas as coisas” ser o resumo de tudo o que recheia aquele exemplar de capa escura, letras miúdas, mais de mil páginas e nenhuma, nenhuma figurinha!

E eu bato na testa tentando firmar uma verdade para mim mesmo: “amor, Henrique, amor! O seu Deus é amor”. E faço uma regrinha para pregar na porta da geladeira, repetir diariamente e nunca mais cair no mesmo erro:

Nem todo pastor evangélico é desonesto.
Nem todo padre é pedófilo.
Nem todo pai-de-santo é safado.
Nem todo rabino é avarento.
Nem todo muçulmano é terrorista.
Nem todo ateu é insensível.
Nem toda pessoa que tem uma opção religiosa é intelectualmente inferior.

Aproveito ainda esse instante para anotar que eu preciso lembrar que somos todos iguais, que todas as pessoas foram criadas por Deus e moldadas à sua imagem e semelhança. E não, também não posso esquecer que Deus não é religioso, não é católico, evangélico, espírita ou hindu (mas não se animem todos porque ateu, seguramente, ele não é).

E, como iguais, meus vizinhos e eu temos os mesmos direitos (de sermos respeitados por nossas escolhas) e deveres (de respeitar o direito alheio). Talvez, se não cruzássemos essa linha, viveríamos em harmonia e até, quem sabe, a relação entre nós iria além do superficial “bom dia” trocado no elevador e descobriríamos, no fim das contas, que alugamos o mesmo tipo de filme na locadora, que temos a mesma profissão, que nossas crianças brincam juntas no parquinho, que torcemos pelo mesmo time e, porque não, lemos os mesmos livros.

Porque, afinal, para livros e pessoas, independentemente da capa que os envolve, o que tem valor é o seu interior.

“Os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.” (Mário Quintana – poeta cujos livros não li porque as capas não tinham tanto apelo. Até agora).

A doce presença

por Luiz Henrique Matos

Ela tem a capacidade sobre-humana de fazer desaparecer todo problema.

Do alto de seus 80 centímetros ela torna pequenos todos os meus grandes assombros. Sua voz fina e miúda e o olhar vivo são capazes de curar algumas dores.

Estou deitado no sofá-cama do quarto de hóspedes aqui de casa. Quer dizer, era pra ser um quarto de hóspedes, mas as caixas amontoadas, livros e revistas pelos cantos dão conta da bagunça. Mudamos recentemente e, como em toda mudança, algumas coisas ainda precisam de ajustes. O que deveria ser um quarto, por razões evidentes, ainda não é.

Eu também. Deveria ser uma coisa, seguindo um plano bem arquitetado, mas a bagunça e ausência – ou excesso – de certos valores me descaracterizam. Deitei-me e calei. Quieto. Não é um dia bom.

De repente ela aparece na porta. Pára, olha, sorri e entra correndo (ela corre o tempo todo, saltita, mesmo quando quer ser sorrateira). Observo. E esqueço de tudo por um instante e desfruto o momento de cumplicidade, sem que nada precise ser dito. Nessa hora, ela, assim como eu, não exigimos nada um do outro. Simplesmente nos acomodamos em paz. E o estar é suficiente.

Algo nela me faz perceber quão pequeno eu sou tantas vezes.

E como era antes? Como era a vida sem ela? Já nem sei mais. Sei que toda a existência ganhou um sentido especial, único e enobrecedor com um bebê habitando nossa casa. Mas, peraí, mas não era ela quem deveria depender de mim?

Às vezes eu me pergunto o porquê dessa relação. Qual a razão desse amor? Entenda, esse não é o tipo de amor que se escolhe, ele é instintivo. Filhos não são o tipo de gente que você vá conseguir moldar para incluir no seu padrão de preferências. Eles simplesmente chegam, se impõem em nossas vida e tomam um espaço maior do que poderíamos imaginar que eles deveriam ocupar. E nós os amamos incondicionalmente, sem achar que nos devem alguma coisa por isso (mesmo pensando no valor absurdo da parcela da escola e naqueles brinquedinhos do Mcdonalds que são descartados na mesma tarde).

Tenho repetido de maneira até cansativa que ser pai tem me ajudado a ser um filho melhor para Deus. Bem, eu não diria melhor, mas talvez um pouco mais consciente do sentimento dele e de suas decisões ao longo da história – dentro, é claro, das minhas limitações.

Mas, observar esse relacionamento, me faz pensar nas razões que motivaram o Deus Altíssimo, o Todo Poderoso, o Senhor do Universo – e todas esses substantivos e atributos que escrevemos em letras maiúsculas em sinal de respeito e reverência – a criar o homem, esse ser tão fraco, confuso, falível e imperfeito.

Eu sei o quanto erro na maioria das minhas escolhas, reflito sobre minhas dúvidas e também sobre o quanto ele tem todas as respostas e fico pensando: porquê eu? Porque ele decidiu me amar? Porque ele se faz pequeno e restrito para que possamos compreendê-lo e não se irrita pelo fato de usarmos essa condição para questioná-lo e restringi-lo à nossa pequenez? Porque criamos religiões e costumes formais quando ele só queria que estivéssemos por perto, ao alcance de seu cuidado?

Bem, minhas questões existencialistas não passam pelo meu relacionamento com a Nina e eu sei bem que esse texto já tomou um rumo pouco agradável. Mas no fim, o que estou tentando compreender e expor é que Deus, podendo criar qualquer coisa que desejasse, concebeu o homem e, em nós, escolheu imprimir sua imagem e semelhança. Nos deu um espírito, nos fez conscientes de nossos atos, pôs um coração pulsante de vida e sentimento em nosso peito.

Eu sei que jamais entenderei suas razões, mas sou grato em pensar que ele nos fez para acabar com a solidão e o vazio do mundo. Fico feliz e um tanto intrigado ao pensar que é possível que Deus não quisesse estar só ou não sentisse que simplesmente ser Deus fosse suficiente para si e desejou criar-nos para extravasar esse amor, para que pudéssemos entender a essência do que ele é quando sentíssemos uma parcela do que ele sente.

Talvez as coisas sejam mais simples do que pensamos. Geralmente são.

Deus é amor. E quando amamos, nós o entendemos. Quando amamos plenamente, nele estamos. E é esse amor absurdo, que não se explica, não se escolhe, que chega e se impõe, que ocupa um lugar no peito sem que possamos determinar sua parcela. É como a minha própria criação invadindo meu quarto bagunçado, acabando com o silêncio e a solidão. É como o fruto do meu amor, me olhando nos olhos, trazendo alegria para esse dia cinzento, tendo em si a capacidade sobrenatural de acabar com tristeza…

É um filho desinteressado entregando-se nos braços do pai.

Leia também:
De mãos dadas

Versos infantis 2 – Alegria, tristeza e distração

Cochilando nas tempestades

por Luiz Henrique Matos
(Tópico de reflexão para o grupo pequeno em 1/4/9)

“Certo dia Jesus disse aos seus discípulos: ‘Vamos para o outro lado do lago’. Eles entraram num barco e partiram. Enquanto navegavam, ele adormeceu. Abateu-se sobre o lago um forte vendaval, de modo que o barco estava sendo inundado, e eles corriam grande perigo. Os discípulos foram acordá-lo, clamando: ‘Mestre, Mestre, vamos morrer!’ Ele se levantou e repreendeu o vento e a violência das águas; tudo se acalmou e ficou tranqüilo. ‘Onde está a sua fé?’, perguntou ele aos seus discípulos. Amedrontados e admirados, eles perguntaram uns aos outros: ‘Quem é este que até aos ventos e às águas dá ordens, e eles lhe obedecem?’” (Lucas 8:22-25).

No meio da tempestade, Jesus cochilava. Em meio ao desespero, o medo da morte, na violência do vendaval, Jesus pergunta serenamente: “onde está a sua fé?”

No trajeto da vida, as tempestades sempre existirão. O que precisamos saber é que, seja qual for a circunstância, podemos confiar naquele que “aos ventos e às águas dá ordens, e eles lhe obedecem”.

Sem perder a reverência

por Luiz Henrique Matos

Pedro o olhava e via o amigo com quem tantas vezes repartiu a manta durante as vigílias e viagens pelas madrugadas. Maria o olhava e via o filho a quem educou, alimentou e repreendeu quando seguia distraído brincando pelo vilarejo. João Batista o olhava e via o primo, companheiro de jogos durante sua infância.

E todos o chamavam Senhor e Cristo.

Era Deus. E era um homem tão cativante e próximo que a relação com ele chegava a ser ambígua. De Pedro que o negou, na dúvida sobre sua postura de submissão diante da morte iminente. Maria que lhe pediu favores acreditando inocentemente na sua autoridade de mãe. E João, que estando preso, pediu que lhe perguntassem se era ele mesmo o Messias.

Mas ao olhar em seus olhos, ao ouvir seu ensino, sentir seu toque… em sua presença ninguém fica indiferente. Diante do Deus vivo é impossível não ser reverente, cair de joelhos e o amar sem saber de onde ou porquê. Não há como não ser revirado pelo sagrado, o divino, o poder absoluto, o soberano, a verdade, a sabedoria, o amor. Deus em sua essência. E adorá-lo.

É consolador saber que ele está sempre tão perto. Um pai presente e carinhoso, um amigo fiel, uma voz de alento que nos dirige os passos. Mas em meio à descoberta do amor e da graça, não podemos perder de vista que ele é Senhor.

É nessa hora que, mesmo sabendo que Deus deseja um abraço de seu filho pródigo, a única reação possível é prostrar-se diante daquele que é, do Deus vivo e render-se a esse seu amor absurdo. Ele é Deus.

“Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai.” (Filipenses 2:9-11).

De mãos dadas

por Luiz Henrique Matos

De mãos dadas

De mãos dadas

Se tem algo que eu gosto é segurar a sua mão. Não importa a ocasião, ao atravessar a rua, sentados nos sofá, ajudando a fazer força enquanto ela usa o banheiro ou simplesmente para dirigi-la em alguma situação. Aquela mãozinha envolvida na minha me ajuda a ter a dimensão da sua dependência – e o meu desejo de sempre garantir que ela saiba disso. Os dedos finos, a pele delicada, a palma da mão morna e úmida de suor, a minha certeza de ter o que é meu por herança.

Por uma mão ela arrasta uma boneca, um copo de leite, um lápis de cor com a ponta gasta. Por outra ela se arrasta, segue cegamente os passos daquele em quem confia e lhe dirigirá os passos.

Não preciso dizer que ela tem crescido mais rápido do que eu gostaria. Daqui a pouco ela será maior do que eu, mais inteligente, independente e, apesar de mais magra – isso não é nada difícil dado o meu último indicador na balança da farmácia – eu já não conseguirei carregá-la no colo.Mas não importa o quanto ela cresça, acho que sempre terei a sensação de que sua mão cabe dentro da minha e que, desse jeito, continuarei sendo o “papá” a quem ela recorre quando precisa de algo, quando deseja brincar, quando quer descansar.

Gosto de não precisar ouvi-la dizer nada e apenas erguer os braços com a mão espalmada tendo a certeza de que eu retribuirei. Gosto de sentir os dedinhos se entrelaçando aos meus, me dando a sensação tátil do mesmo sangue que somos. Não gosto de vê-la com medo, chorando, mas corro e me precipito em segurá-la, mãos erguidas em minha direção, para que saiba que sempre, sempre estarei ali para ampará-la. Faço tudo para estar.

Imaginar minha cria sozinha, abandonada à sorte, provas e desafios que esse mundo descarrega sobre nós não é dos sentimentos mais agradáveis. Chego a pensar que gostaria de tê-la nos braços o tempo todo. Mas sei que não é possível e, por hora, imagino também que não é o mais apropriado. Ela precisa viver, vai precisar aprender, vai ter que se virar sozinha. O coração debate com a razão e preciso aprender, eu, que o melhor a ser feito é o que é melhor pra ela. Dura realidade.

Ela já toma algumas decisões sozinha. Já fala por si. Ela já sabe andar em alguns lugares que antes lhe pareciam difíceis. Agora ela pedala o velotrol e já não depende de mim para empurrá-la. Eu estufo peito, coruja, ela tem aprendido coisas comigo – e eu ainda não me toquei que “velotrol” é uma palavra que morreu na minha infância e muito provavelmente ela nunca usará na vida!

Mas ainda tenho coisas a ensinar e minha alegria é estar com ela para isso. Caminhando de mãos dadas, fico feliz em poder andar devagar, no seu ritmo e limitações, para lhe mostrar o caminho que eu vejo à frente. Falo da forma mais simples possível para garantir que ela me entenda. Conto histórias e imagino coisas para que o conhecimento lhe seja algo claro.

Quero percorrer ao seu lado as trilhas que já conheço. Quero que sua infância seja recheada das brincadeiras, da ingenuidade e da inocência que eu acho que teve a minha. Quero que saiba que ao contrario do que argumenta um dos seus tios, torcer para o São Paulo é definitivamente uma boa escolha. Quero que ela conheça o Deus amoroso que eu conheço e o ame mais do que eu. Quero aprender tabuada, logaritmos, pi, raiz quadrada e alguma coisa de física – que nunca me entraram na mente – para poder ajudá-la a estudar nas provas do colégio. Quero, a contragosto e sem a mínima pressa (fique isso bem claro e documentado), poder conduzi-la até o altar ao encontro do homem de sua vida e que se realizem, que descubram juntos o amor e a razão do que os dois nasceram para ser: um. Quero repartir minhas experiências e aprendizados para poupar-lhe esforço e sofrimento, mesmo sabendo que, assim como eu fiz um dia, ela vai me achar um tolo antiquado e ignorar a maioria desses conselhos – e eu não me sentirei vingado quando, depois de se dar conta, ela falar que eu tinha razão. Quero mesmo que ela tenha mais razão do que eu, porque isso também mostrará que foi mais longe do que o pai.

E só quero ainda, assim de forma egoísta mesmo, que ela saiba de tudo isso e quando afinal descobrir que não sou tão grande, forte, inteligente quanto pensou a vida toda e então souber que o herói de sua infância é um pobre homem falível e cheio de pecados, que ainda assim se sinta orgulhosa em me chamar de pai. E que eu estarei sempre ali.

É irônico, talvez, saber que um filho não conhece a fraqueza de seu pai até que os anos passem e finalmente os corações se encarem e tudo venha a tona.

É irônico, certamente, depois de alguns anos de convivência mais íntima, saber que o meu Pai, o Deus da minha vida, perfeito e soberano, tem justamente no amor a sua fraqueza. E sensibilizado pelos corações quebrantados, pelas atitudes rebeldes, pelo choro desesperado, pela rendição cega e confiante dos filhos, ele se move, ele se rende, se entrega, encarna, perdoa, carrega, refaz. Ele estende a mão.

O Deus amor é Pai.

E, bem, talvez ele não seja são-paulino, talvez nunca me explique pra que raios servem os logaritmos, talvez tenha me deixado só por um tempo para eu aprender a andar sozinho. Mas, quando estendo minha mão espalmada, morna e úmida de suor para o alto e diante dele estou… arrependido, dependente, grato, resignado, com medo ou simplesmente estou, posso sentir a sua mão, forte e também delicada, e os dedos entrelaçados aos meus me dando a segurança de sua presença e a afirmação eterna de que sou filho, fruto do seu sangue.

Cenas natalinas: Antes e depois

Por Luiz Henrique Matos

“No frio, no escuro, entre os montes pregueados de Belém, o Deus que não conhece nem antes nem depois adentrou o tempo e o espaço. Aquele que desconhece quaisquer fronteiras deixou-se restringir por elas: o chocante confinamento à pele de um bebê, as atemorizantes limitações da mortalidade. ‘Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação’, diria posteriormente um apóstolo; ‘Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.’ Mas as poucas testemunhas oculares não viram nada disso. Elas viram uma criança lutando para fazer funcionar pulmões que nunca tinham sido usados.” (Philip Yancey, “Descobrindo Deus nos lugares mais inesperados”)

Um ano já havia se passado e eles mal se deram conta disso. Foi tudo absurdamente tão depressa que o tempo parecia ter consumido e embaralhado os fatos. Naquela noite fria, o casal acolhia-se em sua casa, nos fundos da carpintaria e, em família – sim, agora eram uma família completa e essa era sua maior satisfação – se preparavam para mais uma temporada do duro inverno da Galiléia.

Sim, era aquela uma data de festa para o bom José e sua Maria. Deus tem cuidado de nós, ele dizia. Mas nenhum dos dois podia evitar o olhar curioso e contemplativo ao sondar o pequeno Jesus crescendo em sua casa.

Foi um ano bom, pensou José enquanto se levantava para recolher qualquer coisa sobre a mesa e observava sua mulher amamentando a criança. Mas ele se dava conta do que se passava a sua volta e se preocupava. O homem, transparente que era em suas expressões, não conseguia esconder o peso da dificuldade que era sustentar sua casa no pequeno povoado em que viviam. E tinha medo. O medo de todo pai em trazer o bom sustento para o lar, em prover sempre o melhor. E o medo único do servo, o judeu que não aprendera de seus mestres como é, afinal, que se cria o filho de Deus.

Dará tudo certo, José, tenha paz homem. A pequena Maria sempre o acalmava. Ele admirava sua confiança. Que mulher incrível. Mas… Senhor, como será daqui dez ou vinte anos? Como sucederá essa história?

Jesus crescia bem. Era um bebê cercado de amor e cuidado. Às vésperas de seu aniversário, já ensaiava os primeiros e trôpegos passos, já balbuciava as expressões fundamentais: ma-mãe… papa… Aba!

E naquela noite, se passava um ano da viagem a Belém e o pernoite na estrebaria, um ano que brilhou no céu a estrela, um ano que José recebera um filho como herança de Deus. A plenitude dos tempos. Naquela noite, a família se reconfortava em casa, sem saber ao certo a proporção e grandeza do que tinham em seu colo, sem saber que viviam o tempo e o dia que dividiria e mudaria toda a história da humanidade.

Era Natal.

O dia em que o mundo todo então iria parar para sempre, e recordar a chegada entre os homens do Messias, do Salvador, o Cordeiro Santo, Filho do Homem, amigo, o princípio e o fim, mestre, Senhor, o bom pastor, o Deus vivo entre nós, uma criança nos braços de José e Maria.

Nessa noite, em que ainda se pode ouvir o canto dos anjos ecoando nos céus: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade!”

Antes de Cristo, depois de Cristo, em Cristo.

Cenas natalinas: Noite em Belém

por Luiz Henrique Matos

Por Yeshi, pastor de ovelhas em Belém, ano 0 da era cristã:

“Era noite, como fora outras tantas daquele ano. Estávamos no campo cuidando do rebanho e o silêncio da madrugada fazia o frio parecer ainda mais duro. Às vezes o vento vinha forte, deitando o pasto, movendo os sinos de algumas ovelhas e queimando a pele do rosto. Recostados nas pedras do monte, nos revezávamos num sono superficial.

Foi então que repentinamente apareceu aquele homem subindo da parte baixa, vindo do lado oposto da cidade. Alto, branco, iluminado pela luz radiante da lua cheia e de uma estrela que brilhava absurdamente intensa. Alguns pastores ao meu lado julgaram ser um peregrino, outros um ladrão. Ele se aproximou, saudou-nos com um aceno e parou à distância de alguns metros. Confesso que temi. Então tirou o capuz, olhou-nos a cada um e em uma atitude de euforia anunciou com sotaque que até agora não consigo identificar: ‘Não tenham medo; trago-vos a notícia mais feliz e que se destina a toda a gente! Esta noite, em Belém, a cidade de David, nasceu o Salvador – sim, o Cristo, o Senhor. É assim que o reconhecerão: encontrarão a criancinha envolvida em panos e deitada numa manjedoura.’.

Corremos. Eu já nem me lembro dos instantes posteriores ao que ele disse. Do que falava, afinal, aquele homem? Era um anjo, disse um dos nossos. Subiu entre outros ao céu, entoando um cântico de louvor. Ó Deus, eu não lembro!

do pasto, depois a terra da estrada, até que chegamos à aldeia em Belém, para onde indicou que fôssemos. Ofegante, cansado, eu arfava. Pensava nas minhas ovelhas. Com quem as deixei? E se uma delas fugir? É inverno, preciso tosquiar as lãs. O que estou fazendo nessa aventura? Seguimos ao passo da noite, num ruído intenso de vozes, de sandálias pisoteando a grama.

Avistamos o local, diminuímos o passo. Pelas frestas dava para perceber a luz do fogo aceso. Pelo som discreto, pudemos perceber e chegar ao local que o homem indicara: um estábulo!

Sim, eu ouvi o que o homem havia dito, mas… seria mesmo assim? É bem verdade que nos últimos anos minha presença na sinagoga não vinha sendo muito freqüente. As noites no pasto me deixavam com muito sono e mal conseguia me concentrar nas longas rezas. Mas eu me lembro, conheço as profecias, as mais antigas tradições, a esperança de Israel e, não, o Messias viria em Glória, desceria dos céus. Que lugar é esse?!

Não havia anunciação, trombetas, anjos ou louvores. Não chegávamos a uma celebração. Não havia comida ou bebida abundante. Mas, inexplicavelmente, era possível notar que estávamos para encontrar algo especial. Em todo tempo eu me perguntava por que, afinal, eu havia corrido até ali. Mas meu coração explodia no peito. Eu nem sei o que sentia.

Então me acheguei. Então, eu vi. Por entre os animais, um homem de gestos nervosos, coçava a cabeça com fios grisalhos, limpava as mãos com as mangas arregaçadas na túnica que vestia, recolhia água num pote de barro, limpava o suor que escorria pela testa e movia-se zeloso com a mulher. Vi a mulher, uma jovem, pequena, deitada num leito improvisado, exausta, o rosto inchado, os fios de cabelo soltos e embaraçados, o pescoço erguido com o olhar embriagado e inquieto tentando enxergar algo ao redor, a criança. Vi, sim, eu vi uma manjedoura coberta com alguns panos.

Meus sentimentos se confundiam, o estômago parecia revirar. Subia pela garganta um nó que me fazia respirar e soprar o vapor branco da noite fria. E eu sentia calor e calafrios, euforia e medo, esperança e dúvida, decepção e amor. Amor?

Ali, deitado, inocente, os movimentos curtos, frágil, o ruído de choro, um bebê… o Salvador, o Cristo, o Senhor. Nasceu então. Veio ao mundo! Veio? O Bom Pastor, o Cordeiro Santo. Era Deus? Era só um menino. Era Deus!

- Qual o nome da criança? – balbuciei com a voz afinada pelo nervosismo. Em seguida me odiei por ter me manifestado. Quem é que pergunta o nome de Deus? Mas…

O pai nos avistou, virou-se, sondou com estranheza a presença de tantos homens à porta do estábulo. Olhou para a esposa deitada, fitou a criança. Seus olhos marejaram como eu vira poucas vezes antes num judeu adulto. Ele olhou para o céu, avistou a estrela reluzente. Sorriu.

Eu jamais me esquecerei. Naquela noite em Belém, eu ouvi pela primeira vez o nome.

- Jesus… O nome é Jesus.

Então, repentinamente, me veio um cântico à mente. Nem sei de onde me lembrei. Talvez de tempos antigos, talvez dos tais anjos que nem vi no campo. Foi que, posto à cena, meus lábios tremeram e entoaram em gratidão imensa: ‘Gloria a Deus nas alturas! E paz na terra aos homens de boa vontade!’. Hallelujah!”

Na falta do que dizer…

por Luiz Henrique Matos

Faz umas quatro horas que estou tentando escrever algo aqui nessa tela. Já comecei quatro textos diferentes, esse é o quinto. Acho que agora vai. Acho.

O último eu parei duas vezes. Na primeira, para dar a mamadeira para a Nina, que chorou lá do berço pedindo seu leitinho. Altíssima prioridade. Na segunda, também pela Nina, que resmungava os primeiros gemidos dando sinal de acordaria em breve.

Pensei em deixa-la ali no berço, afinal já passam das onze e é hora de bebê estar dormindo. Mas não resisti. Olhei aquele rostinho, aquele olhar de quem acorda e ainda dorme me sondando, o sorriso banguela se construindo no rosto e a mãozinha vindo na direção das minhas bochechas. Ela me aperta. Mão macia. Mas precisa cortar as unhas. Ela pede colo. Peguei-a e vim para a sala brincar. Isso sim, mais importante do que qualquer palavra mal escrita numa tela de computador.

Me veio à mente então uma pérola: mais importante do que as coisas passageiras que depois podem ser feitas, é dar valor ao que passa rápido e quando vê já não se pode mais fazer (éca, ficou péssimo isso).

Ela só tem cinco meses, mas sinto que a cada hora longe de casa, perco um novo sinal de seu crescimento. Ela já tem cinco meses.

Enquanto escrevo, ela me sonda por cima da tela. Sentada na cadeirinha de balanço (que preferiu, preterindo meu colo), olha insistentemente para mim enquanto narro em voz alta as palavras que despejo nesse teclado. Ela gosta. Ela ri timidamente. Ela não está com sono, definitivamente.

Que valor tem o tempo, afinal? Que prioridade tem as coisas tão urgentes, perto do que é mais importante? Quero saber, um dia lá na frente, que fiz a coisa certa. Que as escolhas, as mais simples, foram as que causaram impacto e tornaram nobre e valioso o viver. Que o olhar apaixonante e curioso de um bebê é, no fim das contas, maior do que o prazo das tarefas no escritório, maior do que o sono, melhor do que o melhor clássico de futebol na tv.

Falando em clássico, a música de Ravel toca ao fundo, completada pela trilha sonora do ritmo da chupeta colorida que estala naquela boquinha vermelha.

Ela me olha fundo nos olhos. Como faz a mãe dela, quando quer me dizer algo sem precisar abrir a boca. E vejo nesse olhar sua inocência, vejo minha filha, me vejo, sangue do meu sangue, vejo um bebê, vejo a mulher que um dia virá a ser (e aí já não quero mais ver nada porque isso vai longe demais pro meu gosto).

Agora ela observa a própria mão, abrindo e fechando. Ela raspa as pontas dos dedos no estofado para saber a textura que tem. Aprende algo novo. Ela tenta alcançar algo que está pendurado no arco da cadeira e arrancar dali a todo custo. Ela se revira toda para saber como ficar, cair, não… ixi, peraí, preciso arrumar… ufa, foi por um triz! Ela tenta engolir um brinquedo maior do que sua cabeça. Ela baba pra caramba.

Pensando bem no primeiro parágrafo dessa história, acho que o texto não dará em nada, senão nesse despejar de palavras e sentimentos que, a bem da verdade, não dizem muita coisa para o cristianismo de alguém. Talvez até digam ou sirvam para tratar de prioridades, para pregar uma vida mais simples e despretensiosa, para dizer que as coisas realmente valiosas e divertidas também não estão em nossa conta bancária (ah, mas não mesmo, dirão os endividados mas você entende do que estou falando).Acho que ela é destra. Puxou o pai?

Pensando bem, acho que o melhor a fazer é abandonar esse computador e voltar a brincar com minha princesinha. É, filhos nos dão essa vantagem, podemos voltar a ver desenho animado e brincar de ser criança sem que os outros adultos nos julguem idiotas. Pelo contrario, até acham bonito, nobre, pedagógico, estimula o sei-lá-o-quê da criança. Eu só sei de uma coisa: é bem legal.

Ela tem cosquinhas. Ela gosta do meu colo… (ou talvez não tenha muita opção). Ela gosta de cheirar um paninho, igual aquele personagem do Snoopy. Puxou a mãe? Opa, ela pediu colo. Agora está aqui deitada nos meus braços e com a cabeça recostada sobre meu peito. Nada paga essa sensação. Volto a um raciocínio antigo, mas que me visita toda semana: Deus nos dá a chance de ter filhos para que possamos, numa minúscula fração, entender o que ele sente como pai.

Ela não fala nada às vezes acho que ela acha que fala , só sorri, chora e resmunga de vez em quando. Mas nem precisa, você sabe bem disso. É que… ahn, aqueles olhinhos, aquelas mãozinhas, aquele sorrisinho… bem, isso não tem nada de diminutivo. Na falta do que dizer, o momento diz tudo.Talvez, voltando ao raciocínio do parágrafo aí de cima, talvez isso também seja a grande lição da paternidade divina. Ele contempla, ele prioriza, se enche de orgulho, sofre, ele sabe… sim, sempre sabe e ama sob qualquer condição.

Pensando… bem, agüenta firme aí que eu vou curtir minha cria.

Cenas natalinas: O filho

por Luiz Henrique Matos

Olhando para aquele berço improvisado a mulher e seu marido observavam o fruto daqueles nove meses que se passaram. Deitada, ainda fraca e cansada pelo esforço do parto, a jovem tinha sono e tentava cobrir-se para proteger o corpo daquela madrugada fria. Tudo parecia um tanto confuso, mas agora ela era mãe e nada lhe parecia mais glorioso do que esse fato.

O homem trouxe-lhe a criança, um menino, que tomou sem jeito nos braços na tentativa de amamentar pela primeira vez. Um bebê tão frágil, os gestos curtos, o choro sufocado, os pequenos olhos que mal se abriam, tinha fome.

Ela olhava a criança de forma contemplativa. Sem desviar o olhar, sondou o marido que, de pé à frente, a observava cuidadoso. Seus olhares se cruzaram na cumplicidade do momento, em união por aquela nova vida. O que dizer? Era difícil acreditar, os dois sabiam. E foi sem querer que lhe escapou pelos lábios um pensamento. Num misto de dúvida e adoração a jovem Maria disse: “Esse é Deus…”.

A poucos quilômetros, não longe dali, em um campo de ovelhas próximo a Belém, os anjos se reuniam para cantar seu coro de louvor: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade!”.

Para os pastores que ouviam a anunciação e a festa celestial, o Messias era nascido. Para aquele casal, milagrosamente seu filho viera ao mundo. Uma criança! “O que fazer?”, pensavam Maria e José. O que ensinaria uma camponesa pobre para o próprio Deus que saíra de seu ventre? Um menino…

“Maria, porém, guardava todas essas coisas e sobre elas refletia em seu coração” (Lucas 2:20).

* * *

E cresceu o nazareno nas terras da Galiléia, discreto, sem nada de especial em sua vida que merecesse algum relato. Ajudava o pai nos serviços da carpintaria. E por trinta anos foi assim. Tão homem, tão simples, pobre e até comum. Ele não era diferente dos outros jovens senão por sua bondade, simpatia e graça naturais. Tinha autoridade e era aplicado no estudo das Escrituras, gostava de todos, mas não havia nada do que um judeu esperaria do Messias naquele galileu.

Sim, é verdade, ele veio a operar milagres pouco tempo depois, curando enfermos, expulsando demônios, caminhando por sobre as águas e até multiplicando alimentos. Mas também ele mesmo disse que qualquer um daqueles que nele criam também seriam capazes de realiza-los.

Jesus, o Cristo. Sim, era totalmente Deus. Mas não viveu como tal. E era ele homem também, plenamente. E assim decidiu viver, pleno homem em seus sentimentos e dúvidas. Nas amizades, sentado à mesa, deitado em seu sono, prostrado em suas preces. Caminhava, trabalhava, vivia a vida como viveria qualquer outro judeu pobre daqueles dias. Anunciou seu propósito com a voz de sua própria garganta, tocou as pessoas com a palma das próprias mãos, sentiu o afago de seus amigos reclinado à mesa na noite da ceia.

E depois, no fim daquela jornada breve e marcante, na cruz, ele também foi homem. Sofreu mais do que poderíamos sofrer. Teve medo. Ali sentiu tudo quanto poderíamos passar. Teve sede. Teve forças para pedir ao fiel amigo que cuidasse de sua mãe, aquela que via seu filho padecer e talvez tenha se lembrado do pequeno bebê que concebera em Belém. Ele pagou um preço que jamais, jamais seremos capazes de honrar. Foi tentado, em tudo. Teve misericórdia de seus algozes. Foi condenado. Morreu Jesus, o homem e Deus, crucificado numa tarde de Páscoa em Jerusalém.

Mas venceu a morte, ressuscitou. Pagou nossa dívida, tomou-nos como propriedade sua e nos fez livres da vergonha, do erro, da dor. E agora livres, podemos servir, podemos adorar, amar e viver a vida plena, completa, eterna ao lado de nosso Deus, bom Pai, puro Mestre, Jesus.

Sobre isso, diria a verdade religiosa num cântico de nossos dias: “Morreu a nossa morte para vivermos a sua vida”. E disse também um grande homem de Deus de tempos mais antigos: “Ser cristão é olhar para Jesus e dizer: ‘Esse homem para mim é Deus!’”(Martinho Lutero).

“Porque Deus tanto amou o mundo que deu seu Filho Único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele.” (João 3:16-17).

Um novo reino

por Luiz Henrique Matos

Relatos desse mesmo dia, em algum lugar de uma época…

Essa noite trovoou lá fora, ouvi os estrondos e as águas correntes da chuva despencando do céu. Escutei os brados da guarda marchando pelas ruas, ouvi as velhas ameaças do mal em seus movimentos, as injúrias opressoras contra um inimigo silencioso que não se podia distinguir pelo som e que chegava inesperadamente tomando as ruas com sua presença pacífica.

E dizem os poucos que viram que o que era a ordem vigente, passou de repente a mudar seu posto. As armas foram todas ao chão, os soldados mudaram de lado. E o que era escuro foi então clareando. Onde estavam as sombras houve a luz. E com o cair da noite, fez-se o dia reluzente.

Ao cantar do galo, todos se levantaram, as ruas foram cheias do perfume do café com pão fresco que saía das casas, as gotas de orvalho eram vistas sobre as plantas, o cheiro da chuva que caiu na terra ainda impregnava o ar e aos poucos os primeiros trabalhadores saíam para o trabalho.

Mas apesar da rotina aparentemente inalterada, todos sabiam da mudança. Sim, havia a certeza de que algo estava diferente. E no íntimo, sem qualquer anúncio público, souberam da presença de um novo rei que tomara o poder naquelas horas de trovões.

E foi assim, silencioso e de assalto, que nasceu o dia da grande conquista, este foi o dia em que o AMOR assentou-se em seu trono sobre a terra.

* * *

Mas ainda que incólume sobre a vida de seu povo, nas entranhas e estruturas da sociedade, grandes reformas foram implementadas. Em instantes, viu-se como nunca em toda a história, a transformação do mundo.

E esse é o dia em que a arrogância declina à humildade e toda guerra nos continentes finda em plena paz. As tempestades foram acalmadas, o frio amenizado e os que eram pobres naquelas ruas já sentem-se supridos pelo calor e sustento de seu novo rei.

Do seu trono, o amor não observa alheio, ele desce para estar entre o povo. Sua glória, afinal, é percebida e todos são tocados pela sua presença.

“Quão nobre e bom é o nosso rei!” – diz o povo em cada esquina.

O povo está alegre e há festa, com música e dança na corte. Os servos celebram não mais pela opressão de um tirano, mas agora pela liberdade extraordinária e também a certeza do que não se vê, mas sabe-se, ah como sabe-se, que está entre eles.

“Que reine eternamente o amor!” – proclamam pelas praças e em suas casas.

Nessas praças, a corrupção se exauriu e cresce a honra. O roubo desapareceu e se faz vistosa a honestidade, a miséria enfraqueceu e farta está tornando-se a prosperidade, que agora é de todos e não de apenas uns.

Nas casas, pais, mães e filhos crescem na unidade, verdade e na partilha. Prosperam como o mundo todo agora o faz. Em sua mesa há paz, em seus leitos carinho. A família é uma só. E o amor está entre eles.

Eu, de minha pequenez, junto-me a todos e me dobro diante do amor. Sinto todo o meu vazio ser preenchido e minha vida é renovada nessa fonte.

“Que rei é esse?” – perguntam-se todos – “Anda entre nós, nos traz para perto de si” – certamente em nada se parece com os que o precederam no governo.

Um rei sem erros, mágoas ou ciúmes. Um rei bondoso, puro, paciente e eterno. E que somente por si e seu povo, tudo suportou, tudo sofreu, tudo esperou para que chegasse este dia, em que os vê face a face.

E por cada alameda ou fresta deste mundo novo, o amor fez-se governante, não mais com guerras, batalhas, políticas ou negociatas obscuras. O amor não arromba, não mata, não toma. Ele conquista.

Tão próximo de cada um de nós, o vemos refletido uns nos outros, na face da alegria, da esperança, da misericórdia e na verdade.

Os jornais anunciam que foram abertas as cadeias, porque já não existem mais ladrões. Aos ventos ouve-se o novo anúncio: “Acabou a religião!”.

Foi destituída a igreja dos homens, porque agora já não há doutrina, tão pouco normas, divisões, diferenças ou denominações. As instituições deixam de existir, todos os povos vivem em comunhão e nós, homens, nos sentimos parte de uma mesma família.

Hoje todos conhecem e vivem a verdade única, afirmação de posse do novo rei, conduta de vida nesta terra que se renova e gravada para a eternidade: “O reino do amor é construído no coração do homem. E ali o nosso senhor edifica sua morada”.

E ao fundo, ouve-se a voz de um de seus filhos, o profeta. Sua declaração encontra descanso na alma de todo o povo e testifica para a eternidade:

“Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1 João 4:8).

* * *

“As doze portas eram doze pérolas, cada porta feita de uma única pérola. A rua principal da cidade era de ouro puro, como vidro transparente. Não vi templo algum na cidade, pois o Senhor Deus Todo-poderoso e o Cordeiro são o seu templo. A cidade não precisa de sol nem de lua para brilharem sobre ela, pois a glória de Deus a ilumina, e o Cordeiro é a sua candeia. As nações andarão em sua luz, e os reis da terra lhe trarão a sua glória. Suas portas jamais se fecharão de dia, pois ali não haverá noite. A glória e a honra das nações lhe serão trazidas” (Apocalipse 21:26).

Quantos pães?

por Luiz Henrique Matos

- Trinta moedas de prata!

- Trinta? É muito pouco, quero mais.

- Bah! Não me faça perder tempo, Iscariotes, são trinta moedas que te ofereço, nada mais! Não entendo essa sua incerteza, se o tal Jesus é mesmo o Cristo que você segue há tempos, capaz de “salvar o mundo e nos libertar do mal” – esnobou com ironia – porque afinal o receio em aceitar minha oferta? Só vai lucrar com isso.

- Bem, na verdade eu seguia um salvador que viria nos libertar dos romanos e fazer nosso povo livre, mas ele só fala em perdão, amor, salvação, tudo uma grande bobagem. Certos estão os rebeldes, precisamos lutar! Só que ao mesmo tempo, ele fez tantos milagres…

- Milagres! Milagres! Parece doença, esse povo só sabe falar disso agora. Quanta blasfêmia! Imagine, um carpinteiro galileu se dizer o Messias!

- Todo o povo crê. Os outros onze também. Eu só cuido das finanças…

- Não vou perder meu tempo com você, traidor imundo! Quer ou não a prata?

- Tudo bem, eu aceito – disse após olhar para baixo sondando os próprios pés, coçar a cabeça acima da nuca, pensar por alguns instantes e se entregar constrangido.

- Hahahahah – gargalhou sarcasticamente sacerdote – idiota, fez um bom negócio. Agora suma daqui. Logo meus homens o acompanharão para caçar o criminoso.

Trinta moedas de prata. Hoje isso equivaleria a três meses de salário de um trabalhador médio, algo na faixa dos dois mil reais. O que se compra, ou melhor, o que se vende por esse valor? Lembro-me de um conhecido, ex-padeiro, que costumava calcular o dinheiro que ganhava no trabalho baseando-se na quantidade de pãezinhos que era possível comprar ou vender com o tal valor. Tomando sua matemática como parâmetro, as trinta moedas de prata seriam suficientes para se vender oito mil pães.

- Ei! Sabe mesmo onde está nos levando? – perguntou intrigado o guarda ao discípulo que caminhava ofegante.

- Sim, eu sei. Estivemos juntos hoje. É por aqui, no alto daquele monte. Ele foi até lá para orar.

- A essa hora da noite… é bom ficarmos atentos. Esse traidor pode estar nos levando para uma emboscada.

- Já o vejo, ali está. Junto com mais três – disse ignorando a opinião do soldado.

- Vamos nos aproximar. Aponta-nos quem é o Jesus e nós o prenderemos.

Ele se aproximou. Ao que o Mestre observava, junto de Pedro, João e Tiago intrigados. Caminhou na direção de Cristo e beijou-lhe a face.

- Salve, Mestre!

- Judas, com um beijo você está traindo o Filho do homem? – Judas nada disse e afastou-se cabisbaixo.

- Prendam-no! – gritou o chefe dos guardas enquanto avançava como um cão na direção do Deus vivo.

Hoje, com as trinta moedas, meu amigo venderia milhares de pães em seu comércio. Judas, com a mesma quantia vendeu um só, o Pão da Vida. Mas no dia seguinte, ao contrário dos últimos três anos, não houve Pão na manhã do Iscariotes. Houve sim um vazio amargo, houve fome e ausência da única coisa que de alguma forma o alimentava. Houve remorso. Remorso que o fez notar a estupidez de seu gesto e correr, ainda ofegante, ao templo para falar com os líderes que o pagaram.

- O que quer? – perguntou o principal ao vê-lo se aproximando.

- Parem essa barbárie, estão o machucando.

- Do que está falando traidor?

- Pequei, pois traí sangue inocente.

Suas palavras, ditas àqueles homens determinados, soaram como ironia.

- Que nos importa? – disseram – a responsabilidade é sua.

- Mas não…

- Saia!

- Não podem mata-lo!

- Saia daqui, já lhe disse!

Então, Judas pegou o dinheiro que recebeu e lançou contra o templo e os que estavam ali. E fugiu. Serpenteou angustiado pelas vielas e ruas estreitas de Jerusalém, sentia-se preso aos sentimentos que, como fogo, ardiam em seu peito e atordoado pelas acusações que, como estaca, os demônios fincavam em sua mente. Em sua batalha pessoal podia ouvir a voz de seu Mestre ecoando nas pregações, ao longo daqueles três anos juntos.

- Arrependam-se, pois o reino dos céus está próximo – lembrava as palavras do profeta João Batista que pouco antes sinalizava a vinda do Messias.

- Arrependam-se, pois o reino dos céus está próximo – era então o próprio Messias iniciando Seu ministério.

- Segue-me – ouviu pessoalmente o seu chamado.

- Tenha bom ânimo, filho; os seus pecados estão perdoados – disse Cristo a um paralítico antes de cura-lo e a tantos outros quanto vinham a Ele.

- Eu não vim chamar justos, mas pecadores ao arrependimento.

- Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso.

- Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim.

- Nem eu tão pouco te condeno. Agora vá e abandone a sua vida de pecado.

E assim Judas conhecia cada mensagem, ouviu de perto, seguiu ao lado daquEle que traiu e que, de forma irônica, naquele instante era o único capaz de livra-lo do mal que o assolava. A lembrança recente vinha-lhe à memória.

- Digo-lhes que certamente um de vocês me trairá.

- Senhor, sou eu? – ele perguntou, já pensando em seu gesto.

- Tu o disses – e dessa hora em diante viu sua vida pacata transformando.

- Agora é tarde, ele já está sendo julgado – dizia Judas para si mesmo enquanto corria – porque não compreendi tudo isso antes? Me lembro dessas palavras, me lembro de sua mensagem. Eu sei, sabia desde a ceia, seria eu o traidor. Mas e agora, onde está a resposta que me foge diante desse tormento insuportável? Onde está minha luz?

Era tarde para corrigir seu gesto inconseqüente, mas não para obedecer ao mandamento. Viu Jesus proclamar arrependimento e conceder o perdão por tantas vezes ao tipo mais imundo de gente, que se entregavam a Ele todos os dias, mas esqueceu-se de que ele mesmo precisava se entregar. Então lembrou, sentia-se sujo. E degladiava com os demônios que, sedentos, lançavam-se contra sua vida.

Esfregava a face procurando enxergar o que deveria estar tão nítido. Estava cego, não viu a clareira que brilhou em sua escuridão. A vista lhe ficava turva, a Verdade cada vez mais distante. O medo tomou-lhe de ímpeto, a angústia, a dor, o frio. Seu mundo agora era de trevas, seu destino desviou-se do propósito, Judas tinha uma chance, mas só encontrou uma mentira. “E, saindo, foi e enforcou-se”.

* * *

Judas conheceu a pessoa de Jesus, mas não vislumbrou o Deus que havia n’Ele. Esteve com o Pão que vendeu, mas não provou de Seu sustento. Viu Jesus multiplicar os cinco pãezinhos do garoto em tantos quantos suas moedas de prata não poderiam comprar. Vendeu-se por tão pouco. Ainda na última noite, antes da traição, partilhou com Cristo e os outros onze um outro pão, na ceia, símbolo eterno de Seu corpo que seria dado em sacrifício dali a pouco.

Ele conhecia bem suas opções. As duas únicas dadas a todo homem que peca: a vida ou a morte. Podia arrepender-se, pedir perdão ao seu Senhor e viver a eternidade livre de seu erro. Mas também podia achar seu erro grande demais, pensar que para ele não haveria salvação, entregar-se à mentira diabólica e ser consumido pela morte.

Judas Iscariotes trilhou pelo segundo caminho. Escolheu a morte e não aprendeu que em Cristo o arrependimento por si só não é suficiente, é necessária a confissão.

E como foi dado a Judas em conseqüência do pecado, diante dos filhos de Deus também estão dois caminhos, apenas dois, que o Senhor de toda forma tentou ensinar-lhe antes que fosse tarde.

Para Judas foi tarde demais, mas para os outros, bem, aos outros resta a opção.

“Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram” (Marcos 7:13-14).

O hospital dos sãos

por Luiz Henrique Matos

“Somos pela religião contra as religiões” (Victor Hugo).

Conto-lhes, por uma vez essa história, que aconteceu em certo ano aqui na capital, onde fora fundado o Hospital dos Sãos. A monumental obra tivera seu início anunciado e em apenas seis meses erguera-se como a construção imponente, que deixava admirado todo o povo do local.

Para a cidade vieram, segundo fontes, os médicos mais bem estabelecidos da nação, diplomados com honras e proprietários de tamanha autoridade em suas teorias clínicas.

Foi então fundada a clinica, famosa por seu corpo médico excelente e deveras por seu propósito singular e inovador: o Hospital dos Sãos empenhava-se em atender apenas os cidadãos de saúde indiscutivelmente impecável.

Ali, eram atendidos aqueles que não careciam de tratamento e gozavam de saúde intacta. Nada de enfermos, coxos, deficientes ou indivíduos carentes, a clinica existia para hospedar os que não possuíam registros em outros estabelecimentos concorrentes e para louvar os Sãos.

Os médicos, igualmente perfeitos, foram treinados e capacitados a doutrinar seus clientes sob a penosa Lei, que condenaria os doentes desobedientes e engrandeceria de forma ímpar os saudáveis “eleitos”. Dizem até, pela surdina, alguns que lá estiveram, que os doutores recitavam a “glória” a seus pacientes em doses clinicas na medida de seu vigor.

Julgando-se a circunstância, um contumaz cumpridor de hábitos saudáveis, mediante a Lei, poderia chegar ao ponto de ser gratificado com um diagnóstico instantâneo e – segundo bula – com a posologia devida. A título de exemplo, seguem aqui algumas: cinco aplicações de Tapi-Nhas NasCostas a serem dadas em uma única vez, um frasco ao dia de Vai Dad, três cartelas de Alti-wez para os mais confiantes e um tubo de creme facial de nome Péh Roba, espalhado pelo rosto antes e após circunstâncias de pressão altíssima.

Os sãos eram celebrados, surgiam como bonecas plastificadas nas colunas sociais do jornal local, patrocinado pelo oculto e discreto proprietário do hospital, que na boca do povo era conhecido vulgar e popularmente pelo trocadilho de “o homem que compra a são-tidade”. Estavam, pois, brincando de deuses e celebrando a si próprios.

Aconteceu que naquela cidade, ainda pouco populosa apesar de tratar-se da capital, todos os cidadãos achavam-se sãos e imunes de toda e qualquer deficiência, logo, dignos do prontuário máximo do aclamado estabelecimento.

Ao que para surpresa de todos, dia a dia os médicos passaram a rejeitar pacientes sob o grave diagnóstico de que sofriam eles, vejam só, de doenças mortais!

E de fato, sabe-se hoje, sofriam. E sofriam delas também os próprios médicos que… bem, nisso falarei mais adiante.

O alvoroço foi tamanho por conta dos pareceres que os “sábios” doutores isolaram-se em suas Leis e consultórios e renegaram os cidadãos, condenando-os ao vazio fatal.

Não fosse isso, o pior. Ouriçado com a boa notícia da fundação do Hospital dos Sãos, meses antes o prefeito decretou que fossem fechadas todas as clinicas que atendiam e recebiam enfermos. Afinal, deveriam prevalecer na cidade apenas os eleitos, segundo sua ordem.

Mas todos estavam tomados pelo desespero e crentes de que, segundo a Lei, morreriam de fato.

E assim viveram muitas gerações. Tantos morreram crendo em seu penoso fim, enquanto outros tantos, descendentes dos médicos, possuíram ano após ano o Hospital e suas imediações, chegando a comercializar a “verdade” de sua Lei, deturpando a própria insanidade.

* * *

Apareceu então, certa feita, um forasteiro. Homem simples e humilde, cabelos longos e barba na face. Túnica impecável e sandálias. Rapaz moço, de fala mansa, sorriso largo e grande carisma. Vinha de uma província não muito distante e sabia-se pelos mensageiros, tinha como capacidade nova o conhecimento da Lei dos Sãos e a ensinava abertamente a todos.

Da Galiléia, d’onde vinha, sabia-se que era carpinteiro. Em seu discurso, palavras fáceis acerca daquilo que tanto sofriam os cidadãos e seus descendentes desde a fundação daquela doutrina, convenhamos, insana.

Não bastasse, sabia-se que o tal carpinteiro, acompanhado de doze amigos, vinha a realizar proezas e milagres pelas terras que seguia, inclusive, pasme, curando enfermos!

Souberam então os médicos da presença do vil invasor. Providenciaram que dentre os seus, alguns fossem observa-lo a fim de avaliar, compreender e disseminar qual afinal era sua enfermidade. Feito tal, pensavam, seria prático o plano de denunciar aos ventos a sua invalidez e condena-lo ao fim mortal, tão comum ao povo reles.

Porém, pobres, investigaram e não acharam nele mal algum. Não havia falha, tampouco doença ou descumprimento da Lei. Tão sábio, tão simples, tão perspicaz… tão perigoso!

Porque não estava então entre os doutores? É de se perguntar. Mas não, ele não poderia. Certamente não estava entre estes o seu convívio, nem para os quais viera de tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe. Ao contrário disso, caminhava ao lado dos doentes, das prostitutas e dos pobres. Como podia? Aos olhos de seus algozes, deveria ele estar contaminado pelo vírus daquele povo imundo.

Contam os livrinhos que a partir de um dia, passou a defrontar-se com os “doutores da Lei” e a eles expôs sua Verdade. Afinal, dizia, ele era o único caminho, era ele próprio a verdade e também a vida, por meio da qual viria a salvação daquele povo que por anos viveu sob condenação escrava. Na ocasião, imagine só, chamou aos doutores de hipócritas e os colocou na condição de doentes.

Entrou o forasteiro no Hospital dos Sãos e derrubou as mesas de comércio que tomavam aquele lugar. Expulsou dali os que desonraram a pura e real cura e declarou indignado a quem verdadeiramente pertencia aquele local, usado de forma horrível por tantos e tantos anos, um Pai Criador, chamado por ele mesmo dessa forma.

Mas o antigo, misterioso e nesse momento suposto proprietário da clínica continuara ali nos arredores, oprimindo e acusando o povo, colocando seu corpo de profissionais a trabalho da Lei humana e dirigidos em um propósito único e momentâneo: eliminar aquele forasteiro ameaçador.

E o galileu simpático afirmou a todos quantos desejassem ouvir, que seria ele o ponto final na condenação mortal de todos os homens. E revelou o fato de que os doutores, sim, sofriam eles do mesmo mal ao qual condenaram tantos à morte, sendo também portadores do vírus letal, chamado pelo nome verdadeiro: Pecado. E o pecado, impregnado em todo o povo, deveria ser removido.

Durante os três anos de suas idas e vindas pelas bandas da capital, armou-se entre os doutores a tocaia para sua prisão. Eles, como feras famintas e cegas, ansiavam pela morte daquele que julgavam ser blasfemo e enganador, sem saber explicar como lhe era possível tanto conhecimento e poder.

Ao mesmo tempo, crescia de forma incontrolável a sua fama e proporcionalmente a multidão que o seguia. Tantos cegos agora vendo, aleijados andando, surdos ouvindo, leprosos limpos, mortos ressurretos, endemoniados libertos, poder emanando de suas vestes e agindo por meio daquele homem, Filho do homem, são e santo, que amava e curava pecadores.

Já não havia condenação. Eram por meio dele de fato, como o próprio dizia, “feitas novas todas as coisas”.

E por hora, chegamos aqui ao ponto conclusivo dessa narrativa, quando ao fim dos dias, sabe-se que com 33 anos de idade o galileu chamado Jesus reuniu-se com seus discípulos pela vez derradeira e insistiu outro instante na estranha idéia de que morreria em breve. Fato este, sabe-se, incompreensível a qualquer um que o tinha como Messias.

E foi entregue nessa mesma noite, ali na capital, levado pelos braços pesados dos guardas, conduzido à presença dos doutores da Lei, que lambendo o veneno que lhes escorria pelos lábios, mentiram a respeito da vida santa de seu condenado, provando dessa forma, quem eram os pecadores afinal.

Sem doenças, sem pecado, sem máculas, assim estava diante de todos, doutores e povos reunidos, todos sabendo e vendo sua pureza, mas fizeram juntos o coro da falsidade doentia e pecaminosa bradando por sua morte: Crucifica-o!

Morreu na cruz o misericordioso galileu.

Três dias depois, ouviu-se outro alvoroço dentre o povo. Seus seguidores, aqueles doze, o viram novamente. Jesus havia ressuscitado e trazia consigo uma surpresa maravilhosa: com ele, na cruz, morreram todos os pecados e doenças da humanidade e na sua ressurreição, estabelecia-se a prova grandiosa de que era findo o período da morte e vivo, eternamente vivo, todo homem que cresse em seu propósito.

Ressurreição essa que salvou todos os homens, inclusive os médicos doentes que compreenderam seu erro e arrependeram-se. O Cristo, médico dos médicos, enquanto vivo fez perpetuar sua mensagem de cura para os enfermos, receitando dois remédios, de dose diária e perene aos que o reconhecem ainda hoje como seu Senhor redentor: arrependimento e santificação.

Disse um profeta a seu respeito, quatrocentos anos antes de seu nascimento: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças” (Isaías 53:4).

E de forma curiosa viu-se crescer depois disso o grande número de condenados que, crendo em suas palavras, viram-se curados de suas enfermidades. E de certo modo, os que se diziam sãos, foram encontrados perdidos e expostos com suas doenças. O misterioso dono do hospital, agora conhecido pelo seu verdadeiro nome – Satanás – foi revelado como o incompetente perseguidor do Cristo, ao ser derrotado por seu poder e santidade na morte da cruz e na boa nova da ressurreição de Jesus dentre os mortos.

Enfim, lembra-se hoje também, de outros escritos registrados nos livrinhos, que revelam algumas das palavras ditas pelos lábios do próprio Salvador e que nos provam – como se ainda fosse necessário – sua ação por entre aquele povo:

“Os sãos não necessitam de médico, mas, sim, os doentes. Eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores” (Marcos 2:17). “Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso” (Mateus 11:26). “Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Marcos 10:45).

Um instante

por Luiz Henrique Matos

Ele abaixou a cabeça e retirou-se angustiado. Seus olhos marejaram, a garganta travou e seu peito doía incessantemente. Então se isolou, entregou-se e chorou. Percebeu o que havia feito, que grande bobagem! Como era possível?

Há poucas horas suas palavras eram outras, sua firmeza surpreendia, sua fé impressionava. Era uma rocha! Mas agora, era a escória dos homens, um pecador imundo, em nada o santo ou escolhido dentre tantos.

As lembranças dos últimos meses lhe vinham à memória. As grandes aventuras, as experiências de uma nova vida, pescador de homens.

Eram muito nítidos aqueles três anos. Surgira entre eles mais do que um relacionamento disciplinar de mestre para servo, tornaram-se amigos íntimos. Partilhou suas dificuldades, foi franco com suas dúvidas e sentimentos – por vezes até controversos. Foi fraco, foi homem, foi filho e foi irmão.

Viajaram juntos, percorreram toda a Galiléia e a Judéia. Dormiram no deserto, andaram milhas e milhas, comeram da mesma panela, partilharam o mesmo pão.

Em todos os momentos a fidelidade, o amor, o respeito, o serviço. A cada dia um aprendizado e uma experiência nova com o próprio Deus, em carne, osso e… barba.

Estava ali, ao seu lado, o Deus homem que se emociona, que chora, dá bronca, sorri e brinca. O Deus que perdoa satisfeito, cura enfermos, multiplica pães, fala às multidões e depois dorme exausto em seu barco sob a tempestade assustadora. Deus que nasceu menino, frágil e puro. E assim permaneceu.

Agora ele via o Deus vivo quase morto, sem carne, sem sangue e desfigurado. Cuspido, chutado e esmurrado, prestes a ser imolado como um Cordeiro, sem máculas, em seu lugar.

E todas as lembranças correm-lhe a mente num instante, como um filme, e acabam finalmente ali, ao vê-Lo acorrentado, sendo levado pelos guardas a pontapés e socos.

Segundos antes dessa lembrança, seus olhos haviam se cruzado pela última vez e tudo fez um sentido assustador. Ele sentiu-se consumido pelo amor de seu amigo fiel e seu ouvido abriu-se para ouvir um som distante ecoar pela madrugada: o galo cantou, pela terceira vez, ele cantou.

E então a “pedra” chorou e chorou. E clamou arrependida.

“Ainda que todos te abandonem, eu nunca te abandonarei” (Mateus 26:23). “Mas ele o negou diante de todos, dizendo: ‘Não sei do que você está falando’” (Mateus 26:70). “O galo cantou” (Mateus 26:74b). “E saindo dali, chorou amargamente” (Mateus 26:75b).

Jumentologia

por Luiz Henrique Matos

(5º texto da série “Plantar e Colher – Princípios Bíblicos”)

Até agora estou desconcertado, meio eufórico, mas me conforto em saber que eu sou parte da promessa. Você pode ler na sua Bíblia, há claramente uma descrição a meu respeito em uma das profecias que fala do Cristo (Zacarias 9, 9). Mas para esclarecer os fatos, vou lhe contar um pouco de minha história…

Oxente! Eu estava lá, tocando minha vidinha em Betfagé, próximo a Jerusalém, sossegado, na minha. Sempre tranqüilo, ao lado de minha mãe naquela humilde cidade da Judéia. Mas aí um dia, as coisas mudaram para nós.

Chegaram dois homens e sem mais nem menos começaram a desamarrar mâínha e eu do poste onde estávamos presos. Já iam nos levando embora quando outros homens ali do vilarejo perguntaram onde iam aqueles cabras com dois jumentos que nem eram deles. Tiveram ali um dedo de prosa, chegaram em uma conclusão e finda a conversa continuaram levando a gente em direção à entrada da cidade.

“Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, ao Monte das Oliveiras, Jesus enviou dois discípulos, dizendo-lhes: ‘Vão ao povoado que está adiante de vocês; logo encontrarão uma jumenta amarrada, com um jumentinho ao lado. Desamarrem-nos e tragam-nos para mim. Se alguém lhes perguntar algo, digam-lhe que o Senhor precisa deles e logo os enviará de volta’” (Mateus 21, 1-3).

Ali, na entradinha do vilarejo, estava aquele homem alto, forte e barbudo. Junto dele, mais doze cabras que o cercavam e serviam. Então pegaram a mãe e eu, jogaram umas mercadorias no lombo dela e o tal do Mestre (como eles chamavam o cabra forte e barbudo) subiu no meu lombo. Eu mal podia imaginar que enfim, o meu dia de fama estava começando.

“Os discípulos foram e fizeram como Jesus havia ordenado. Trouxeram a jumenta e o jumentinho, colocaram sobre eles os seus mantos, e sobre estes Jesus montou” (Mateus 21, 6-8).

Sendo sincero com você nessa minha autobiografia, sempre sonhei em ser um popstar sabe? Queria ficar famoso e brilhar no showbusiness aqui na minha terra, mas esse não era um lugar de grandes oportunidades para os jumentos. O povo nos recrimina, fala que não somos tão dignos, sei lá, acho tudo isso muito preconceituoso. Até usam nosso nome como artifício para denominar alguns humanos: “Seu jumento!” eu ouvia alguém gritar e logo pensava que era comigo, mas quando via, era alguém ganhando a glória pelos nossos feitos. Mas algum dia, ah algum dia, eu seria reconhecido e mudaria essa perspectiva!

Minha mãe contava a história de um ancestral nosso que era de uma linhagem nobre e até falou com os tais humanos. Êita! Veja só, disse para um cabra coisas que Deus precisava falar e o cabeça dura não ouvia. E olha que o hômi era profeta (mas pelo que ouvi, o tal do profeta Balaão era teimoso que nem um jumento!). Na Bíblia até tem um registro que fala disso (Números 22, 20-31).

Mas eu, Jujúmento de Israel, depois de tanto tempo no ostracismo, esquecido aqui nessa terra, já até achava que minha vida estava mesmo destinada a atividades operacionais e chatas e que de fato, eu nunca brilharia. Mas eis que aquele Mestre é usado para me dar essa glória. Naquele dia ele montou em mim e foi mostrando o caminho do estrelato enquanto dirigia para entrar na cidade.

Cheguei então à via principal daquele local. Via pessoas me cercando, abrindo caminho para eu passar e estendendo mantos e ramos de árvores para dar passagem ao Jujú aqui. Era tudo por minha causa, eu era a estrela brilhando naquele dia e o homem sentado nas minhas costas mostrava para toda aquela gente que um jumentinho pode enfim ser uma celebridade. Gritavam ali umas coisas estranhas: “Rosana! Rosana!” mas eu nem ligava muito (isso lá é nome de macho?) só desfilava com toda pompa e honra.

“Uma grande multidão estendeu seus mantos pelo caminho, outros cortavam ramos de árvores e os espalhavam pelo caminho. A multidão que ia adiante dele e os que o seguiam gritavam: ‘Hosana ao Filho de Davi! Bendito é aquele que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!’” (Mateus 21, 8-9).

E assim foi até chegarmos no centro da cidade. Aí o Mestre desceu do meu lombo, entrou no templo e fez um fuzuê lá dentro. Expulsou uns caras que vendiam coisas por ali, disse que aquela era a casa do Pai dele e que eles não deveriam fazer aquilo. Teve gente que gostou da atitude, mas um monte de cabra casca-grossa não achou nada bom e começou a perseguir o Mestre depois disso.

Eu só sei que tive meu momento de glória. Fui montado por um cabra muito do gente boa e tive meu nome escrito no livro mais publicado e vendido de toda a humanidade. Minha história está lá, para os meus descendentes lerem e lembrarem que jumento também tem seu valor e que eles também podem ser “instrumentos” nas mãos do Criador (sim, Ele também criou os jumentos ãra!).

“Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que vem a ti o teu rei; ele é justo e traz a salvação; ele é humilde e vem montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, filho de jumenta” (Zacarias 9, 9).

* * *

Em suas atribuições sabemos que Deus é o único onipotente, onisciente e onipresente. Criou todas as coisas nessa terra, o tempo, as florestas, os homens e… os jumentos. Cada um de nós foi projetado por Deus para cumprir o Seu propósito e o que Deus sonhou para mim e para você são coisas exclusivas, que só nós poderemos fazer.

Mas há um inimigo muito audaz que pode impedir a concretização dos sonhos de Deus: a nossa carnalidade. Explícita na vaidade, na arrogância, na auto-suficiência, no rancor, na altivez e tantos outros frutos de nossa índole corrupta. O pecado é o que nos separa de Deus. Originalmente, em grego, “pecado” quer dizer “errar o alvo”, ou seja, errar o plano para o qual fomos criados.

Como o Jujúmento em seu texto, somos escolhidos e separados pelo Senhor como instrumentos para a Sua obra e temos todo o potencial e capacidade para cumprir esse chamado. Mas em nossa ignorância requeremos para nós mesmos uma glória que é dEle. Nos dispomos e nos alegramos em ser usados para levar Jesus ao encontro do povo, mas chegamos também a acreditar que o caminho aberto à frente e a celebração são de fato, para nós.

Precisamos aprender a ser mais jumentos e menos humanos em outro aspecto, o real: ter humildade para servir mais e brilhar menos. Carregar sobre nós Aquele que reina e deixar que com os nossos esforços diários e constantes Ele seja visto e adorado. A obra é dEle, nós somos dEle e tudo o que for feito por Ele através de nós, deve refletir a Sua santidade e honrar o Seu nome.

É necessário saber que Deus é Deus apesar de nós e Sua obra a de se cumprir. Precisamos deixar de ser teimosos tal qual jum… ops, Balaão e ser mais humildes como o ancestral de nosso amigo que falou com o profeta.

Sementes - Exerça sua humildade e coloque-se à disposição de Deus para servi-Lo independentemente de sua vontade. Ele quer subir em nossos lombos e ser visto pelos povos através de nossas vidas. Mas Deus não divide Sua glória com ninguém, por isso não queira brilhar ou ser aclamado pelo que faz. A honra é conseqüência de um trabalho feito com excelência, mas a glória e louvor devem ir para o nosso Deus, sempre.